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Expedição Berlim

Os anjos de pensamento e desejo em Serpentes & Serafins

13/12/2024

Adoro histórias de anjos. Nelas, somos instados a crescer internamente e a buscar um mundo melhor a cada dia, mesmo que esse mundo seja perceptível apenas em nossos particulares metros quadrados. Elas também nos incentivam a perdoar os erros alheios e os nossos próprios. Além disso, anjos nos instruem a levar a vida de forma mais apaixonada e intensa, além de revelar sonhos, interpretar vontades, realizar desejos e por vezes fomentá-los.

No delicioso Um Anjo Caiu do Céu (The Bishop’s Wife, 1947), a família do clérigo interpretado por David Niven é salva pelo bem-humorado anjo vivido por Cary Grant. O que o anjo não contava era desenvolver um amor intenso — e casto, afinal estamos falando de Grant — pela esposa do seu anfitrião vivida por Loretta Young. Histórias de anjos caindo por amor humano são tão antigas quanto a Bíblia – vide o relato de Gênesis 6 — mas poucas são tão ilustrativas desse amor proibido e frutífero quanto a o filme Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin).

um anjo que caiu do céu

Nele, um anjo aprisionado em um mundo frio e cinzento se apaixona por uma trapezista e queda em uma existência mortal repleta de descobertas, paixões e cores, muitas cores. O filme dirigido pelo alemão Wim Wenders em 1987 — além da continuação Tão Longe, Tão perto (In weiter Ferne, so nah!, 1993) e da refilmagem estadunidense Cidade dos Anjos (City of Angels, 1998) — envelheceu bem e quanto mais o tempo passa, mais ele se torna uma necessária metáfora tanto das diferenças entre o céu e a terra quanto do que dividia Berlim enquanto capitalismo e socialismo em meio aos eventos que levaram à queda do muro. 

A cidade inspirou também outros artistas e músicos, como a banda U2, que compôs na capital alemã talvez seu melhor disco — Achtung Baby (1991) — justamente um compósito tecno-rock-pop-experimental que definiria muitas das tendências musicais dos anos 1990. O disco seguinte, Zooropa (1993), dialogaria com o filme de Wenders, com a canção “Stay (Faraway, So Close!)” ganhando um clipe que colocava Bono no alto dos ombros do anjo dourado que abençoa Berlim e que serve de mote para os anjos de ideia e desejo de Wenders. 

Wim Wenders e U2 perpassam a trama de Serpentes & Serafins, além da própria cidade de Berlim, que ganha no livro contornos diversos de amor e desejo, guerra e conflito, sonho e pesadelo, elementos que exemplificam muitas das nossas experiências quando o assunto é século XX e XXI. Além disso, a cidade é perfeita para tratarmos da dicotomia religião e ateísmo de um lado, e arte e política de outro, sem falarmos do paradoxo pensamento e corpo. Até que ponto estaríamos todos nós emparedados diante deles é uma questão que a arte e a literatura não param de nos fazer, das alturas dos céus ou dos territórios mais abaixo. 

Serpentes & Serafins nos leva a Berlim após o voo tempestuoso no qual, partindo de São Paulo, o comerciante de arte Alex Dütres encontrou o anjo Barachiel para uma série de revelações enigmáticas e desafiadoras. Agora, esse protagonista um tanto desapaixonado e racional terá de lidar com essas revelações enquanto contata a misteriosa viúva Joana Strauss e sua coleção de arte sacra de autoria de Emanuel Illians. E obviamente, ele — e nós — passearemos pela capital alemã sob as asas de seu icônico guardião dourado.

anjo berlim

Localizado no alto da avenida Dezessete de Junho, que corta o verdejante parque Tiergarten, a luzidia figura angélica paira sobre Berlim, vigiando e protegendo seus habitantes. O “Siegessäule”, ou “Obelisco da Vitória”, é um dos cartões-postais da capital alemã. Tratava-se de uma colunata de mais de setenta metros de altura que homenageava os feitos da antiga Prússia contra a Áustria, a França e a Dinamarca na segunda metade do século XIX. Inaugurado em sua atual localização em 1937, um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, suas paredes ainda estampam o cravejar de balas quando Berlim foi invadida e Hitler, vencido.

Na verdade, trata-se do deus pagão da vitória transmutado pelo imaginário cristão em anjo, um imaginário reforçado pelo filme de Wenders, sobretudo pela cena do anjo Cassiel — interpretado por Bruno Ganz — e depois por Bono no clipe de “Stay”. Para Alex, e para os leitores de Serpentes & Serafins a passagem pelo anjo serve de metáfora para o encontro — no alto dos céus tempestuosos de um voo noturno — com o anjo Barachiel e suas histórias de um de Deus apaixonado por suas criaturas imperfeitas, de heróis entregues à dança dos corpos e de uma narrativa marcada por beleza e horror, arte e feitos de guerra e destruição.

Além desse e outros marcos da cidade — como a torre de notícias, a Berliner Fernsehturm, e a praça de inspiração italiana Gendarmenmarkt —, o romance dá grande destaque aos seus canais. Em especial, ao trecho no qual o rio Spree se divide em dois, dando origem à Ilha dos Museus e culminando na Berliner Dom, a famosa catedral que se emparelhava à Basílica de São Pedro, no Vaticano, e à Catedral de São Paulo, em Londres. Trata-se de uma Berlim que é explorada a pé, tanto por Alex quanto por um emblemático ser que está em seu encalço. 

museum insel

Visitar a capital alemã é também testemunhar a reinvenção de uma capital que sobreviveu à destruição de duas guerras mundiais e ao renascimento cultural e artístico perceptível em filmes, discos e livros. Falando em literatura e língua, foi também a Alemanha que nos deu Goethe e seu Fausto, a versão mais conhecida do mito medieval sobre a barganha entre um homem e um demônio tendo por moeda alma, conhecimento e poder.

O mito de Fausto, que também receberia versões de Christopher Marlowe, Fernando Pessoa e Thomas Mann, entre outros, é um dos temas que sempre me fascinaram: a ideia de que poderíamos receber dos céus — ou dos infernos — visitas de sabedoria e aprendizado. Serpentes & Serafins leva esse tema até seus limites, fazendo de Barachiel e de Samael um par de imperfeitos Mefistófeles que testam a fé, o conhecimento e a persistência desse Fausto moderno que é Alex, um viajante do mundo e das estradas sedento por revelação e, acima de tudo, salvação, senão nos paraísos divinos, aqui mesmo na terra.

fausto

No seu “Fausto e Mefisto jogando Xadrez” (1850), de Friedrich August Moritz Retzsch, o pintor opõe um jovem estudioso de magia e ciência diante de um astuto demônio que parece estar levando vantagem no jogo, a julgar pelas peças que está surrupiando do oponente humano. Atrás deles, um tanto enfadado, um anjo assiste ao velho embate perguntando-se se o demônio levará a melhor sobre o homem. Aonde estaria Deus durante esse jogo? Será que o assistindo, como nós mesmos diante de antigas e novas histórias de anjos? 

Seis anos depois de Achtung Baby, o U2 produziria POP, um dos mais amados e odiados discos da história da banda. Independentemente de gostos pessoais, esse disco nos brinda com “Wake Up Dead Man”, uma canção que fecha o disco e que abre a experiência de Alex em um aeroporto em Serpentes & Serafins. Na letra, Bono suplica que Deus volte, o Deus da Cruz e de Nietzsche, o Deus em silêncio, o Deus que parece ter dado ao Diabo o controle do mundo. Mas no mesmo disco, os irlandeses também produzem “If God Will Send His Angels”, cogitando um ser divino que usa seus anjos para abraçar e revelar, quando não para beijar, suas criaturas. 

Berlim é uma experiência perfeita para essas canções, pois é uma cidade de luz e sombras, sonhos e pesadelos, esperanças e traumas, uma compêndio inteiro de novos livros, filmes e canções a serem criados para tentar aplacar o sentimento caótico de uma vida que parece não fazer sentido. Barachiel e Samael estão esperando vocês por lá, como estavam esperando Alex e Joana nas páginas de Serpentes & Serafins, um romance sobre as proximidades que nos comovem e as distâncias que nos angustiam.

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Sobre Enéias Tavares

enéias tavaresEnéias Tavares é escritor e professor de literatura clássica, com especialização acadêmica nos livros iluminados de William Blake e na tragédia de William Shakespeare. Publicou pela DarkSide Books os romances Parthenon Místico e Lição de Anatomia, ambos integrando o universo da série Brasiliana Steampunk. Também para a Caveira, organizou e prefaciou O Retrato de Dorian Gray, A Máquina do Tempo, O Rei de Amarelo e O Grande Deus Pã. Além de consultor editorial para a marca Sociedade Secreta, atua como diretor do ORC Studio de Economia Criativa e da Editora da UFSM. Saiba mais em eneiastavares.com.br.

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