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O fascínio do terror pelos insetos na literatura

Pequenas criaturas, grandes pesadelos

13/01/2026

Esqueça fantasmas, vampiros, bruxas e outros monstros sobrenaturais vindos de lugares distantes. Se existe uma coisa que o terror nos ensinou é que o perigo pode estar bem debaixo dos nossos narizes, camuflado como um ser aparentemente inofensivo. Há muito tempo que o gênero aprendeu que simples insetos podem ser antagonistas de histórias aterrorizantes. Afinal de contas, eles não precisam de maldições antigas, trilhas sonoras sinistras nem origens místicas. Muito pelo contrário. Estão por todo o lugar, são bastante reais, geralmente andam em grupos e o pior: não sabem respeitar o nosso espaço pessoal. 

LEIA TAMBÉM: 10 Filmes de terror com insetos e aranhas

É por isso que a literatura de terror, sem cerimônia alguma, transformou baratas, moscas, abelhas, formigas e besouros em estrelas dos nossos maiores pesadelos. Embora aranhas e vermes não sejam propriamente insetos, eles também entram nessa mesma categoria. Até porque nada grita mais “horror” do que algo minúsculo, supostamente insignificante, que surge do nada, se multiplica sem pedir permissão e não está nem aí para o que o seres humanos pensam. 

Entre enxames furiosos, seres rastejantes e metamorfoses estranhas, uma coisa é certa: o terror sabe bem utilizar insetos como personagens mais do que capazes de arruinar nossas noites de sono. Seja pelo nojo, pela invasão ou pela ideia de que grandes ameaças podem vir de pequenas estaturas, prepare-se para descobrir por que, afinal de contas, o gênero ama tanto essas criaturas.

Quando o cotidiano é transformado em pesadelo

Um dos grandes motivos que atraem o terror para o mundo dos insetos é justamente sua maleabilidade para gerar significados e facilidade para se adaptar a diferentes contextos e culturas. Embora a ciência — com razão — nos ensine a amar e respeitar essas criaturas, elas frequentemente tocam em medos profundos, quase instintivos do ser humano, como a contaminação e a perda de controle. Inclusive, estudos estimam que cerca de 6% da população mundial sofre de algum tipo de entomofobia: o medo irracional e excessivo de insetos. Então da próxima vez que você entrar em pânico com uma barata na cozinha, não se preocupe, existem milhares de outras pessoas com o mesmo medo. 

É claro que o terror amplia as fobias sociais e culturais que existem em torno dos insetos. Em alguns casos, o gênero literalmente os transforma em seres gigantes, enquanto em outros intensifica sua aparência “monstruosa” e periculosidade. Mas a pergunta que não quer calar é por que o terror se utiliza dessas criaturas?

Para começo de conversa, insetos são antagonistas eficazes porque são reais e bastante comuns. Eles existem no cotidiano dos leitores e são facilmente reconhecíveis, de forma que a ameaça é muito mais crível e palpável. Desta forma, a literatura transforma rotinas e histórias aparentemente normais em grandes pesadelos, nos lembrando que o medo e o terror não existem apenas no extraordinário, podendo estar escondidos atrás do sofá, no jardim e nas menores formas de vida. 

Aliado a isso, especialistas apontam que os seres humanos possuem certa ressalva com insetos porque é difícil antropomorfiza-los. Além de não os inserirmos em nossas rotinas e raramente dividirmos nossas camas com eles, como fazemos com gatos e cachorros, seus exoesqueletos, assim como seus olhos, pernas e asas em excessos, são metáforas perfeitas para o antinatural ou desumano. Isso explica porque cineastas de terror, por exemplo, frequentemente criam alienígenas com comportamentos ou aparências semelhantes às de insetos (sim, estamos falando com você, Xenomorfo!). 

Isso também nos leva a outro ponto, o da despersonalização. Insetos costumam viver em grupos, concentrando-se em colônias e enxames, de forma que não possuem uma individualidade gritante. Por sua vez, essa caraterística os torna símbolos perfeitos do medo humano da perda da identidade. Não é à toa que em muitas histórias eles surgem como forças indiferentes à vida humana, representando um universo e natureza hostil que reforça que não somos tão especiais e importantes quando pensávamos que éramos. 

Como se tudo isso não bastasse, insetos são perfeitos para representar a ideia de invasão e infestação. Por seguirem suas próprias leis naturais, estes seres não estão nem aí para as fronteiras criadas pelos seres humanos, o que os torna antagonistas perfeitos para narrativas de terror. Aqui, eles entram em casas, alimentos e até mesmo no corpo humano. Essa quebra entre o seguro e o ameaçador é algo central para o gênero, de forma que o medo não vem apenas do inseto, mas também da ideia de que não existe proteção nem escapatória. 

Desta forma, tanto enxames barulhentos quanto infiltrações silenciosas surgem como a metáfora perfeita para a perda de controle. Indo além, o gênero prospera com a ideia de mexer com as nossas mentes explorando insetos invadindo nossos corpos de maneiras viscerais e perturbadoras, aproveitando-se do medo humano da desintegração corporal. Vamos ser sinceros: uma criatura vivendo dentro do seu corpo, se alimentando e lentamente consumindo sua vitalidade é um dos melhores combustíveis para pesadelos e o terror sabe muito bem disso. 

Por fim, há ainda um ponto importante para entendermos por que o gênero ama insetos. Eles provocam repulsa. Seus corpos pequenos, segmentados, com diversos membros e movimentos imprevisíveis despertam nojo e desconforto em muitos leitores. Como nos lembra William Ian Miller em Anatomia do Nojo, essa repulsa é histórica e socialmente construída, mas capaz de moldar nossas vidas em níveis pessoais, sociais e políticos. É por isso que o terror se alimenta do grotesco e de coisas que achamos repugnantes. No caso específico dos insetos, o gênero utiliza amplamente as reações físicas que o nojo acarreta, de forma que o leitor sente de forma visceral as descrições envolvendo infestações, enxames ou seres rastejando pela pele dos personagens. É por isso que não é aleatório o fato de os insetos serem figuras frequentes no subgênero de horror corporal.  

Seguindo esse mesmo caminho, eles também carregam um aspecto simbólico, construído tanto a partir de narrativas antigas quanto processos naturais, estando associados à decomposição, podridão e sujeira. O terror sabe utilizar essa associação como nenhum outro gênero. Bastam aparecer moscas, larvas, baratas e besouros que a mente do leitor imediatamente os conecta a temas como morte, decadência física, contaminação, corrupção moral e o fim inevitável do corpo. Lembra do papel importante que as moscas varejeiras desempenham em narrativas como Amityville

É dessa forma, que insetos funcionam como catalisadores perfeitos para narrativas de terror. Além de carregarem consigo símbolos e significados potentes, estes seres também são capazes de provocar intensas reações emocionais e físicas. Dentro do gênero, insetos mostram como o terror pode ser algo íntimo, inevitável e perturbadoramente cotidiano. 

Alguns exemplos de insetos na literatura de terror

Contudo, muito antes de invadirem o cinema de terror e seus diversos subgêneros, os insetos invadiram a literatura. Em 1942, por exemplo, o escritor de ficção científica Donald A. Wollheim explorou um lado terrível de sua evolução em Mimic, o qual foi adaptado em 1997 para os cinemas por Guillermo del Toro.

Já em 1957, George Langelaan publicou A Mosca, uma das histórias mais famosas (e grotescas) envolvendo essas criaturas, a qual em 1986 se tornou base para o clássico filme de horror corporal de David Cronenberg. 

A Mosca

No entanto, antes desses exemplos clássicos veio A Metamorfose de Franz Kafka, uma das primeiras obras a utilizar insetos de forma perturbadora. Publicado originalmente em 1915, o livro acompanha a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, que acorda um belo dia e descobre que foi transformado em um inseto monstruoso. A partir disso, A Metamorfose busca dar conta das consequências desse acontecimento grotesco, o qual provoca sentimentos conflitantes na família de Gregor, que começa a encará-lo como um estorvo. 

Embora não tenha sido escrita enquanto uma obra de terror nos moldes tradicionais, o clássico de Kafka utiliza a transformação de Gregor para causar um estranhamento profundo no leitor e refletir sobre temas como angústia existencial, desumanização, rejeição e alienação. Ao acordar transformado em um inseto, o caixeiro-viajante assume o ponto de vista de algo que é percebido pelos outros como repulsivo e descartável. Nesse sentido, Kafka não representa o inseto como um monstro, mas utiliza muitas das artimanhas que explicam por que o terror é fascinado por essas criaturas. Aqui, o inseto (que nunca é especificado) surge como símbolo do nojo, do desconforto e da rejeição sentida por aqueles que fogem da normalidade, funcionando como um ponto de partida para um dilema existencial sobre o medo de deixar de ser reconhecido como humano. 

Desta forma, o amor do terror, seja na literatura ou no cinema, pelos insetos não é obra do acaso, nem exagero artístico. No fundo, a ficção sabe que estes seres condensam medos básicos e universais dos seres humanos, ao mesmo tempo em que podem ser utilizados para abordar temas complexos, como humanidade, existência e monstruosidade. No fim das contas, o que estas histórias nos mostram é que, às vezes, o terror pode estar na fresta da parede, no canto do quarto ou na próxima página do livro. E que às vezes, não devemos temer o monstro gigante, mas sim aquele ser minúsculo que nos assustou na cozinha e fugiu antes que conseguíssemos esmagá-lo.

LEIA TAMBÉM: Os 10 insetos mais mortais do planeta

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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