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Medo Clássico

Gregor Samsa e o nascimento do horror corporal

As angústias da existência em A Metamorfose

29/01/2026

Já pensou acordar um belo dia e perceber que seu corpo não é mais o mesmo? Pior ainda, olhar no espelho e perceber que você se transformou em uma criatura monstruosa? Para os fãs de cinema, essa até poderia ser a premissa de algum filme de horror corporal do cineasta David Cronenberg, mas é só o ponto de partida da história de Gregor Samsa, personagem principal do clássico da literatura A Metamorfose

LEIA TAMBÉM: O fascínio do terror pelos insetos na literatura

Escrita em 1912 por Franz Kafka, A Metamorfose é uma obra que transcende seu tempo. Proporcionando múltiplas interpretações, a peculiar fábula de Gregor Samsa passa por temas como absurdo existencial, alienação, saúde mental, família disfuncional, rejeição e inúmeros outros recantos sombrios da vida e mente humana. Uma das primeiras novelas a tratar a modernidade como elemento estruturante da narrativa, em A Metamorfose Kafka começa a história pelo clímax, dando conta das consequências do acontecimento grotesco na vida de Gregor, a qual é conduzida por uma estrutura gigante, anônima, impessoal e invisível. 

Com um narrador não-onisciente, que acompanha o protagonista à medida que são vivenciadas todas as fases dessa experiência, A Metamorfose marcou uma mudança significativa no clássico tropo literário de humanos sendo transformados em animais. Afinal de contas, na obra-prima de Kafka não existe redenção nem superação. Aqui, a condição de Gregor é irreversível.

A Metamorfose 2

Lançamento da DarkSide® Books, A Metamorfose é também um dos livros favoritos do mestre do horror corporal David Cronenberg, sendo considerado por muitos um precursor do subgênero nos cinemas. Quer saber mais sobre o assunto? Deixa que Caveira te explica.

Kafka: precursor involuntário do horror corporal?

Por mais que o horror corporal seja frequentemente vinculado ao cinema da segunda metade do século XX, representado por nomes como David Cronenberg, John Carpenter e Stuart Gordon, um olhar atento revela que a literatura já havia abordado temas que seriam fundamentais para o subgênero no audiovisual. 

Desta forma, Gregor Samsa e sua monstruosa transformação frequentemente aparecem como um marco zero quando o assunto são as origens e influências do horror corporal,. Embora Franz Kafka não tenha escrito a obra sob o rótulo do horror nem tivesse a intenção explícita de assustar e enojar seus leitores, A Metamorfose trouxe uma percepção importante do corpo como um lugar de identidade e autonomia, que pode ser súbita e inexplicavelmente transformado em algo grotesco e incontrolável. 

Um dos principais pontos que unem Gregor ao nascimento do horror corporal é a ênfase que Kafka fornece à experiência subjetiva da transformação. Quando o protagonista desperta como um inseto monstruoso não especificado, ele não encontra apenas um novo corpo, mas também um corpo que o expulsa de si mesmo, retirando qualquer agência, identidade e até mesmo humanidade. Assim como nos filmes que vieram décadas mais tarde, aqui o corpo é o locus do horror e da experiência abjeta. O monstro não é algo externo que persegue o protagonista, mas sim algo interno, que vem de seu próprio corpo e que ajuda a desumanizá-lo cada vez mais. 

Sabemos bem que no horror corporal, o grotesco possui um significado profundo, acertando em cheio no medo humano da perda de autonomia. Isso é algo já perceptível em A Metamorfose. A própria transformação involuntária de Gregor, construída como algo que simplesmente acontece na vida do personagem, adentra na temática da angústia existencial moderna. Ao direcionar sua frieza e ironia amarga para o corpo humano, Kafka aborda angústia e sentimentos bastante modernos, os quais surgem de nossa existência como seres que percebem o mundo justamente pela carne. 

Indo além, o novo corpo de Gregor não apenas o expulsa de si mesmo, mas também o ejeta da sociedade. À medida que sua família, a qual anteriormente dependia financeiramente de seu trabalho como caixeiro-viajante, percebe que sua condição é irreversível, Gregor passa a ser visto como um estorvo. A exploração dos efeitos físicos de se sentir deslocado na sociedade é algo fundamental em A Metamorfose. Afinal de contas, quando Gregor não é mais capaz de cumprir seu papel na sociedade e na dinâmica familiar, ele se torna um monstro, um peso-morto, um ser sem utilidade. Assim, o horror não está apenas no corpo do protagonista, mas principalmente no olhar e tratamento dos outros. A partir disso, Kafka “antecipa” um elemento primordial do horror corporal: a ideia de que a monstruosidade não é construída unicamente pela carne, mas também pelo contexto social e pelo olhar dos outros. 

Embora não fosse um escritor de horror, a obra influenciou diversos artistas ao longo do século XX. Um deles foi justamente David Cronenberg, considerado um dos nomes mais importantes do horror corporal. Não é à toa que o diretor canadense comparou o inseto de A Metamorfose com o híbrido homem-mosca que protagoniza seu icônico filme A Mosca (1986).

Também não é nenhuma coincidência que o cientista Seth Brundle, interpretado por Jeff Goldblum, diga durante sua transformação: “Sou um inseto que sonhou que era um humano e adorou isso. Mas agora o sonho acabou, e o inseto acordou”. Assim como Gregor em A Metamorfose, o personagem de Cronenberg se desfaz de sua humanidade e emerge como algo completamente diferente. A dificuldade em se agarrar ao pouco que resta da humanidade e a percepção dos outros ao seu redor também é algo abordado pelas duas obras.

Nesse sentido, é possível enxergarmos como Kafka anunciou alguns temas que seriam muito caros à Cronenberg e ao horror corporal como um todo. Em A Metamorfose, a história de Gregor traz o corpo como tendo sua própria narrativa e sua transformação como o desnudamento da identidade e da condição psicológica. A partir disso, com sua prosa seca e simbólica, Kafka estabeleceu um pilar que seria levado ao extremo por Cronenberg e seus companheiros: o corpo como algo frágil e incontrolável, mas cuja transformação revela algo profundo sobre o sujeito e a sociedade em que estamos inseridos.

Outro ponto fundamental onde Kafka e o horror corporal se encontram é na transformação e na monstruosidade como coisas banais. Em ambos os casos, o monstro não está confinado em territórios distantes. Pelo contrário. Ele está no cotidiano. No trabalho, em casa, na faculdade. Ele é um caixeiro-viajante. Uma estudante universitária tal qual Justine em Grave, filme da cineasta francesa Julia Ducournau. Um cientista que vê não apenas seu corpo se desintegrar, mas também seu relacionamento amoroso. Tanto em Kafka quanto no horror corporal a monstruosidade e a transformação não são exceções. Elas fazem parte da rotina humana. São inevitáveis e podem ser enfrentadas por todos nós. 

É claro que existem diferenças, mas é possível lermos A Metamorfose como um dos fundadores simbólicos daquilo que mais tarde seria reconhecido como o horror corporal. A história de Gregor Samsa se tornou quase que um protótipo das narrativas do subgênero: alguém que perde o controle sobre o próprio corpo, passando por uma transformação involuntária e irreversível, precisando então desbravar um território estrangeiro onde o monstro é ele mesmo. 

Ao estabelecer a ideia de que a identidade e a condição humana podem facilmente ruir e o corpo pode ser fonte de um terror inevitável, Kafka plantou um conceito que seria levado às últimas consequências pelo horror corporal cinematográfico. Entre violações, mutações, anomalias e distorções, os filmes do subgênero ecoam temas abordados em A Metamorfose como a angústia do corpo que ganha autonomia, a carne como palco de conflitos e a transformação física enquanto um espelho perturbador de vulnerabilidades e questionamentos psicológicos, sociais e existenciais muito mais amplos.  

É justamente assim que a metamorfose de Gregor Samsa surge como um ponto de origem de uma tradição que seria radicalmente transformada em imagem por Cronenberg e outros artistas. A imagem de um corpo que ao trair o sujeito e se tornar estranho a si mesmo, revela questionamentos profundos. Um corpo que ecoa as dores de uma identidade despedaçada e da própria existência moderna, questionando: o que resta de nós quando o mundo nos condena como monstros?

Transcendendo as fronteiras entre os gêneros, A Metamorfose chegou na DarkSide® Books em uma edição especial da marca Medo Clássico. Ricamente ilustrada e recheada de paratextos especiais sobre a criação, a criatura e sua relevância, A Metamorfose é uma das obras mais importantes do século XX e já está disponível, por tempo limitado, na Loja Oficial e no DarkApp. 

LEIA TAMBÉM: A relação do body horror com a experiência trans

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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