Algumas partes do passado jamais ficarão acorrentadas ao seu tempo de origem. Um bom filme no cinema com gritos quase histéricos e pipoca, os reclames da tv aberta, a experiência quase mística de frequentar uma videolocadora e descobrir um novo filme de terror. E acreditem ou não, houve um tempo mágico onde tudo isso caberia dentro de um carro.
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Nascido na fornalha criativa de 1986, Dead End Drive-In (batizado por aqui de Drive-In da Morte) é uma distopia australiana, dirigida por Brian Trenchard-Smith, que acompanha um casal de jovens sendo mantidos prisioneiros em um Drive-In. Nesse futuro caótico, a economia ruiu, as pessoas estão no limite e os crimes assolam o que restou da humanidade. Achei perigosamente próximo da realidade… Mas vamos lá!

Começamos o filme recebendo um contexto histórico. Em Dead End Drive-In estamos em um possível futuro de 1986, em 1990, depois que o mundo definhou em uma série de problemas econômicos e sociais. Após recebermos a atualização, acompanhamos o cooper vespertino, quase noturno, de um jovem pelas ruas de Sidney, na Austrália. A cidade está caótica, carros estão abandonados, existe lixo, fogo, gangues de delinquentes e desorganização pelas ruas e terrenos. Nosso atleta corredor se chama Jimmi “Crabs” Rossini, e ele escapa por pouco de uma dessas gangues enquanto volta para casa. Jimmi é valente e tenta ser forte como seu irmão, Frank, mas na verdade ele é bem miúdo.


Frank Rossini trabalha na captação de veículos acidentados. No melhor estilo Mad Max, os carros valem muito nesse mundo distorcido. Valem tanto, que os veículos são constantemente roubados e saqueados pelas gangues de Carboys.

Depois de ajudar Frank em uma dessas disputas, Jimmi Crabs consegue ter um carro emprestado para levar sua namorada, Carmen, a um Drive-In afastado, um dos poucos entretenimentos que ainda resistiram ao caos urbano. Enquanto Jimmi e Carmen praticam entretenimento adulto dentro do carro, alguém rouba as rodas do Chev 1959. Frank sai pronto para recuperá-las, mas descobre que os ladrões são a própria polícia. Sem ter como ir embora ou registrar o roubo à noite, ele decide dormir dentro do carro, com Carmen, e resolver as coisas pela manhã. Ao falar com a administração, Jimmi e Carmen descobrem que estão presos nesse Drive-In junto com outras centenas de jovens, até que o governo decida o que fazer com eles.



O filme pode não parecer plausível em um primeiro olhar, mas precisamos lembrar que ele é uma distopia australiana, em uma era de explosões criativas, recheada de elementos punks e pós-punks de um mundo que não sabia exatamente como lidar com sua juventude. Nesse mundo distante, as pessoas dormiam aterrorizadas com ameaças de caos social e explosões atômicas, então tenhamos em mente que o impossível era apenas um fato esperando para acontecer.

As coisas ficam cada vez mais confusas para Jimmi “Crabs”, mas aos poucos ele entende que está preso no Drive-In Star assim como centenas de outros jovens, que não podem sair, mas recebem um tratamento de liberdade vigiada dentro das instalações do lugar. Nas conversas de Jimmi com o administrador do Drive-In, Thompson, fica a pista de que os jovens estão sendo contidos para que não piorem a sociedade do lado de fora com seu temperamento instável e o desejo de mudar o mundo.


Mas Jimmi também conversa com esses jovens, e a versão da história deles é que o mundo lá fora com a falta de toda e qualquer chance de dignidade era muito pior que o isolamento dentro dos muros e cercas eletrificadas. Em uma dessas conversas, um dos rapazes conta a Jimmi que do lado de fora ele tinha no máximo uma refeição por dia, e nenhuma garantia de dormir sob um teto coberto. Na opinião desse rapaz e de muitos outros, a pressão do lado de fora é um castigo muito maior que a conveniência do Drive-In.
Algo que precisa de atenção nesse filme, é o chev de Jimmi Grabs. Quando Jimmi e Carmen chegam ao Drive-In, o carro é perfeitamente novo, brilhante e polido, tudo nele funciona bem. Com o passar dos dias, o carro começa a ser grafitado, vandalizado e tem suas peças roubadas, até que toda sua identidade se perca, assim como a das pessoas confinadas. Essas metáforas indiretas e entrelinhas não tão óbvias são pontos muito fortes de Dead End Drive-In.

Eventualmente, o campo de prisioneiros recebe novos carros sucateados e também novas pessoas, quase todas imigrantes. Em algumas passagens, a direção expõe a xenofobia dos australianos desse filme de maneira bastante direta e denunciatória, o que só reforça o caráter também social da produção. Em uma das conversas entre Jimmi e Carmen, fica claro que o Drive-In não representa um governo ou uma ideia totalmente irreal, mas a própria Austrália, e isso, de muitas formas, só reforça a coragem dos criadores em realizar esse filme.

Na trama, Jimmi está cada vez mais desperto dos problemas reais da sociedade, ao passo que Carmen, está cada vez mais convencida da imutabilidade das coisas, e que jovens como ela e Jimmi devem aceitar o menos do lado de dentro (“alguns filmes, cortes de cabelos, cerveja e hamburgueres envenenados” grátis), porque é impossível conseguir mais do lado de fora.


Enquanto tenta roubar gasolina de uma patrulha da polícia, Jimmi descobre que Thompson recepciona drogas recreativas dos policiais para distribuir aos moradores do Drive-In Star, parafraseando mais uma vez a sociedade real, que permite um certo nível de entorpecimento social a fim de manter o maior número possível de pessoas em um estado de inatividade e concordância.

Infelizmente precisamos parar por aqui, bem antes do desfecho final de Jimmi “Crabs” Rossini, mas Dead End Drive-In, por uma série de diferentes razões, é altamente recomendado pela Firestar. Algumas vezes, o cinema de horror, ou mesmo o cinema de uma aventura mais agressiva, é considerado vazio, não obstante, com alguma sorte e um bom garimpo, conseguimos encontrar produções que retratam indiretamente, mas com perfeição, um momento do tempo que ainda hoje encontra ecos em nossa sociedade.
Mesmo que esse filme tenha alguns pecados na escalação dos atores (antigamente era comum escalar homens de quarenta anos para interpretar rapazes de dezoito) e em certos exageros criativos, Dead End Drive-In vale seu ingresso e sua atenção. E depois de assisti-lo até a subida dos créditos, não se surpreenda se perguntar a si mesmo de que lado da cerca você está.

Aqui tem meia-entrada, é só conferir o trailer:
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