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A genialidade sombria de Emily Brontë em O Morro dos Ventos Uivantes

Como a autora chocou a sociedade vitoriana com seu romance gótico

05/02/2026

Um romance foi suficiente para Emily Brontë deixar sua marca na história e um legado incontestável na literatura de língua inglesa. Em 1847, sob o pseudônimo de Ellis Bell, ela publicou O Morro dos Ventos Uivantes, uma obra que desafiou para sempre as noções do amor romântico e virtuoso.

LEIA TAMBÉM: Guia de personagens de O Morro dos Ventos Uivantes

Embora muitas pessoas a associem a uma história de paixão tórrida, e da nova adaptação cinematográfica de Emerald Fennell vir com uma promoção chamando-a de “a maior história de amor de todos os tempos”, O Morro dos Ventos Uivantes nasce de uma visão de muito dura, desencantada e profundamente crítica da natureza humana. Algo que faz bastante sentido com a formação de sua autora.

Formação intelectual e o isolamento de Emily Brontë

Filha de um pastor anglicano e a quinta de seis filhos, Emily Brontë cresceu em Haworth, uma pequena vila localizada no norte da Inglaterra. Apesar de mulheres serem desencorajadas a ler, ela e as irmãs tinham acesso aos livros que seu irmão Branwell trazia da biblioteca, além de seu pai manter seu acervo pessoal de livros em casa. Junto de suas irmãs Charlotte e Anne, ela foi incentivada a ler e a escrever desde cedo. Mesmo com uma educação formal irregular, as irmãs Brontë compensaram em uma formação autodidata intensa, marcada pela leitura de poesia, filosofia e ficção.

Irmãs bronte

O isolamento geográfico e social de Emily e sua família serviram como elemento crucial de sua sensibilidade literária. Ao conviver constantemente com uma paisagem dura, ventosa e indomável, ela moldou uma imaginação centrada em rejeitar o ideal de harmonia social. Em vez disso, ela buscava retratar forças mais primitivas e desconfortáveis do comportamento humano — isso lhe lembra algo?

Uma visão que não romantizava a natureza humana

Essa formação, que fugia dos padrões da época, associada ao isolamento de Emily Brontë contribuiu com sua visão profundamente desencantada do mundo. Ela não escrevia sobre redenção, amadurecimento moral ou amor como uma força transformadora. 

Um exemplo bem explícito disso está em sua redação em francês “A Borboleta”, publicado na edição da DarkSide® de O Morro dos Ventos Uivantes, na qual ela diz: “A natureza é um problema inexplicável; baseia-se em um princípio de destruição. Cada ser está fadado, sob pena de extinção, a atuar como incessante instrumento da morte de outros seres. Não obstante, celebramos a data do nosso nascimento e damos graças a Deus por termos ingressado em tal mundo.”

o morro dos ventos uivantes

Essa visão pessimista é bem evidente no próprio O Morro dos Ventos Uivantes. Na história de Catherine e Heathcliff, sentimentos intensos conduzem à ruína, à repetição do trauma e à perpetuação da violência através das gerações. Obsessão, ciúme e desejo de posse não são características passageiras ou exclusivas de vilões, elas acabam se tornando motores persistentes da ação humana, até mesmo daqueles que deveriam ser os “mocinhos” da história.

O choque da sociedade vitoriana com O Morro dos Ventos Uivantes

Na metade do século XIX, a literatura inglesa de romance era em sua maioria moralizante, virtuosa, com heróis e heroínas socialmente disciplinados e emocionalmente controlados. Era esperado que o leitor admirasse e se identificasse com tais personagens. Algo que definitivamente não acontecia com O Morro dos Ventos Uivantes

Com seu estilo áspero e atmosférico, personagens moralmente perturbadores (e perturbados), sem uma lição de moral clara e sem um final consolador, O Morro dos Ventos Uivantes causou um desconforto imediato. Além da ausência de julgamentos morais claros, a violência emocional explícita da obra chocou leitores e críticos da Inglaterra vitoriana. Aqui a paixão não era romântica e virtuosa, ela é uma força destruidora.

Porém, se para a maioria a história causou repulsa, houve quem se sentiu intrigado e, por que não, obcecado pelas intrigas criadas por Emily Brontë, como observou um artigo anônimo do Douglas Jerrold’s Weekly Newspaper: “O Morro dos Ventos Uivantes é um livro esquisito, capaz de deixar os críticos desconcertados. No entanto, é impossível começar a ler e não ir até o final, bem como é impossível, após a leitura, não comentar nada a respeito.” E as pessoas seguem comentando até hoje…

Uma obsessão que vive até hoje

O fato de Emerald Fennell, uma das cineastas mais avant-garde do grande circuito de Hollywood querer contar a sua versão da história prova a atemporalidade da obra-prima de Brontë. O que uma vez causou rejeição segue retornando à cena cultural, em outros formatos e visões, com sua trama de obsessão, violência emocional e sem redenções ou soluções conciliatórias.

Emerald Fennel

Em mais de um século e meio, cada geração retorna a O Morro dos Ventos Uivantes não em busca de uma história de amor, mas para confrontar aquilo que incomoda seu próprio âmago — seja em relação a limites, desejo e responsabilidade afetiva, algo tão discutido nos tempos atuais. 

Emily Brontë provavelmente sabia que era pioneira, mesmo sem ter tido a chance de desfrutar do sucesso de sua obra-prima. Mas ela provavelmente não imaginou que aquela história áspera, escrita contra o conforto e a conciliação, continuaria a assombrar leitores muito depois de seu tempo.

LEIA TAMBÉM: Os principais temas de O Morro dos Ventos Uivantes

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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