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Sexta-feira 13: Um culto ao sangue

O slasher que moldou o horror

13/02/2026

Vamos começar essa matéria dizendo que Jason Voorhess está em todo lugar. Nosso matador mais implacável participou de franquias de filmes, atuou em diferentes tipos de jogos, desenhos animados, Jason está em realidades virtuais, copos, camisetas, canecas e bonés. Verdade seja dita, o garoto com necessidades especiais que sofria bullying pesado em acampamentos de verão, se tornou um gigante na década de oitenta, alcançando popularidade maior que qualquer outro serial killer feito de carne e osso. Jason ficou tão grande, que foi um dos primeiros caras maus a fazerem todo mundo torcer por ele. E isso é tudo — quase tudo — o que falaremos de Jason (por questão de justiça e pelo conjunto da obra) nessa matéria.

Encarnado no cabalístico ano de 1980, Friday The 13th, batizado em BR ao pé da letra como Sexta-Feira 13, nasceu com o dom de ser despretensioso, como muitos outros horrores oitentistas que se tornariam lendários. Algumas lâminas afiadas, alguns jovens querendo diversão inconsequente, muitos litros de sangue. Ou talvez exista bem mais sob a superfície desse filme do que nossos olhos chocados puderam ver. 

Inicialmente, vamos dizer que Friday The 13th foi produzido e dirigido por Sean S. Cunningham, inspirado diretamente em Halloween (1978) de John Carpenter, escrito por Victor Miller e estrelado por gênios como Betsy Palmer e Kevin Bacon. E precisamos acrescentar que quem cuidou dos efeitos práticos foi o mestre supremo Tom Savini.

Começamos nossa revisitação, não em 1980, mas em 1958, no nosso querido — e para sempre maldito — acampamento de verão em Crystal Lake. É noite, os monitores do lugar cantam e tocam violão ao redor da lareira, existe uma aura de felicidade programada. Mas fora das cabanas também existe a noite, o vento frio e a natureza selvagem. Como um primeiro código de perigo, notamos uma bandeira vermelha em uma das portas, “FOX”, com duas flechas cruzadas. Caminhamos em primeira pessoa, encarnando a visão de… ainda não sabemos, mas não parece nada bom. Entramos nesse dormitório e ao som ecoante de Kill, Kill, Kill, Má-má-mã olhamos para as crianças mais jovens adormecidas, sentimos sua vulnerabilidade. E as deixamos em paz. O problema não são elas, enfim, mas os jovens com a sexualidade bem mais atuante que sua responsabilidade. E o sangue jorra pela primeira vez, dizendo que namorar em Crystal Lake pode ser uma péssima, uma terrível ideia!

Já nessa sequência de abertura alguns segredos hipnóticos são desvendados. Explicando melhor, temos a visão em primeira pessoa, depois, a trilha sonora sufocante, e enfim, um sangue de coloração extremamente realista — falaremos mais sobre isso ainda nessa matéria.

Após os créditos iniciais, voltamos ao presente de 1980, mais especificamente a 13 de junho, sexta-feira, sete da manhã. O vilarejo mais próximo do acampamento ainda está acordando, mas a jovem cozinheira e monitora, Annie, já está caminhando pelas ruas, tentando chegar à Crystal Lake. As pessoas do lugarejo não chamam de Acampamento Crystal Lake, mas de Acampamento de Sangue. Annie recebe vários avisos, um deles vem de Ralph, uma espécie de “louco da vila”. E nós, ampliamos nossa ansiedade. Esse é outro belo segredo de Friday The 13th, a ansiedade crescendo a cada minuto de filme. Desprezando os avisos, Annie consegue uma carona com o caminhoneiro Enos, e adivinhem a cor do caminhão? Vermelho, claro que sim.

No trajeto, Enos conta uma série de desgraças sobre Crystal Lake. Assassinatos em 1958, incêndios, um garoto afogado em 1957, contaminação de água em 1962, parece mesmo uma insanidade que Steve Christy, o proprietário, insista em reabrir o local. Annie calcula que tudo não passe de bobagens, e Enos a leva apenas até um trecho da estrada, exatamente em frente a um Cemitério Moraviano. Ao mesmo tempo, outros três monitores também estão chegando ao acampamento, a bordo de uma pick-up vermelha.

Em Crystal Lake, todos estão reunidos e ajustando os últimos detalhes para a reabertura. Os monitores, o proprietário Steve Christy, Alice (outra monitora, mas Steve tem uma quedinha por ela), apenas Annie ainda não chegou — e nem vai chegar, por que Annie pega uma segunda carona muito errada e reinaugura o catálogo de vítimas…

Annie, pobre Annie, era uma boa garota, mas os demais monitores parecem se esforçar para conseguir nosso desapontamento. Eles não são apenas idiotas, mas parecem ter algum tipo de problema médico no cérebro. Esse talvez seja outro segredo de Friday The 13th, nos fazer desejar que essas pessoas jovens sofram um pouquinho por serem tão estúpidas. Para acalmar os ânimos, os monitores recebem a visita de um policial, o oficial procura por Ralph, o homem louco que mora nas redondezas, e supostamente está pregando peças e assustando as pessoas.

Adicionando mais um elemento de perigo, uma terrível tempestade decide cair em Crystal Lake. Steve sai para buscar suprimentos, e nossos monitores, sem poder se aventurar à luz do luar, resolvem se divertir à moda antiga: jogando Banco Imobiliário versão strip-tease e fazendo amor. Péssima ideia para Jack (Kevin Bacon), que acaba sendo morto com uma flecha no pescoço, e para Marcie, namorada de Jack, que acaba morta com um machado. Outro dos jovens também já está morto, e só descobrimos depois que Jack e Marcie fizeram amor no mesmo quarto onde Ned fora assassinado.

A escala de tensão e paranoia nesse instante nos domina totalmente, e não pensamos mais em quem escapará com vida, mas sim, quem morrerá por último. O assassino implacável, sempre um passo à frente, não apresenta nenhuma fragilidade ou identidade, o matador é como uma força da natureza.

Prevendo novos ataques, os avisos de perigo continuam mantendo seus códigos. A lanchonete onde Steve faz uma parada durante a tempestade tem o letreiro vermelho, a capa de chuva de um dos monitores é vermelha, e se você prestar atenção, o vermelho aparecerá bem antes do sangue em cada uma das cenas que precede um ataque.

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De todos os jovens com excesso de hormônios, a única controlada é Alice, e é ela quem encontra os amigos mortos e também uma mulher de meia idade, que está chegando de carro a Crystal Lake. Essa mulher se identifica como uma grande amiga de Steve Christy, ela é a senhora Voorhees.

Muito bem, vamos parar por aqui, mas antes precisamos falar de um detalhe.

Tudo o que sabemos hoje sobre Jason Voorhess nasceu, em boa parte, graças a interpretação monstruosa de Betsy Palmer como sua mãe, a senhora Voorhess. Pelos olhos da mãe, conhecemos a tragédia do filho, suas causas e suas consequências. E é através da mãe que aprendemos a torcer pelo vilão antes mesmo de conhecer Jason.

Agora que tecemos nossa teia ao redor desse filme cabalístico, vamos tentar, de uma vez por todas, definir o que nos faz grudar na tela até a subida dos créditos há mais de quarenta anos.

Primeiro, precisamos falar do roteiro de Victor Brooke Miller. O que parece ser simples e brutal, na verdade é um ritual de evocação emocional. Nós sentimos raiva da displicência e idiotização dos monitores, sentimos dor por Jason, sentimos empatia por sua mãe. Acima de tudo: nos sentimos inseguros e paranoicos o tempo todo. Agora, indo até o set, precisamos falar de Sean S. Cunningham, que correu um risco absurdo ao empatar seu dinheiro em um projeto que poderia, não se colocar ombro a ombro com Halloween, mas comprovar que uma fórmula de sucesso não pode ser repetida. A direção de Cunningham acerta muito mais do que erra. Os planos de câmera, a seleção dos atores, pelo amor de Deus, o homem colocou Kevin Bacon e Betsy Palmer em um slasher! Falando dos atores, os demais se saem razoavelmente bem, ainda que a inexperiência de muitos deles seja nítida.

A trilha sonora de Harry Manfredini, os efeitos, tudo o que ouvimos nesse filme nos deixa em um estado de ansiedade constante, esperando que a próxima cena traga mais um ou dois corpos. Em Friday the 13th, estamos em choque muito antes que o assassino mate alguém. Você sabe e eu sei: ninguém se sente seguro quando ouve Kill, Kill, Kill, Má-má-má

Agora sim, uma das cerejas mais brilhantes desse bolo vermelho.

Vamos falar de Tom Savini.

Até Friday the 13th, o sangue no cinema era menos vermelho. As vísceras eram menos reais, a musculatura não parecia de verdade. Foi com um Savini voando livremente que alcançamos o trauma cinematográfico pela primeira vez. A cada flechada, facada e machadada, a cada enforcamento, esfolamento e decapitação. Tom Savini não apenas fez os efeitos práticos e especiais desse filme, ele trouxe a dureza do Vietnã (onde Savini foi fotógrafo de guerra) para as telas do cinema.

Por fim, sei que prometemos não falar mais do Jason, mas o último detalhe que catapultou Friday The 13th para a eternidade do horror foi sua aparição final. Se você for como a maioria dos cinéfilos dessa franquia, mesmo depois de abaixar o som da TV, mesmo sabendo exatamente como e quando acontece, vai tomar um baita susto. Talvez seja esse o motivo de Jason ainda perambular por nossos pesadelos: e nós queremos mais.

Segue o trailer para que você assista o filme e possa se lembrar de como Friday The 13th é sensacional. Bem-vindos à Crystal Lake!

Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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