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Daniella Zupo: “Dores são atalhos que podem nos conduzir a belas veredas”

Autora de AHO: Amanhã Hoje é Ontem compartilha sua jornada para escrever o livro

Deparar-se com a morte é um incentivo e tanto para encarar a vida de outra maneira. Viver o presente é uma das muitas lições que a jornalista Daniella Zupo aprendeu em seu processo de diagnóstico, aceitação e enfrentamento ao câncer de mama. Sua jornada virou o livro AHO: Amanhã Hoje é Ontem.

Jornalista, escritora e documentarista com mais de 20 anos de carreira, Daniella, assim como a maioria das pessoas, nunca imaginou que receberia um diagnóstico de câncer. Isso ocorreu quando ela tinha 42 anos e estava em plena atividade, exigindo que sua atenção se voltasse para sua saúde, seu corpo e sua recuperação.

Documentar este processo fez com que a jornalista mudasse os personagens de suas histórias para a primeira pessoa, transformando os registros em uma websérie inovadora que deu origem ao livro. Em entrevista ao site da SOMOS Livros, ela compartilha um pouco de sua jornada, aprendizados e ensinamentos valiosos para os leitores.

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Daniella Zupo – Créditos: Marcia Charnizon

SOMOS: Como você pensava no tema “câncer” antes do diagnóstico?

Daniella Zupo: Eu não pensava. Na verdade, acho que ninguém está de fato preparado para um diagnóstico de câncer. A gente não pensa que seja algo que possa acontecer com a gente. É normal que seja assim. E, quando acontece com alguém mais próximo, por ser uma doença ainda muito estigmatizada, ainda recebida como uma sentença de morte, muitas vezes preferimos desviar o olhar. Quando acontece com você, é preciso encarar. 

S: O que você pensou quando recebeu o diagnóstico? Como foi o processo de aceitação? 

DZ: Foi um choque. Eu chamo de “bolada nas costas”. Como se ela viesse de trás, quando você não está esperando, quando está olhando em outra direção. Mas, passado o choque inicial, a aceitação foi rápida. Eu tinha que tomar decisões importantes, fazer escolhas no meu tratamento, não dava pra ficar em negação. O diagnóstico de câncer exige isso de nós (ou da família), você está ali com uma espécie de cronômetro ligado, sabe que quanto mais rápidas forem as intervenções, mais chances você terá. Mas não existe uma fórmula. Pra algumas pessoas, a “ficha” só cai mais tarde. E há os que permanecem em negação. Trato disso em um capítulo do livro. “Por que comigo?” é a pergunta que não ajuda em nada, só vai te fazer andar em círculos ou te empurrar para um lugar de onde é difícil sair. A minha aceitação aconteceu no momento em que eu entendi que aquele era um diagnóstico que outras milhares de pessoas também recebiam. Sessenta mil mulheres todos os anos apenas no Brasil. A vida não tinha nada contra mim. O diagnóstico de câncer nada tem a ver com “merecimento”. É uma fatalidade, uma dor que você tem que contornar.

S: Durante o tratamento, você contou com o apoio de alguém? Qual foi a importância disso na recuperação?

DZ: Ninguém atravessa um longo tratamento de câncer sozinho. Nem deveria. É preciso ter pessoas ao seu lado, amigos, família, alguém com quem a gente possa contar, até porque há fases difíceis, em que ficamos fragilizados fisicamente. Assim como é importante ter apoio psicológico. Eu fiz psicanálise, meditação, ouvia música todos os dias. Isso tudo foi fundamental. E sabe o que eu aprendi durante todo esse processo? É bom a gente poder contar com o outro. É bom se apoiar de vez em quando, é bom deixar as pessoas – que querem e podem – nos ajudar. Isso foi um enorme aprendizado que carrego comigo: aprender a contar com o outro. Acho que isso me transformou em uma pessoa mais generosa também. Tem uma frase no livro de que gosto muito: “Se tudo é impermanência – e tudo é –, só podemos permanecer no gesto.” A amizade é a capacidade do gesto. Sempre vale a pena tentar. 

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S: Como este episódio mudou a sua vida? Há algo que fará ou deixará de fazer?

DZ: Existe um antes e um depois. Não creio que possa ser diferente. O câncer é uma experiência profunda, que te humaniza, muda suas prioridades. Uma chuva nunca mais é apenas uma chuva, assim como um pôr do sol. Parece piegas, mas é assim. Nunca mais deixarei de me sentir grata por estar viva.

S: Por ser jornalista, você já estava acostumada a contar a história de outras pessoas. Como foi a transição para narrar a sua própria história?

DZ: Não foi planejado. Quando comecei a fazer os registros em vídeo, que depois se transformaram em um documentário, e quando comecei a escrever um diário que depois seria publicado, eu estava elaborando o diagnóstico da maneira que podia. Com as ferramentas que tinha. A decisão de publicar todo esse material foi difícil. Justamente por estar acostumada a reportar outras histórias, a ideia de ser personagem de uma história contada por mim mesma me parecia estranha e me expunha de uma forma que eu não sabia se queria. Era um período em que não havia vídeos no Instagram, minha websérie foi a primeira sobre câncer de mama no Brasil em 2016. Mas percebi que tudo isso poderia ajudar outras mulheres, outras pessoas que convivem com esse diagnóstico. O que eu escrevi para que minha filha um dia pudesse ler acabou chegando a outras pessoas. Os relatos que recebo me mostram que foi a decisão certa. É bonito poder ressignificar essa experiência e contribuir para que outras pessoas façam isso também.

S: De que forma a escrita auxiliou neste processo?

DZ: Desde criança, a escrita sempre foi pra mim uma forma de tentar entender o mundo ou o que me acontecia. Foi isso o que me levou para o jornalismo, possivelmente. Sempre fui uma leitora voraz, sempre trabalhei com a palavra, esse sempre foi o meu caminho de elaboração da realidade e também uma forma de tentar transcendê-la. 

S: O que o livro AHO: Amanhã Hoje é Ontem tem a dizer para quem está enfrentando a doença (pessoalmente ou com alguém próximo) ou até mesmo para leitores em geral?

DZ: Amanhã Hoje é Ontem é uma espécie de mantra que nos lembra que tudo vai passar e que tudo se transforma. A dor de hoje é o aprendizado de amanhã, assim como tudo que já vivemos nos trouxe até aqui. Essa foi a pergunta que minha filha me fez aos 7 anos e que eu transformei em afirmação. Tudo na vida é impermanência e isso não apenas nos lembra de redimensionar o que nos atrasa na vida, as mágoas, raivas, mesquinharias, como nos lembra de viver intensamente, aqui e agora. Para quem vivencia um diagnóstico de câncer, esse é um mantra muito forte. Amanhã Hoje é Ontem é um caminho pra acessarmos essa fonte do aqui e agora. Não digo isso como quem minimiza a dor ou o impacto desse diagnóstico. Até porque eu sei o que ele significa na vida da gente. Mas como toda experiência que muda nossas vidas, podemos sair dela mais fortes. Dores são atalhos que podem nos conduzir a belas veredas. 

S: Por causa da pandemia, muitas pessoas têm adiado exames de rotina e atendimento médico preventivo como um todo, atrasando o diagnóstico de doenças como o câncer de mama. Como o seu livro pode contribuir com a conscientização sobre não deixar de lado esses cuidados com a saúde?

DZ: Quando fui diagnosticada, eu tinha 42 anos, uma vida “sob controle” e nunca imaginaria, nem nos meus pensamentos mais remotos, que um dia poderia receber esse diagnóstico. Eu falo disso no meu livro. Não adianta esquivar o olhar, evitar o tema, evitar os exames. Tem gente que até hoje não menciona o nome da doença. Mas o câncer pode acontecer com qualquer um. O que me permitiu estar aqui hoje falando disso pra vocês foi o diagnóstico precoce e o tratamento imediato. Apesar de um câncer agressivo, eu sobrevivi. A prevenção salva vidas. É um fato.

S: Gostaria de deixar algum conselho ou mensagem para alguém que esteja passando por uma experiência parecida? 

DZ: Antes de mais nada: aceite o diagnóstico. Se puder, procure uma equipe médica na qual você confie. Isso é fundamental, muito mais importante que tentar “virar especialista” da noite pro dia. A partir daí, busque um tratamento integralista que leve em consideração que você precisa ajudar seu corpo a se curar. Eu escolhi a psicanálise, a meditação e a acupuntura. Se cerque de pessoas positivas. Só permita que o tratamento seja tóxico, não os seus relacionamentos. E redescubra simples alegrias da vida que podem te ajudar muito nessa jornada: leitura, um trabalho manual, fazer leves caminhadas, ou simplesmente ouvir música. O que faz bem pra alma, faz bem pro corpo. 

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