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ArtigoNa Estrada com Serpentes & Serafins

Encontro Marcado

O Demônio Cientista de Serpentes & Serafins

04/04/2025

De um modo ou outro, sempre tivemos simpatia pelo demônio. A ideia de um anjo rebelde, de um pródigo filho em conflito com o pai ou de um herói revolucionário contra a autoridade divina toca fundo em nossa imaginação. E artistas reforçam essa ideia em pinturas e poemas, por vezes opondo o diabo monstruoso da religião ao anjo caído problemático e complexo, moldura de tantos heróis que surgiram no cinema, na literatura e nos quadrinhos, fosse o rebelde da motocicleta de Marlon Brando, o Lúcifer das séries de TV ou até nas recentes obras visuais de Paul Fryer e Roberto Ferri.

LEIA TAMBÉM: Os anjos de pensamento e desejo em Serpentes & Serafins

Esse fascínio com a figura demoníaca tem diversas fontes. Ora ele responde aos nossos anseios por autonomia e liberdade, ora dialoga com nossa resistência a figuras opressivas e autoritárias e suas consequentes hierarquias, leis e códigos. Tal interesse também dialoga com nossas áreas de sombra, partes fundamentais de nossa psique que são difíceis de avaliar, iluminar ou compreender. Nesse sentido, todos os nossos lados sombrios encontram no diabo muitos espelhos a refletir e a investigar.

Além disso, a figura demoníaca está presente em várias partes do mundo, seja em quadros, estatuários ou mesmo em espaços públicos nos quais poderíamos dar de cara, literalmente, com o diabo. Esse parece ser o caso de Madri, onde um heroico e trágico estatuário satânico figura no parque Bom Retiro. A Fonte do Anjo Caído, de autoria de Ricardo Bellver, fora realizada em Roma e então transportada à capital espanhola ainda no séc. XIX, sendo instalada publicamente com um pedestal de Francisco Jareño, que colocou aos pés do diabo uma corte de peixes, lagartos e cobras. A imagem é poderosa, mostrando o impetuoso anjo caído a impedir com o braço a luz divina que o fustiga. 

Nessa obra em particular, vemos tanto o heroísmo que fascinou os românticos como também boa parte do imaginário que marca o protagonista do romance Serpentes & Serafins. Depois de encarar as revelações celestiais do anjo Barachiel e o encontro apaixonado com Joana, o protagonista do livro, Alex, segue sua viagem exploratória pelos caminhos da religião, da arte e da cultura. Nessa busca, ele sabe que cedo ou tarde encontrará o demônio. Nesse percurso, que o levará à Sintra, Portugal, ele revisita algumas das tradicionais visões do demônio, sobretudo aquelas anteriores à queda, quando encontramos uma figura atraente, admirável e ainda poderosa e luzidia.

Destacarmos um Satã atraente é importante, pois a visão tradicional associada ao demônio não raro é monstruosa e horrenda, dialogando com as crenças e símbolos que tornam o anjo caído o arqui-inimigo divino, o tentador de Cristo ou então o mal responsável por todas as pestilências terrenas. Mas, na contracorrente desse tipo de representação, temos as obras de William Blake, John Milton, Alexandre Cabanel e outros, artistas que investiram em uma bela representação do demônio. 

Essa bela visão do demônio remonta ainda ao medievo, talvez com a dourada iluminura dos irmãos Limbourg de A Queda dos Anjos Rebeldes. Nela, vemos Satã despencando junto de seus anjos rebeldes. Se aproximarmos a imagem, vemos uma criatura bela que segura sua coroa tentando impedir sua derrota e a iminente chegada no inferno. Nessa corrente, poucos fizeram tanto pelo demônio quanto John Milton e William Blake. 

Em O Paraíso Perdido, Milton criou um personagem rebelde e articulado, um herói maldito que roubaria a atenção dos românticos posteriores, sobretudo Lord Byron e Samuel Coleridge. Ao ilustrar o poema, séculos mais tarde, Blake nos daria uma boa visão de como via o Satã de Milton, um ser repleto de brilho e coragem, aprisionado entre as chamas do inferno e dedicado ao seu protesto contra as forças celestiais. São essas representações do demônio que perpassam a trama de Serpentes & Serafins.

Entretanto, para a surpresa de Alex, quando finalmente o anjo rebelde faz sua entrada no livro, ele não corresponde nem a uma visão depreciativa e monstruosa nem a uma visão ultrarromântica e heroica. Afinal, se a figura do demônio simboliza a possibilidade de alterarmos acepções tradicionais, ele não poderia nem ser totalmente bom nem exatamente mau. Nesse sentido, Samael, o demônio do romance, é um viajante e um cientista, um estudioso e um artista, uma criatura que viajou o mundo e que se deixou se apaixonar por ele, não se interessando nem um pouco por almas a corromper, vidas a arruinar ou planetas a destruir em apocalipses de fogo, água ou peste.

Se na primeira parte de Serpentes & Serafins, Barachiel nos deu uma versão poética e lírica das narrativas bíblicas, Samael agora oferece a Alex – e aos leitores – um percurso por um universo cosmológico no qual a evolução natural foi e continua sendo o grande milagre. Para mim, Samael configura uma perspectiva de visão material na qual experiência corpórea, investigação científica e exploração geográfica substituiriam as costumeiras representações de rebeldia ou mesmo de apatia diante da existência física. Uma das minhas inspirações para essa representação está no enigmático personagem de O Viajante sobre o Mar de Névoa, pintura de Caspar David Friedrich.

Trata-se de um demônio igualmente apaixonado e inquisitivo, liberto de qualquer  ressentimento quanto ao plano de Deus, seja Ele quem for, esteja Ele onde estiver. Aqui, mergulhamos em outras referências importantes na trama do livro, que vão desde os debates evolucionistas de Memnoch, de Anne Rice, e filosóficos de O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, passando pelas reflexões de longa extensão dedicadas à história cultural da humanidade presentes em Sapiens e Homo Deus, de Yuval Noah Harari, e chegando a neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, em livros como A Magia da Realidade, A Perigosa Ideia de Darwin e Despertar

Essas referências não querem dizer que o Samael de Serpentes & Serafins seria um ateísta convicto ou então um evolucionista tradicional. Ao contrário, este anjo caído ― que tem algo do espírito curioso e jovial de um James Dean punk ― estaria nos convidando, como um anjo de luz que configura o próprio sentido de Lúcifer, a abrirmos nossas mentes para diferentes perspectivas e ideias, todas com o objetivo de aprendermos a encarar a realidade física como central à experiência humana. E esse é um tema monumental no livro, nos levando a voltar milênios para vermos em primeira mão a maior história de todas: a do surgimento da vida em nosso próprio planeta. 

Se o demônio recebeu até aqui uma série de representações, quis imaginá-lo em Serpentes & Serafins como um ser de puro vigor e força, um anjo caído impetuoso, alegre e inquieto, com uma mochila nas costas nos levando ao maior espetáculo que poderíamos testemunhar, no melhor estilo dos documentários evolucionistas de David Attenborough e, mais recentemente, do físico da Universidade de Manchester, Brian Cox. Em suma, um companheiro de viagens que conduzirá o leitor, assim como Alex, por páginas e páginas de revelação material e física, corpórea e existencial.

Assim, se o demônio seria um ente de paixão e revelação, de rebeldia e contestação, ele também configuraria uma persona de júbilo, crescimento e visão. Mas diferente das ficções tradicionais que o mostram como a serpente que nos tirou do Éden ― para o bem ou para o mal ―, o que Samael nos convida a fazer é a ajustar nossa perspectiva de que nunca deixamos de fato o Paraíso, embora tenhamos deixado de percebê-lo ou esquecido de seus frutos suculentos e doces. Trata-se de recuperar a visão fulgurante representada por Jean Delville na sua pintura Os Tesouros de Satã.

Recuperar tal visão, penso eu, seria um belo modo de contestar as teologias vigentes, sobretudo aquelas que nos prometem um mundo além desse ― seja ele um céu ou um inferno. Em Serpentes & Serafins, é o demônio que nutre simpatia por nós e por nosso planeta. Um demônio que poderia, acima de tudo, ser nosso amigo. E talvez essa visão do diabo, como um amigo e parceiro de viagem, seja nossa derradeira tentação. 

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Sobre Enéias Tavares

enéias tavaresEnéias Tavares é escritor e professor de literatura clássica, com especialização acadêmica nos livros iluminados de William Blake e na tragédia de William Shakespeare. Publicou pela DarkSide Books os romances Parthenon Místico e Lição de Anatomia, ambos integrando o universo da série Brasiliana Steampunk. Também para a Caveira, organizou e prefaciou O Retrato de Dorian Gray, A Máquina do Tempo, O Rei de Amarelo e O Grande Deus Pã. Além de consultor editorial para a marca Sociedade Secreta, atua como diretor do ORC Studio de Economia Criativa e da Editora da UFSM. Saiba mais em eneiastavares.com.br.

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