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Caveira Viu: A Noiva!

Maggie Gyllenhaal oferece protagonismo total à Mary Shelley

12/03/2026

Em 1935, A Noiva de Frankenstein apresentou ao mundo um novo monstro icônico. Dirigido por James Whale, o filme, concebido como uma sequência direta do longa de 1931, introduziu nas telonas uma companheira para a atormentada criatura interpretada por Boris Karloff. Embora a autora original de Frankenstein, Mary Shelley, não tivesse nenhuma relação com a história, a produção foi um sucesso e não demorou para se tornar um clássico do gênero. 

LEIA TAMBÉM: Como a Noiva de Frankenstein se tornou um ícone feminista

Grande parte disso aconteceu justamente pela personagem título. Bastaram poucos minutos de tela para que a Noiva, interpretada por Elsa Lanchester, fosse alçada ao hall da fama dos monstros cinematográficos. Contudo, por mais que a personagem tenha se tornado um ícone feminista décadas mais tarde, é nítido como A Noiva de Frankenstein não tem como objetivo contar a história desse novo monstro feminino, mas sim a de seu companheiro e dos cientistas envolvidos no processo de sua criação. O próprio título do filme, que instantaneamente assinala a questão de gênero, demarca a função que a personagem exerce no enredo. Seu propósito é ser a “outra metade” da Criatura, não existindo enquanto sujeito, mas apenas como noiva de alguém. 

Indo ao encontro dessa inquietação, em A Noiva!, a roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal oferece protagonismo total não apenas para a personagem em questão, mas também para aquela que começou tudo: Mary Shelley. Recém-chegado nos cinemas brasileiros, o filme leva os espectadores por uma reimaginação ousada, intensa e vibrante da personagem, dessa vez interpretada por Jessie Buckley. Como boa fã de todo o universo de Frankenstein, a Caveira foi correndo assistir a esse lançamento monstruoso e tem um veredito para você.

Uma revolução monstruosa

Ambientado na Chicago dos anos 30, A Noiva! acompanha a jornada de Ida, uma jovem marginalizada que, após ser assassinada por um grupo de mafiosos, é trazida de volta à vida pela Dra. Cornelia Euphronious (Annette Bening) para ser companheira do solitário “Frank” (Christian Bale). No entanto, não demora para que a personagem demonstre ser muito mais do que uma simples noiva, revelando uma personalidade rebelde que dá início a uma história para lá de frenética. 

Um dos maiores trunfos de A Noiva! é justamente a presença de Jessie Buckley, que não apenas dá vida à personagem principal, como também encarna uma Mary Shelley que conversa do além com o espectador e conduz a trama, inclusive interferindo nela ao possuir Ida. É por meio dessa narradora fantasmagórica que Gyllenhaal define o tom do filme, o qual funciona como uma espécie de reparação histórica, fornecendo uma oportunidade para Shelley e a Noiva contarem a história que nunca tiveram a chance de contar. Desta forma, A Noiva! é construído como um comentário cinematográfico sobre identidade, empoderamento, silenciamento e as diferentes formas que a violência de gênero pode afetar a vida das mulheres. Longe de ser apenas uma trama sobre monstros e destruição, o filme de Gyllenhaal é uma jornada vertiginosa e barulhenta sobre autodescoberta, tomada de controle, amor e luta contra um sistema injusto e violento. 

Grande parte da magia do filme vem da atuação de Buckley, que entrega uma performance tanto física quanto emocional, alternando entre sotaques distintos, acessos de raiva, discursos hipnotizantes, espasmos inesperados e danças eletrizantes. Embora deixe claro desde o início que seu foco está na personagem de Buckley, A Noiva! ainda encontra espaço para apresentar outros indivíduos que ajudam a enriquecer a história. 

Enquanto Christian Bale oferece uma interpretação gentil e simpática de Frank como um ser atormentado por décadas de solidão, Annette Bening encarna a interessante e crucial Dra. Euphronious, a qual é constantemente acompanhada de sua fiel escudeira, Greta (Jeannie Berlin). Já Peter Sarsgaard dá vida ao detetive Wiles, um policial que, ao lado de Myrna (Penélope Cruz), segue a onda de crimes cometida por Frank e a Noiva. Além disso, o filme ainda traz Jake Gyllenhaal como o galã de Hollywood, Ronnie Reed, o qual funciona como uma espécie de elo emocional para Frank que influencia a logística de seus crimes. 

Ao lado desse elenco de peso, A Noiva! também se destaca pelo design de produção criativo e estilizado, o qual confere um charme extra ao enredo. Ao ambientar seu filme em uma versão alternativa dos anos 30, Maggie Gyllenhaal não apenas faz referência a A Noiva de Frankenstein, como também presta homenagem a produções como Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), as quais nitidamente influenciam as cenas de ação e fuga protagonizadas pelo casal principal. Ao mesmo tempo, a diretora utiliza o cenário para inserir sua trama em um turbulento período histórico, a Grande Depressão, abordando assim questões como vulnerabilidade, marginalização e desigualdade social entre as mulheres. 

É dessa forma que A Noiva! consegue a façanha de reinventar de forma revigorante um dos monstros mais icônicos do terror, a transformando em um ser ainda mais fascinante, complexo e cheio de personalidade. Utilizando a personagem para tecer comentários modernos sobre feminismo e a condição das mulheres, Gyllenhaal mostra que algumas histórias nunca morrem, mas apenas ganham novas camadas e significados. 

Um diálogo simultâneo entre passado e presente, A Noiva! é uma jornada sombria, sensível e emocionante, coroada por atuações complexas, estética marcante e comentários atuais. Entre tantos acertos, no entanto, o maior trunfo do filme é justamente dar protagonismo total à personagem-título, que ocupa de forma barulhenta e marcante o centro da narrativa. Aqui, ela não apenas deixa de ser a coadjuvante de uma história emblemática, como também desenvolve uma identidade que vai muito além de ser “a noiva de alguém”. Aqui, a personagem assume o lugar que sempre foi seu por direito, finalmente podendo contar e viver sua própria história. 

LEIA TAMBÉM: Caveira Viu: Frankenstein

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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