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Night Train to Terror: Deus, Satã e um filme de terror desgovernado

Uma antologia internal sobre fé e caos

16/01/2026

Sempre que falamos em preferência por histórias de terror curtas ou longas, estejam elas em livros ou em filmes, as opiniões se dividem. Se existem aqueles leitores e cinéfilos que fazem questão de uma história única e longa para validar uma criação, existe um batalhão de outras pessoas que transformaram pequenas histórias em verdadeiros clássicos — e não estamos falando apenas de Creepshow e Twilight Zone. O filme de hoje está nessa categoria, e embora não seja tão conhecido e tenha muitos (mas muitos) pecados, acabou arrebatando algumas almas ao longo dos anos.

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Night Train to Terror

Night Train to Terror é uma antologia norte-americana de terror com três histórias (quatro, se contarmos o fio condutor principal), escrita por Philip Yordan e dirigida por Jay Schlossberg-Cohen, com segmentos dirigidos por John Carr, Phillip Marshak, Tom McGowan e Gregg C. Tallas. Embora não tenha lotado salas de cinema mundo afora, o filme tem uma premissa interessante, na qual Deus e o Diabo viajam de trem para Las Vegas enquanto discutem o destino de alguns passageiros e candidatos ao Inferno.

Night Train to Terror

De forma muito agradável, começamos esse filme com um grito de horror se mesclando aos ruídos de uma locomotiva que viaja à noite. O tom azulado da sequência dos vagões nos deixa apreensivos, esperando que alguma tragédia possa acontecer. E acontece — mas não como esperávamos. O que nos atinge é uma banda de rock-wave-and-roll-non-sense e uma dancinha absolutamente vergonhosa (vocês me dirão depois) dos músicos e fãs. A partir desse ponto desnecessário, avançamos pelo trem acompanhando o maquinista-condutor, que também faz às vezes de anfitrião.

Night Train to Terror
Night Train to Terror

Quem convocou o condutor do trem para algumas perguntas foi ninguém mais ninguém menos que o próprio Satã, e à sua frente, na mesma cabine, está sentado, adivinhem só: Deus. Ok, a dancinha foi perdoada e o filme retoma nossa atenção. Nesse momento do filme, o bem e o mal estão debatendo sobre alguns casos humanos, e o primeiro deles, nossa primeira história, fala sobre Harry Billings, um vendedor que trabalha duro, mas tem um sério problema com as bebidas, as mulheres e os carros velozes.

Night Train to Terror
Night Train to Terror

Em sua noite de núpcias, Harry causa um acidente e sua esposa perde a vida afogada em um rio. Harry escapa, mas acorda em um sanatório, onde é “tratado” com provocações e terapia de eletrochoque. Nesse lugar, Harry é torturado por imagens terríveis de suas infidelidades sendo assassinadas e torturadas — e desmembradas e traficadas aos pedaços para universidades ao redor do mundo. Harry tem seus desejos e sua cobiça testadas ao limite, e ele não imagina que está exatamente entre o céu e o inferno.

A primeira das três histórias evolui a um sadismo inconsequente e insalubre, mas para nós, súditos do horror, certas imagens e suas sequências terríveis representam um deleite. Ao desfecho, Deus e Satã decidem sobre quem entre os envolvidos deverá ir para o céu ou para o inferno — ou passar algumas centenas de anos no purgatório.

Na segunda história Deus e Satã disputam a alma de Greta Connors, que acaba se envolvendo com a pessoa errada e fazendo coisas mais erradas ainda. Greta, uma pianista que trabalha em um parque de diversões para pagar as contas, acaba se deixando envolver por um homem mais velho, George Youngmeyer, e esse homem a leva para Manhattan e acaba a convencendo a entrar para a indústria de filmes pornográficos. 

Também faz parte dessa história, Glenn Marshall, um estudante de medicina que assiste um filme com Greta e acaba se apaixonando por ela. Glenn segue sua obsessão e consegue encontrar Greta, mas George Youngmeyer está longe de deixar os novos amantes em paz. Youngmeyer pertence a um clube secreto, onde todos os associados passaram muito perto da morte, e continuam fazendo isso em desafios propostos pelo grupo. Ele convoca o casal a participar de algumas sessões.

Os desafios vão desde picadas de mosquitos mutantes mortais até eletrocussão, e a cada rodada a certeza de que teremos alguns corpos estirados no chão aumenta exponencialmente. Se você pensar em Edgar Allan Poe, ou em um germe muito inicial de Jogos Mortais, talvez não esteja tão longe da verdade. Quanto ao desfecho dessa história sangrenta, deixaremos para quem assistir ao filme.

A terceira história é o caso de Claire Hansen, uma cirurgiã católica, esposa de um vencedor do Prêmio Nobel, uma mulher rica e temente à Deus, e que tem pesadelos recorrentes com nazistas. Deus a bordo do trem noturno é confrontado pelo Diabo, que diz a ele que o amor de Claire Hansen pelos céus foi claramente comprado com subornos, em um paralelo estreito com a história bíblica de Jó. Na mesma história, conhecemos Abraham Weiss, um idoso de ascendência judia que pressiona a polícia, porque acredita ter reconhecido um dos nazistas que matou sua família na TV. O problema para a polícia, é que esse suposto nazista reconhecido não envelheceu nada nos últimos 35 anos.

Sem a ajuda da polícia, senhor Weiss decide se vingar sozinho. Ele vai armado até a residência do suposto nazista que reconhecera, mas antes de atirar, se depara com uma criatura monstruosa e é atingido por um ataque mortal.

O corpo de Abraham Weiss acaba sob os cuidados da doutora Claire, que fica bastante impressionada pelos múltiplos ferimentos que levaram o idoso à morte, e também por uma tatuagem de campo de concentração que ele tem em um dos braços. Segundo os legistas que avaliaram o corpo em um primeiro momento, o velho Weiss também tem uma marca de 666 que foi feita no exato momento de sua morte.

Ao mesmo tempo em que Weiss é assassinado, o marido de Claire, Dr. Hansen, um cientista brilhante e ateu, está prestes a publicar um novo livro que propõe que Deus está mesmo morto, e talvez jamais tenha existido. Claire argumenta para que ele desista do livro, mas Hansen está irredutível, e assim continua quando um homem misterioso chamado Papini, que também tem um 666 impresso no corpo, insiste que ele salve sua alma e volte suas intenções a Deus.

Nessa terceira história, a batalha espiritual torna-se cada vez mais acentuada entre Claire e Olivier, o suposto oficial nazista que não envelhece e foi reconhecido pelo idoso Abraham Weiss. Das três histórias, é o seguimento que pode ser levado mais à sério intelectualmente, apesar de alguns efeitos especiais parecerem ter sido realizados por uma criança de oito anos. Na conclusão dessa sequência, descobrimos que o mal pode assumir muitas formas, mas que seu principal poder é permanecer disfarçado, invisível ao longo dos anos, bebendo e sendo bebido pelos piores sentimentos humanos.

Night Train to Terror é um filme bastante simples em sua concepção, e como uma boa safra das produções da década de oitenta, tem a capacidade quase mística de semear boas ideias no meio do caos. No final do filme, Deus e Satã se dão conta de como são indivisíveis, e que talvez sequer façam algum sentido sem a presença do outro. E falando em sentido, aquela banda de rock (se é que podemos chamar dessa forma) faz uma última aparição no final do filme, e preciso dizer que isso é absolutamente desnecessário.

Mas quer saber? Que Deus me perdoe: até que foi divertido.

Vamos deixar o trailer aqui pra vocês pecarem conosco; amém?

LEIA TAMBÉM: The Kindred: uma pérola submersa do horror corporal

Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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