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100 anos de cinema de terror: Anos 1920-1940

A era que criou os monstros

20/03/2026

Ao longo de mais de um século de existência, o cinema de terror nunca teve medo de dar vida e projetar nossos medos mais profundos nas telas. O diálogo constante com contextos históricos bastante únicos e um amplo catálogo de temas e antagonistas fizeram com que o gênero florescesse no início do século XX, conquistando o público e encontrando caminhos diferentes para se reinventar no decorrer dos anos. Nos próximos posts vamos mergulhar na série especial 100 anos de cinema de terror, uma jornada para os cinéfilos apaixonados pelo gênero, explorando as origens e as transformações que moldaram os o horror como conhecemos hoje.

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Apesar de o terror ser hoje um gênero cinematográfico consolidado, ele não nasceu do nada e certamente não permaneceu o mesmo.  Antes de sustos em alta definição, litros e litros de sangue falso e efeitos digitais de primeira, o gênero se jogou em diferentes formas de experimentação, remontando a antigas formas de entretenimento para fazer o coração do público disparar com sombras exageradas, cenários tortuosos, silêncios inquietantes e monstros de olhar penetrante. 

Embora seja impossível demarcar uma data oficial para o nascimento do cinema de terror, o fato é que entre os anos 1920 e 1940, o audiovisual percebeu que o medo poderia ser a alma do negócio. Em um contexto de guerras, crises econômicas, rápidas transformações sociais e muita inquietação, o terror encontrou um terreno fértil para florescer. Vampiros elegantes vindos da Transilvânia surgiam como seres ameaçadores, cientistas brincavam com a vida e monstros trágicos representavam as profundas angústias humanas. Era o momento certo para brincar com o medo e o susto, consolidando um dos gêneros mais adorados entre os espectadores. 

De adaptações literárias ao expressionismo alemão, passando pelo cinema mudo e clássicos de Hollywood, os filmes deste período não apenas ajudaram a moldar o gênero, mas também mudaram para sempre o cinema como um todo. É por isso que hoje a Caveira te leva por um jornada pelas origens do terror cinematográfico para mostrar como o audiovisual das primeiras décadas do século XX transformou limitações técnicas em pura criatividade, criando alguns dos medos e monstros mais duradouros da história da sétima arte. 

Apague as luzes, pegue sua pipoca e ajuste a poltrona. A sessão já vai começar.

Antes do cinema: os primórdios do terror

Quando o cinema surgiu ao final do século XIX, ele se uniu a uma tradição há muito em andamento de narrativas assustadoras que exploravam o medo, o estranho e o sobrenatural, e eram encontradas na literatura, no teatro popular e em outras formas de entretenimento. Nesse sentido, a nova mídia cinematográfica mostrou-se especialmente propícia a explorar temáticas semelhantes, se unindo a uma linha do tempo de um chamado “entretenimento assustador”. 

Isso remonta, por exemplo, aos shows de fantasmagoria, populares no final do século XVIII, em que lanternas mágicas eram utilizadas em ambientes escuros para projetar imagens assustadoras — como demônios, esqueletos e fantasmas. Tudo isso acompanhado de camadas de fumaça e música arrepiante para assustar os espectadores. 

Um dos grandes nomes nessa “pré-história” do terror cinematográfico foi o do cineasta francês Georges Méliès, considerado por muitos o pai dos efeitos especiais. Um ilusionista de formação, Méliès utilizava truques visuais, efeitos especiais artesanais e técnicas de mágica para criar filmes com atmosferas oníricas que distorciam e transformavam a realidade.

Georges Méliès
Georges Méliès

Misturando humor, magia e macabro, Méliès dirigiu curtas como O Solar do Diabo (1896), trazendo uma estética que mesclava elementos maravilhosos com assustadores. Apesar disso, por mais que sejam consideradas precursoras do terror, as obras do cineasta francês não tinham a intenção de horrorizar o público, mas sim encantar e surpreender com imagens absurdas e fisicamente impossíveis. 

Além disso, outra inspiração para o gênero cinematográfico foi o Le Théâtre du Grand Guignol, localizado em Paris e conhecido por seus espetáculos de terror, os quais traziam histórias assustadoras, violentas e cheias de insanidade. Nesse sentido, tanto Georges Méliès quanto o Grand Guignol forneceram métodos e temas cruciais para o desenvolvimento do terror nas telonas. 

Grand Guignol
Le Théâtre du Grand Guignol

Apesar de todas essas influências, existe ainda uma última — originária do final do século XVIII — que provavelmente é uma das mais importantes: a literatura gótica. Responsável por popularizar histórias de terror, mistério e sobrenatural, o estilo, marcado por castelos decadentes, mansões caindo aos pedaços e outras estruturas medievais, foi fundamental para a consolidação de alguns códigos do terror audiovisual. 

Indo além, foi da literatura gótica do século XIX que emergiram três antecedentes que funcionam como chaves culturais para os filmes de terror: Frankenstein de Mary Shelley (1818), O Médico e O Monstro de Robert Louis Stevenson (1886) e Drácula de Bram Stoker (1897). Essas três obras não apenas encontraram fama contemporânea, mas foram cruciais para o desenvolvimento popular do terror no século XX. Não é à toa, por exemplo, que a primeira adaptação audiovisual de Frankenstein surgiu em 1910, quando o cinema ainda dava seus primeiros passos, enquanto a primeira adaptação de O Médico e O Monstro data de 1908.

frankenstein
Frankenstein

A década de 1920: o expressionismo alemão e o cinema mudo 

Com o avanço e a consolidação da linguagem cinematográfica, o terror — que ainda engatinhava —encontrou inspiração em diversas tradições do audiovisual mudo, especialmente nos contornos e temáticas sombrias e psicológicas do Expressionismo Alemão

Considerada a tradição europeia da era do cinema mudo que mais contribuiu para o vocabulário formal e temático dos filmes de terror modernos, o Expressionismo Alemão nasceu do amplo movimento artístico de mesmo nome, sendo um fenômeno representativo do período pós Primeira Guerra Mundial na Alemanha, o qual foi marcado por sublevação social e uma economia devastada. Privilegiando temas como industrialização, modernidade, morte, luto, conformidade e loucura, os filmes do Expressionismo Alemão utilizavam cenários distorcidos, ângulos oblíquos, jogos intensos de luz e sombra e performances aliadas aos princípios da arte moderna para representar angústias internas e medos sociais, dialogando com a instabilidade, confusão e os traumas vividos por uma Alemanha pós-guerra. 

Foi assim que surgiram clássicos como O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene (1920), considerado por muitos o primeiro filme do Expressionismo Alemão. Responsável por influenciar o terror pelos próximos 30 anos, o longa explorou temas como loucura, manipulação, dualidade da natureza humana, percepção subjetiva da realidade e medo da autoridade.

O Gabinete do Dr. Caligari
O Gabinete do Dr. Caligari

Dois anos depois, Nosferatu de F.W. Murnau trouxe uma das primeiras representações de vampiros no cinema, adaptando de forma não autorizada o romance Drácula. Apesar da sua importância para o audiovisual, marcada pelo uso de sombras e enquadramentos inovadores na criação de uma atmosfera opressiva, Nosferatu teve uma existência “subterrânea” por muitos anos. Isso ocorreu devido a uma batalha judicial com Florence Stoker, viúva de Bram Stoker, que processou a produção por violação de direitos autorais e conquistou uma decisão judicial que ordenava a destruição de todas as cópias do filme. Para a nossa sorte, algumas cópias de Nosferatu sobreviveram e o longa foi amplamente redescoberto nas décadas de 1960 e 1970.

nosferatu
Nosferatu

O Expressionismo Alemão foi assim uma contribuição chave para a construção do terror como gênero. Não demorou muito para que as técnicas do cinema alemão fossem abraçadas por Hollywood, o que principalmente aconteceu a partir da imigração de diretores, operadores de câmera, designers e atores alemães para os Estados Unidos, que trouxeram consigo um gosto pela experimentação artística. 

o medico e o monstro 1920
O Médico e O Monstro de 1920

Foi a partir daqui que os Estados Unidos começaram a produzir adaptações literárias como O Médico e O Monstro de 1920, protagonizado por John Barrymore, e O Corcunda de Notre-Dame de 1923, estrelado pelo “homem das mil faces”, Lon Chaney.

o corcunda de notre dame
O Corcunda de Notre Dame

Conhecido por sua versatilidade e dedicação extrema, Chaney também protagonizou em 1925, O Fantasma da Ópera, adaptação da obra homônima de Gaston Leroux, que ajudou a consolidar o terror enquanto um espetáculo visual caracterizado por maquiagem marcante e personagens trágicos. A famosa cena em que o Fantasma é desmascarado, por exemplo, foi por muito tempo considerada uma das mais assustadoras do cinema, sendo responsável por aterrorizar os espectadores nas salas de cinema. A atuação de Chaney é, até hoje, encarada como a melhor versão do personagem-título e um dos grandes marcos do terror. 

O Fantasma da Ópera
O Fantasma da Ópera

Ao lado desses títulos, outros como O Homem Que Ri (1928), dirigido pelo cineasta alemão Paul Leni e estrelado por Conrad Veidt, também se tornaram clássicos tardios do cinema mudo e chamaram a atenção por seus protagonistas assustadores.

o homem que ri
O Homem Que Ri

Ainda no mesmo ano, foi a vez de um dos poemas de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher, ganhar sua primeira versão cinematográfica. Dirigido por Jean Epstein, o filme francês contou com o roteiro de Luís Buñuel e é considerado um dos mais renomados longas mudos experimentais. Contudo, vale ressaltar que apesar de hoje muitos desses filmes serem categorizados como terror, na época tal terminologia não era utilizada e muitos exemplos desse “terror mudo” eram recebidos pelo público como melodramas.

queda da casa de usher
A Queda da Casa de Usher

O final dos anos 1920 e a mudança para o cinema sonoro criou uma narrativa simultânea de continuidade e ruptura. Por um lado, a morte de figuras chave como Paul Leni e Lon Chaney, de certa forma, encorajaram a novidade proposta pelo cinema sonoro, assim como o declínio de filmes custosos e espetaculares. Por outro, a permanência de técnicos, cineastas e roteiristas mostra as continuidades que existem entre a era do cinema mudo e o terror sonoro. 

Lon Chaney
Lon Chaney

O fato é que com a chegada do som, o terror passou por sua primeira grande transformação. Sons, vozes e trilhas musicais mostraram que era possível amplificar o medo e a tensão dos espectadores. Prontos para ganhar voz, novos antagonistas estavam prestes a entrar em cena e aterrorizar o público. Iniciava-se assim a era dos monstros. 

A década de 1930: os monstros vivem!

Muitas vezes considerada a “era de ouro” do terror, a década de 1930 ficou marcada pelo envolvimento de grandes estúdios, principalmente da Universal Pictures, que passaram a dominar o gênero. Os anos entre 1931 e 1936 são considerados um dos períodos mais frutíferos para o terror, sendo posteriores à chegada do som no audiovisual e à quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929. Em um período marcado por ansiedades sociais, incertezas, perda de controle e a crise econômica da Grande Depressão, Hollywood não pensou duas vezes antes de mergulhar no terror como uma forma de dar voz a medos, desconfortos, desesperos e sentimentos de escuridão. Não é coincidência também que o ano chave para o terror sonoro foi 1931, o mesmo ano em que a crise econômica atingiu um de seus piores estágios. 

Em fevereiro de 1931, a Universal mudou a história com a estreia de Drácula, uma adaptação do romance homônimo de Bram Stoker, protagonizada pelo ator húngaro Bela Lugosi. Um dos ícones mais duradouros do terror, Drácula se tornou o primeiro monstro da era sonora do cinema, enquanto Lugosi conquistou o pioneirismo dentro de uma nova safra de atores de terror. O sucesso inesperado do filme, motivou a Universal a produzir outra adaptação de livro clássico: Frankenstein. Chegando aos cinemas em novembro daquele ano, o filme de James Whale não apenas marcou o início do estrelato de Boris Karloff, como consolidou a imagem de um dos monstros mais famosos da literatura e do cinema. Explorando temas como o medo do desconhecido, moralidade, ciência fora de controle e monstruosidade, Drácula e Frankenstein definiriam arquétipos visuais e narrativos duradouros do terror cinematográfico e abriram as portas para uma leva de outros monstros. 

Drácula
Drácula

Foi justamente entre os dois filmes que o gênero de terror começou a ser reconhecido como tal. Segundo historiadores, o conceito “filme de terror” foi utilizado pela primeira vez em 1931 em uma carta escrita a Paramount por um administrador da Motion Picture Productions Code. A partir disso, o termo começou a aparecer tanto na imprensa comercial quanto em meios populares, de forma que por volta de 1936, “filmes de terror” eram mencionados como algo concreto e reconhecível para a grande maioria das pessoas. 

A Universal então apostou nos monstros e seguiu com filmes como A Múmia (1932), protagonizado por Karloff, e O Homem Invisível (1933) com Claude Rains.

A Múmia
A Múmia

Poucos anos mais tarde, o estúdio decidiu lançar suas primeiras sequências com A Noiva de Frankenstein (1935) e A Filha de Drácula (1936), as quais parecem representar a consolidação do estilo de terror produzido pela Universal. Além disso, paralelamente aos monstros, o estúdio deu a chance para novas adaptações de autores famosos, como Os Assassinatos da Rua Morgue, que levou a história de Edgar Allan Poe para as telonas em 1932 com protagonismo do próprio Bela Lugosi. 

A Noiva de Frankenstein
A Noiva de Frankenstein

O sucesso desses filmes inspirou outros estúdios a apostarem no terror. A MGM produziu Monstros do diretor Tod Browning em 1932, enquanto a Warner Bros. fez dois filmes no início da era do technicolor: Doutor X (1932) e Os Crimes do Museu (1933), o qual duas décadas depois seria refilmado com Vincent Price no papel principal. Já a Paramount encontrou sucesso com a primeira adaptação sonora de O Médico e o Monstro em 1931, protagonizada por Fredric March, que levou o Oscar de Melhor Ator para casa.

O Médico e o Monstro 1931
O Médico e O Monstro 1931

Por outro lado, a RKO misturou dois gêneros conhecidos — documentários de viagem e aventuras na selva — para produzir o clássico de 1933, King Kong, o qual evidenciou uma crescente expansão do rótulo “filme de terror” e concentrou temas chave para o gênero. 

king kong
King Kong

Enquanto isso, vale mencionar que do outro lado do Atlântico, filmes de terror continuavam a ser produzidos, mas não chegavam nem perto do volume de Hollywood. Além disso, outros trabalhos inovadores vieram das margens hollywoodianas, como Zumbi, A Legião dos Mortos, longa de 1932 estrelado por Bela Lugosi que atestou um fenômeno emergente bastante importante: o terror independente. 

zumbi a legiao dos mortos
Zumbi, A Legião dos Mortos

Entre 1937 e 1938, no entanto, a indústria sofreu um de seus primeiros revés, o que diminuiu o ritmo incessante de filmes produzidos. Fatores como a venda da Universal, a crise econômica e a instituição de um novo regime de censura, conhecido como Código Hays, regulado pela Production Code Administration (PCA), interferiram em pré-produções, roteiros e novos projetos, levando a uma queda nos lançamentos. 

Felizmente, essa queda se mostrou mais um hiato, já que no final de 1938, a Universal relançou Drácula e Frankenstein nos cinemas como sessões duplas, o que rapidamente ajudou a financiar novos projetos, como O Filho de Frankenstein de 1939. Assim, embalado por anos férteis, produtivos e bem sucedidos, os quais ajudaram a solidificar a linguagem e as imagens do gênero, o terror se preparava para adentrar uma nova década.

A década de 1940: narrativas sutis e atmosféricas 

Os anos 1940 foram marcados tanto por uma fase de transição quanto de amadurecimento no terror audiovisual, a qual foi profundamente influenciada pelo contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e mudanças estéticas, industriais e estruturais em Hollywood. Apesar disso, os monstros não foram deixados completamente de lado. Em 1941, por exemplo, a Universal revelou outro monstro icônico, O Lobisomem, que trouxe como protagonista Lon Chaney Jr., o filho do “homem das mil faces”. 

o lobisomem
O Lobisomem

Pegando embalo no sucesso dos anos 1930, muitos estúdios continuaram explorando seus monstros consagrados. A Universal, por exemplo, abraçou as franquias e embarcou também nos chamados crossovers, com diversos monstros se encontrando em uma única história, como Frankenstein Encontra o Lobisomem (1943), A Mansão de Frankenstein (1944) e O Retiro de Drácula (1945). Com orçamentos mais reduzidos e um tom mais autoconsciente, essas produções muitas vezes mesclavam terror, comédia e aventura, sendo direcionadas para audiências mais jovens e menos exigentes. Apesar de indicar um certo esgotamento das fórmulas clássicas, as quais aproximavam-se mais do entretenimento seriado do que experiências aterrorizantes, estes filmes ainda possuíam o mérito de manter vivas as figuras icônicas do gênero, as quais eram apresentadas para novas gerações. 

Contudo, ao mesmo tempo em que os estúdios se voltavam para as audiências mais jovens, ainda existiam tentativas de agradar ao público convencional por meio de projetos de prestígio com altos orçamentos. Em 1941, por exemplo, a MGM fez uma refilmagem de O Médico e o Monstro, enquanto em 1943, a Universal investiu em uma nova versão de O Fantasma da Ópera, a qual contou com cenários e figurinos espetaculares, além do uso oneroso de technicolor. 

fantasma da opera 1943
O Fantasma da Ópera 1943

Paralelamente, o clima de incerteza gerado pela guerra, as restrições do Código Hays e um certo desgaste do público com a temática de monstros, levou à produção de um terror mais sugestivo, atmosférico e psicológico. Um dos exemplos mais significativos foi o ciclo de filmes produzidos pela RKO entre 1942 e 1946 sob a supervisão de Val Lewton.

Sangue de Pantera
Sangue de Pantera

Filmes como Sangue de Pantera (1942) e A Morta-Viva (1943) do diretor Jacques Tourneur apostaram na sugestão ao invés do terror explícito. Explorando o uso expressivo de luz e sombra, som fora de cena e tensão emocional, estes longas foram bastante influenciados pelo cinema noir, abordando de forma sofisticada temas como repressão sexual, paranoia, traumas, medo do invisível e conflitos psicológicos. Na tentativa de contornar restrições orçamentárias e driblar a censura, o terror não se manifestava de forma direta nem por meio de monstros, mas sim pelo inconsciente, batalhas internas e medos reprimidos. 

A Morta-Viva
A Morta-Viva

É nesse mesmo movimento que temos o diálogo entre o suspense e o terror, exemplificado pelos filmes de Alfred Hitchcock, como A Sombra de uma Dúvida (1943) e Quando Fala o Coração (1945). Abordando temas como medo psicológico, culpa e instabilidade mental, estas produções incorporaram elementos perturbadores do terror e influenciaram profundamente o gênero nas próximas décadas. Tais enredos mostravam que o perigo e o medo não residiam necessariamente em um antagonista com origens sobrenaturais, mas sim em pessoas comuns, relações humanas, ambientes domésticos, situações cotidianas e a nossa própria mente. 

a sombra de uma duvida
A Sombra de Uma Dúvida

Outro exemplo emblemático dessa tendência foi Rebecca: A Mulher Inesquecível. Lançado em 1940, o filme dirigido por Hitchcock levou para as telonas o clássico literário de Daphne du Maurier, emulando os contornos de romance gótico e a atmosfera inquietante, abafada e sombria da obra. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, o longa é um suspense psicológico macabro em que os tormentos não se manifestam de forma sobrenatural, mas sim pela presença de uma mulher já falecida, cuja memória domina uma casa inteira e perturba a mente de nossa protagonista. 

Rebecca
Rebecca: A Mulher Inesquecível

Deixando um pouco de lado os sustos explícitos, o terror dessa época explorou imensamente a sugestão do medo, narrativas ambíguas e abordagens atmosféricas. De certa forma, tudo isso ressoava com uma nova concepção de mundo e humanidade, marcada profundamente pela experiência da Segunda Guerra Mundial, a qual nos mostrou que o horror não era mais algo distante, sobrenatural ou fantasioso, mas sim parte da experiência humana. Emprestando uma linguagem e imagética representativas desse período de incertezas e dores, assim como aconteceu na literatura com obras emblemáticas como Mefisto e O Pássaro Pintado, o terror cinematográfico demonstrou toda a potência de seus diálogos com medos históricos, sociais e existenciais. 

Contudo, por mais que tenha sido um período fundamental para estabelecer as convenções do gênero e consolidar sua influência, a década de 40 se aproximava do fim e com ela surgia a necessidade de transformações. Afinal de contas, o pós-guerra não trouxe apenas avanços científicos e tecnológicos, mas também uma nova visão de mundo e imaginário coletivo, marcado pelas tensões da Guerra Fria, pelos traumas do conflito e pelo medo da energia nuclear. 

Todos esses elementos mudariam radicalmente o imaginário do terror, que deslocaria as narrativas sutis e atmosféricas vistas nos últimos anos para ameaças tecnológicas, invasões alienígenas, catástrofes e monstros gigantes. Era chegada a hora de inaugurar um novo capítulo na história do gênero, o qual entraria em cena nos anos 1950 com os chamados filmes de monstros e de ficção científica. 

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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