Durante seu tempo como promotor do condado de Los Angeles, Vincent Bugliosi alcançou sucesso em 99% de seus casos, incluindo um dos julgamentos mais midiatizados da história dos Estados Unidos: o da Família Manson.
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Em agosto de 1969, o mundo ficou horrorizado com uma série de assassinatos brutais que ocorreram em Los Angeles. Entre as vítimas, encontrava-se a jovem atriz Sharon Tate, esposa do diretor Roman Polanski, que estava grávida de oito meses. Ao todo, sete pessoas foram mortas entre os dias 9 e 10 de agosto em um dos crimes mais bárbaros da história, os quais ficaram posteriormente conhecidos na mídia como os Assassinatos Tate-LaBianca.
Hoje em dia a relação entre Charles Manson, seus seguidores e esses crimes chocantes é bastante conhecida. No entanto, na época foram necessários meses de investigação para que a polícia chegasse aos culpados. Na verdade, tudo começou alguns dias depois dos crimes quando Manson e seus seguidores foram presos por integrarem uma quadrilha que roubava automóveis. Contudo, como o mandado de busca estava com a data errada, o grupo foi rapidamente liberado, já que não existia nenhuma suspeita de que seus membros pudessem estar envolvidos nos assassinatos.
Em outubro, o grupo foi preso novamente, desta vez por roubo, incêndio e desmonte ilegal de veículos. Nesse tempo, a polícia investigava os crimes separadamente, mas já procurava por similaridades com outros casos. Foi durante a prisão que uma das seguidoras de Manson, Susan Atkins, se vangloriou e contou para outra detenta sobre o assassinato de Tate e seus amigos. Logo, a história chegou até a polícia, que na mesma época havia entrevistado Al Springer, um motoqueiro que Manson tinha tentado recrutar, que afirmou ter informações sobre o responsável pelos crimes. A ligação estava finalmente sendo estabelecida.
Nisso, entra um dos personagens mais importantes desta história, o promotor Vincent Bugliosi. Na época com 35 anos de idade, Bugliosi foi chamado para uma equipe que seria comandada por Aaron Stovitz, um advogado mais experiente. Contudo, após comentários inadequados para a imprensa, Stovitz foi retirado do caso e Bugliosi assumiu seu lugar. A escolha foi bastante certeira considerando que o promotor detinha um histórico impressionante de 103 condenações em 104 julgamentos.
É justamente da acusação de Vincent Bugliosi que se extraiu grande parte da narrativa que conhecemos sobre a Família Manson. Em 1974, o promotor escreveu Helter Skelter, a obra definitiva sobre a investigação e o julgamento dos assassinatos Tate-LaBianca. Lançamento da DarkSide® Books, Helter Skelter é um clássico do true crime, oferecendo detalhes da investigação, os meandros do julgamento e os bastidores de um caso que entrou para a história. Mas entre tantas incertezas e dificuldades, como Vincent Bugliosi conseguiu levar Manson e seus seguidores à justiça? Vem que a Caveira te explica.
Um dia depois de se tornar o encarregado do caso, Bugliosi se juntou à polícia em suas buscas nos ranchos frequentados pelo grupo de Manson. Com base nos relatos e entrevistas feitos com vários membros da Família, inclusive a confissão de Susan Atkins, finalmente foram identificadas as cinco pessoas que teriam efetivamente participado dos assassinatos em agosto de 1969: Susan Atkins, Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten, Linda Kasabian e Charles “Tex” Watson (que não participou dos julgamento porque estava preso no Texas). Já Charles Manson, o líder do grupo, foi indiciado como o mandante dos crimes, que a partir daqui começaram a ser conhecidos oficialmente como o Caso Tate-LaBianca.
A promotoria sabia que para conseguir a condenação dos réus seria necessário o depoimento de pessoas presentes na hora dos assassinatos. Inicialmente, foi proposto um acordo a Susan Atkins que em troca de seu testemunho não seria condenada à pena de morte. No entanto, Atkins acabou voltando atrás e o acordo foi desfeito, com a jovem sendo indiciada por sete acusações de assassinato e uma de conspiração. A promotoria precisava assim de uma nova testemunha, a qual surgiu por meio de Linda Kasabian, que recebeu a possibilidade de imunidade em troca de seu testemunho, já que era a única acusada que havia participado dos crimes “apenas” como cúmplice e testemunha ocular.
Em 15 de junho de 1970, o julgamento começou e em sua declaração de abertura, Bugliosi indicou que Kasabian seria sua principal testemunha. Ele prometeu ao júri que a evidência mostraria que Charles Manson era tão culpado quanto seus seguidores e que o líder possuía um motivo para os assassinatos que talvez fosse “ainda mais bizarro do que os assassinatos em si”.
Kasabian foi chamada pela promotoria em 27 de julho e permaneceu no banco de testemunhas por um período surpreendente de dezoito dias. Embora a defesa, liderada por Irving Kanarek, tenha tentado descredibilizar a jovem, ela acabou se provando uma testemunha muito confiável, oferecendo um relato da noite dos assassinatos e enfatizando o poder que Manson tinha dentro da família, dizendo: “nós sempre fizemos tudo e qualquer coisa por ele”. Kasabian chegou a testemunhar que não queria acompanhar o grupo na fatídica noite, mas que tinha medo de dizer não para Manson.
Bugliosi então chamou várias outras testemunhas para corroborar com o que foi dito, entre elas Virginia Graham, a companheira de cela de Susan Atkins. Com o objetivo de consolidar o papel de Manson nos crimes, o promotor ainda trouxe testemunhas que descreveram as ameaças que recebiam do líder, evidenciando o controle total que ele possuía na vida dos membros da Família.
Posteriormente, Bugliosi apresentou a teoria do Helter Skelter como um motivo para os assassinatos. Fundamentado em depoimentos como os de Paul Watkins, um jovem de 19 anos de idade que atuava como o principal recrutador de mulheres para a Família, o promotor desenvolveu a famosa explicação de que os crimes eram parte de um plano de Manson para incitar uma guerra racial generalizada com conexões com o Livro do Apocalipse. O testemunho de Linda Kasabian corroborou com a ideia, com a jovem afirmando que Manson havia dito “agora é a hora de Helter Skelter” na noite em que o casal LaBianca foi assassinado. Em novembro de 1970, depois de vinte e duas semanas de depoimentos e exibição de provas, a acusação passou a palavra para a defesa.
A estratégia de Bugliosi era clara: mostrar que os assassinatos não foram aleatórios, mas parte de um plano elaborado e liderado por Charles Manson. Durante o julgamento, o promotor chamou 84 testemunhas e exibiu cerca de 290 provas, utilizando gravações, evidências físicas e depoimentos para construir um caso sólido. Embora Manson não tivesse participado diretamente dos assassinatos, Bugliosi partiu de uma argumentação sobre o poder da manipulação e a fragilidade da mente humana para convencer os jurados de que o líder carismático da Família deveria ser responsabilizado pelos crimes, já que manipulava seus seguidores para cometerem os crimes em seu nome.
Em seu argumento final, o promotor descreveu Charles Manson como um “guru mefistofélico” e seus seguidores como “robôs sem coração”. Bugliosi encerrou então sua argumentação fazendo uma “chamada dos mortos”, dizendo: “Senhoras e senhores do júri, Sharon Tate, Abigail Folger, Voytek Frykowski, Jay Sebring, Steven Parent, Leno LaBianca e Rosemary LaBianca não estão aqui conosco neste tribunal, mas de suas sepulturas eles clamam por justiça.”
O júri deliberou por cerca de uma semana e retornou em 25 de janeiro de 1971 para o veredito. Todos os réus, inclusive Manson, foram considerados culpados em cada uma das 27 acusações, entre elas assassinato em primeiro grau. No dia 19 de abril, o juiz os sentenciou à pena de morte, pedido feito pela promotoria. Era o fim de um dos julgamentos mais longos da história americana.
O trabalho e a estratégia de Bugliosi foram essenciais para levar Manson e seus seguidores à justiça. Sua habilidade como promotor foi crucial para garantir que o líder da Família também fosse responsabilizado pelos assassinatos, mesmo não sendo o executor direto dos crimes. Foi assim que o promotor se transformou em uma das figuras mais impressionantes do caso, sendo o responsável por narrar para o público essa história brutal e enraizá-la em nossas consciências. Apenas um ano depois, Bugliosi deixou o escritório da procuradoria e passou a se dedicar à prática privada da advocacia.
Em 1974, ele publicou Helter Skelter. Oferecendo um visão detalhada da investigação e do julgamento, a obra analisa o colapso moral e social de uma geração, expondo os perigos de ideologias distorcidas, as fragilidades morais e judiciárias que permearam o caso e os horrores vindos de um líder carismático e manipulador. Inédito no Brasil, a obra-prima de Vincent Bugliosi chega na DarkSide® Books como um dos livros mais pedidos ao longo dos 13 anos da Caveira, em uma edição de colecionador com fotos exclusivas e tradução cuidadosa. Leitura indispensável para os fãs de true crime, Helter Skelter nos leva de volta no tempo para investigar os brutais assassinatos que marcaram o fim da era “paz e amor”, mergulhando nas motivações daquele que se tornou uma das mentes criminosas mais perversas do século XX.
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