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Santa Sangre: Genialidade, loucura e renascimento

Um ritual sagrado do horror mexicano

30/01/2026

Vocês sabem e eu sei — apesar de muitos negarem o que sabem — que o cinema de horror dos últimos cinquenta anos foi dominado pelas produções norte-americanas. Os slashers mais sangrentos, os filmes sobrenaturais mais assustadores, os monstros e matadores que nos faziam checar nossas costas a cada dois ou três passos noturnos. E com tudo isso em mente, seria uma displicência enorme deixar de prestigiar os filmes de horror não-norte-americanos que irromperam a placenta do cinema e nasceram sendo fieis à sociedade onde foram gerados.

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Santa Sagre

O filme de hoje, Santa Sangre, é uma produção mexicana, podendo se encaixar no gênero thriller, embora muitos o considerem horror. Lançado em 1989, foi escrito e dirigido pelo chileno Alejandro Jodorowsky com a colaboração de Claudio Argento e Roberto Leoni no roteiro. O filme se passa na Cidade do México e narra de uma maneira peculiar a trajetória de Fenix (Axel Jodorowsky) até sua internação em um hospital psiquiátrico. Por aqui, recebeu o nome muito mais direto de Sangue Ruim. Outro detalhe desse filme é que as falas são em inglês, e isso não configura problema algum.

Começamos nossa descida para a loucura conhecendo um homem jovem chamado Fenix. Ele está internado em uma ala psiquiátrica, está no quarto e em cima de uma árvore. Fenix grunhe e come peixe cru, se comporta como um homem selvagem, incivilizado. A partir desse ponto, somos convidados a mergulhar na mente desconexa e psicodélica de Fenix, mais especificamente, em seu passado.

Conhecemos primeiramente o Circo del Gringo, que faz sua propaganda nas ruas da cidade do México. O circo administrado em moldes antigos, apresenta algumas de suas atrações em um desfile. Palhaços, malabaristas, dançarinas, mágicos, acrobatas e anões. E claro que não falta uma banda marcial, alguns animais e seus domadores. O dono desse circo é um homem chamado Orgo, que bebe demais e passa muito tempo de olho em suas artistas, principalmente em uma delas, a Mulher Tatuada. Fenix é filho de Orgo, que além de dono do circo é um exímio atirador de facas. O menino Fenix também nutre algum amor infantil pela filha da mulher tatuada, uma menina equilibrista chamada Alma.

Ao lado do circo, existe a pequena Igreja do Santo Sangue, que tem como patrona e padroeira a santa popular Lírio — uma menina que foi estuprada e teve seus braços decepados pelos agressores, que a deixaram morrer em uma poça de sangue. A mãe de Fenix e esposa de Orgo, Concha, é uma devota dessa santa, e ela reuniu os fiéis para impedir que políticos locais destruam a igreja para se apropriarem do terreno. Existe muita tensão no lugar, gritos de protesto, escudos de contenção da polícia, um verdadeiro barril de pólvora aquecido pela luta entre as autoridades e os devotos. Quem lidera os gritos de ordem é Concha, a mãe de Fenix.

O clamor dos devotos é ouvido, e antes que aconteça o pior o templo recebe a visita de um bispo. O religioso conhece o templo e ouve a história da santa Lírio, mas ele fica horrorizado com o que descobre, e afirma que aquilo é mais do que fanatismo, é sacrilégio e profanação (existe uma piscina com água tingida de vermelho na igreja, e os fiéis dizem que aquilo é sangue sagrado que brota do chão). Depois de discutir com os fiéis, o bispo sai da igreja e diz que os homens devem demolir aquela abominação. Os fiéis continuam dentro da igreja, cantando e defendendo sua fé inconvencional. Com a autorização do bispo, as máquinas avançam e destroem a igreja, sendo que a última pessoa a deixar o templo é a mãe de Fenix, que desiste de morrer em defesa da Santa depois que o filho se agarra a ela.

A família de Fenix é o que poderíamos chamar de disfuncional, ou no mínimo esquisita. O pai é um homem estranho, alcoólatra e adultero, a mãe é uma fanática religiosa e também trapezista, e o próprio circo e seus artistas cercados pela miséria da cidade compõem um lugar estranho para se passar a infância.

Depois que um elefante do circo morre, Fenix recebe de Orgo o que ele chama de “Um Charme”. O charme é uma tatuagem de uma fénix no peito, mas feita à moda antiga, com a ponta da faca, tintas e um monte de sangue. No filme, a tatuagem ganha notas de um rito de passagem. De certa forma, o desenho na pele anuncia que nada mais seria o mesmo no circo ou na vida de Fenix. Era hora de renascer.

Concha, mãe de Fenix, apanha Orgo tendo momentos picantes com a Mulher Tatuada. Tomada pela fúria, Concha joga ácido nas partes íntimas de Orgo, e também joga ácido na Mulher Tatuada. Como vingança, Orgo a mata, cortando os dois braços da esposa, e a deixando como sua querida santinha. Em seguida Orgo sai caminhando, trôpego e nu. Ele avança alguns passos e morre, em frente ao trailer onde a mãe de Fenix o colocou antes de flagrar Orgo. O menino vê tudo, inclusive a Mulher Tatuada e Alma indo embora.

Desse ponto em diante retomamos o presente, e voltamos para clínica de pessoas com necessidades especiais onde Fenix segue internado.

A próxima desventura chega em um passeio organizado pela clínica, onde os pacientes estão convidados para o cinema. Como incentivo, todos eles formam fila e cheiram pó de pirlimpimpim, para aumentar a diversão e a experimentação social ao lado do guia turístico que também é traficante. Já os enfermeiros da clínica, eles ficam no carro se divertindo um pouco mais.

Enquanto os pacientes passeiam e se embriagam pelas ruas da cidade do México, Fenix reconhece a mulher que ele julga ter acabada com sua família, a Mulher Tatuada. Ela vive uma vida boêmia, entregue a bebidas, farras e prostituição. Na ressaca do dia seguinte, Fenix nota uma outra mulher à sua janela: Concha, sua mãe. Mesmo tendo sido amputada dos braços, Concha conseguiu sobreviver e agora quer seu filho com ela.

Ao lado de Fenix, Concha reúne a velha troopie do circo, resgatando os artistas das ruas e também se apresentando ao público, com música e teatro, utilizando os braços de Fenix como se fossem os seus. Magicamente — ou quem sabe por hipnotismo ou apenas dominação —, Concha coordena os movimentos dos braços e mãos de Fenix, e ela os utiliza para vingar-se dos desafetos do passado e também para aniquilar quem tente ou acabe por afastá-la de Fenix.

Esse redirecionamento da trama não quebra o ritmo do filme, mas de modo oposto, continua traçando paralelismo com a infância e os traumas que arrastaram Felix até a completa perda de sua sanidade intelectual e moral. Santa Sangre não é apenas um filme que nos entretém, e sim um portal para uma realidade mágica, onírica, recheada de símbolos, sangue, dores e renascimentos. Poucas vezes nessa coluna arriscamos dizer que um filme possua qualidades estranhas o suficiente para transformá-lo em uma obra de arte, um pesadelo ou uma passagem para outra realidade. Pois Santa Sangre é tão isso e tão mais, que é melhor pararmos essa matéria logo mais.

Na trama, seguimos com Fenix se perdendo em seu labirinto de pensamentos, culpas e emoções, até que ele reencontra Alma, filha da mulher tatuada e seu grande amor da infância. Mas essa experiência completa um bom cinéfilo precisa realmente viver sozinho, seria uma crueldade antecipar demais o que você vai conhecer e sentir durante esse filme. De muitas formas, fica óbvio que Santa Sangre inspirou o cinema americano irreversivelmente, e essa é outra surpresa agradável em não perder um único segundo de filme.

Como últimos incentivos, os autores são fenomenais, o filme foi indicado para mais de sete prêmios, e o enredo de Santa Sangre foi inspirado na história real do Serial Killer Goyo Cardenas (vale um novo mergulho depois de assistir).

Pois bem, senhoras e senhores, meninas, meninos, capitalistas, socialistas, comunistas e anarquistas: apanhe seu bilhete que o maior espetáculo do México está prestes a começar.

(é só apertar o play)

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Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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