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Na cidade ou no interior, onde a selvageria mora?

Atravesse a fronteira com a Caveira

29/08/2025

Você provavelmente conhece essa história: um indivíduo ou um grupo de pessoas urbanas fazem uma visita ao interior, rapidamente passando a ser alvo de horrores inimagináveis.  O contraste entre interior “selvagem” e cidade “civilizada” não é nenhuma novidade no mundo da ficção. Muito pelo contrário. Há tempos que livros e filmes vêm utilizando essa dicotomia como uma ferramenta simbólica para estruturar narrativas e criar histórias impactantes. 

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Embora possa parecer à primeira vista apenas uma questão de cenário ou ambientação, o binarismo cidade/civilizada e interior/selvagem é, na verdade, uma lente poderosa para explorarmos a natureza humana e a ideia de civilização enquanto uma construção. Longe de ser um mero pano de fundo para determinadas histórias, a dicotomia molda os personagens e os enredos, abrindo espaço para questionamentos sobre a humanidade e a sociedade como um todo. 

Presente em clássicos da literatura como Coração das Trevas de Joseph Conrad e O Senhor das Moscas de William Golding, essa temática também impera no gênero do terror, abordando questões como o medo do desconhecido, a perda de controle, a fragilidade da civilização e a própria condição humana. De forma geral, o terror articula tensões entre dicotomias como local/não local, eles/nós, modernidade/tradição, progresso/barbárie, ordem/caos e natureza/cultura para explorar dilemas humanos primordiais.

senhor das moscas

Em subgêneros como o folk horror, por exemplo, o interior é frequentemente representado como um local que abriga forças antigas e saberes esquecidos, enquanto a área urbana é simbolizada simultaneamente como um local de racionalidade, alienação e superficialidade. No entanto, a dicotomia entre interior “selvagem” e cidade “civilizada” vai muito além de uma mensagem simplista que categoriza um como bom e o outro como ruim. Na verdade, tais histórias não apenas expõem um confronto entre modos de vida distintos, mas também nos fazem pensar em nossas próprias noções de selvageria e civilização como construções humanas, frequentemente utilizadas para justificar a dominação, a exclusão e a ideia de superioridade. Afinal de contas: quem define o que é selvagem e o que é civilizado? 

A partir disso, muitas obras partem do contraste para inverter os papéis, mostrando que a cidade, por exemplo, pode não ser tão civilizada quanto parece. Não é à toa que em algumas narrativas, os personagem urbanos praticam atos indescritíveis, sendo confrontados com o fato de que a “selvageria” estava com eles o tempo todo. Em outros casos, o avanço urbano é representado como uma forma de dominação, fragmentação e violência, não de progresso. No fundo, a utilização desse contraste na ficção levanta uma pergunta que assombra a humanidade desde sempre: existe uma separação entre o homem e a natureza? O que o terror nos mostra, por exemplo, é que as fronteiras entre natureza/cultura e selvageria/civilização são deliberadamente construídas e manipuladas, podendo facilmente ser destruídas e invertidas. 

Precisa de exemplos de narrativas que utilizem o contraste entre interior “selvagem” e cidade “civilizada”? A Caveira listou 7 livros e filmes para você entender melhor o assunto. 

1. O Leiloeiro – Joan Samson

o leiloeiro

Publicado em 1976, O Leiloeiro conta a história de Harlowe, uma pequena comunidade agrícola conhecida por seu estilo de vida tradicional e praticamente imutável. Contudo, tudo se altera com a chegada do carismático leiloeiro Perly Dunsmore, cujos leilões semanais desencadeiam um comportamento cada vez mais bizarro dos moradores. Escrito por Joan Samson, O Leiloeiro constrói o interior como um espaço tradicional e “atrasado” para inverter a dicotomia e mostrar que a selvageria pode vir disfarçada de civilidade para dominar e destruir tudo que toca. A obra também aborda sutilmente questões como a desintegração do mundo rural tradicional e a expansão violenta do capitalismo e da cultura urbana sobre o campo. 

2. A Loteria – Shirley Jackson

a loteria

Considerada uma das histórias mais brutais e influentes da literatura contemporânea, A Loteria foi publicada originalmente por Shirley Jackson em 1948 na revista New Yorker. Ambientada em uma pequena cidade estadunidense, a história acompanha os moradores locais enquanto se preparam para “a loteria”, um bizarro ritual anual cujo objetivo é garantir uma boa colheita. Inquietante e extremamente angustiante, o conto levanta temas como tradição, conformidade social e violência ritualizada. Além disso, também aborda o contraste entre interior e cidade de forma simbólica, mostrando que o horror e a crueldade podem existir em um ambiente aparentemente “normal” e “civilizado”. Recentemente, A Loteria ganhou uma adaptação gráfica definitiva pelas mãos do próprio neto de Jackson, Miles Hyman, que permite que os leitores experimentem essa história de forma inédita. Publicada no Brasil pela DarkSide® Books, a graphic novel é simultaneamente uma grande homenagem à escritora e uma releitura meticulosa do conto que enfureceu os leitores da New Yorker na década de 1940. 

3. Você Não Deveria Estar Aqui – Jeneva Rose

você não devia estar aqui

Parte do projeto especial E.L.A.S. da DarkSide® Books, Você Não Deveria Estar Aqui acompanha a nova-iorquina Grace Evans, que buscando escapar de sua vida agitada, reserva um quarto em um remoto rancho no Wyoming, no Meio-Oeste dos Estados Unidos. Chegando lá, ela é recebida pelo charmoso anfitrião Calvin Wells, que cuida do local após o falecimento dos pais. No entanto, o que era para ser uma escapada idílica e inesquecível, rapidamente ganha contornos sinistros quando Grace percebe que há algo terrivelmente errado ao seu redor. Um thriller psicológico explosivo de Jeneva Rose, autora do best-seller Casamento Perfeito, Você Não Deveria Estar Aqui utiliza o contraste cidade/interior para criar uma constante atmosfera de desconfiança entre os personagens, explorando também o tema da falsa sensação de proteção da cidade “civilizada” e o fato de que a “selvageria” não se encontra na paisagem rural, mas sim nos seres humanos que a povoam. 

4. O Massacre da Serra Elétrica (1974)

massacre da serra eletrica

Chegando aos cinemas em 1974, O Massacre da Serra Elétrica não apenas apresentou ao mundo Leatherface e sua família, como também mudou o gênero de terror. Dirigido por Tobe Hooper, o filme acompanha um grupo de amigos que decidem se aventurar pelo interior do Texas para conferir se o túmulo do avô de um deles não foi violado por uma série de roubos locais. Contudo, após darem carona para um perturbado jovem, eles acabam se tornando vítimas de uma família assassina. Considerado um dos grandes precursores dos slashers dos anos 1980, O Massacre da Serra Elétrica traz a ambientação do interior “selvagem” para tecer críticas sobre a marginalização de uma parte da sociedade, o abandono econômico e a “barbárie” como produto da própria civilização e progresso. 

5. O Homem de Palha (1973)

o homem de palha por alejandro jodorowski

Um dos maiores nomes do folk horror cinematográfico, O Homem de Palha conta a história do sargento Neil Howie, que viaja até a remota ilha de Summerisle na Escócia para investigar o desaparecimento de uma jovem local. Porém, ao chegar lá, ele se depara com uma antiga comunidade pagã que desafia totalmente seus valores cristãos e urbanos. Eternizado pelo final surpreendente e pela atuação de Christopher Lee como Lord Summerisle, O Homem de Palha utiliza o choque cultural entre o racionalismo urbano e o paganismo rural para questionar a ideia única de civilização, criticando o moralismo religioso e mostrando que existem diferentes formas de organização e vida em sociedade.

6. Quadrilha de Sádicos (1977)

Quadrilha de Sádicos

Dirigido por Wes Craven, conhecido pelas franquias A Hora do Pesadelo e Pânico, Quadrilha de Sádicos é mais um filme dos anos 1970 que parte do contraste entre cidade “civilizada” e interior “selvagem” para tecer uma crítica social poderosa. No longa, acompanhamos os Carter, uma família de classe média do subúrbio, que durante uma viagem de carro pelo deserto de Nevada é atacada por um clã de canibais mutantes. De forma bastante brutal, Quadrilha de Sádicos constrói as duas famílias como opostos espelhados, refletindo sobre a relatividade de conceitos como normalidade e monstruosidade. Tecendo uma crítica aos Estados Unidos da época, o filme também aborda temas como arrogância urbana, a destruição deixada pelo progresso e o abandono social, mostrando como a civilização é uma estrutura frágil e que, no fundo, estamos mais pertos dos “selvagens” do que gostaríamos de admitir. 

7. Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019)

midsommar

Lançado em 2019, Midsommar – O Mal Não Espera a Noite é o segundo filme dirigido pelo cineasta Ari Aster. Protagonizada por Florence Pugh, a história acompanha Dani, uma estudante universitária sofrendo pela morte da família, que viaja com o namorado e um grupo de amigos para Hårga, uma remota comunidade na Suécia, para participar das festividades locais. Contudo, logo os turistas descobrem que estão mais envolvidos nas festividades do que gostariam. Elogiado por seu visual, Midsommar – O Mal Não Espera a Noite parte justamente do choque entre “civilização” e “selvageria” para desconstruir a ideia de superioridade da cultura urbana e questionar as noções de normalidade, moralidade e pertencimento. Tudo isso com muitas cenas chocantes e perturbadoras, é claro. 

LEIA TAMBÉM: O segredo do sucesso de Jeneva Rose

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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