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Os monstros também amam

A humanidade por trás da Criatura

16/09/2025

Monstros são uma parte fundamental do terror. Desde o seu surgimento, o gênero os incorporou em suas narrativas, consequentemente popularizando a presença de vampiros, zumbis, lobisomens e diversas outras criaturas na cultura popular. 

LEIA TAMBÉM: 10 curiosidades dos Monstros da Universal

Tradicionalmente concebidos como antagonistas, os monstros surgem como criaturas anormais que perturbam a ordem natural e cultural da humanidade. O que quer dizer que são essencialmente vistos como antinaturais e ameaças ao saber comum, não se encaixando na hierarquia social. 

Segundo o pesquisador Noël Carroll, os monstros – categoria bastante ampla no mundo do terror – assustam não apenas porque são perigosos, mas também porque são categoricamente contraditórios, intersticiais, incompletos ou informes. Isso significa que reúnem em si características essencialmente conflitantes, como humanos e animais, animados e inanimados, naturais e sobrenaturais, mortos e vivos. 

drácula

Nesse sentido, historicamente os monstros representam o Outro, aquilo que é diferente e estranho. Se você pensar bem, existem inúmeros personagens memoráveis que personificam essa explicação. Basta lembrar, por exemplo, do Conde Drácula. Fruto da imaginação de Bram Stoker, o vampiro mais famoso de todos os tempos, não apenas reúne em si uma característica conflitante (está vivo e morte ao mesmo tempo), como também representa o Outro predatório que vem de longe para perturbar a ordem da sociedade. 

Contudo, os monstros também possuem facetas diferentes, as quais mostram uma complexidade emocional que nos faz refletir essencialmente sobre o que é, afinal de contas, ser humano. Enquanto isso obviamente não retira a periculosidade de muitos personagens, certamente adiciona interessantes camadas de interpretação para criaturas tão importantes no mundo do terror. 

Afinal, quem é o monstro?

Diversas obras literárias e cinematográficas refletem sobre a monstruosidade de seus personagens. Enquanto essas criaturas carregam em si características que as levam a ser marginalizadas, seja por sua aparência, origem ou comportamento, um olhar mais atento levanta a reflexão de que talvez elas não sejam totalmente desprovidas de humanidade. Um dos exemplos mais contundentes vem do clássico Frankenstein de Mary Shelley

boris karloff em frankenstein 1931

Na obra, a Criatura é constantemente rejeitada por seu próprio criador e pela sociedade que a cerca, sofrendo pela falta de aceitação, amor e pertencimento. Nesse sentido, Shelley não esconde que as ações inconsequentes de Victor Frankenstein são tão monstruosas e terríveis quanto a natureza de sua própria criação, que é levada ao extremo após ser continuamente rejeitada. Desta forma, o monstro não nasceu mau, mas é transformado pela rejeição e preconceito. 

Esse questionamento foi, inclusive, transportado para algumas adaptações de Frankenstein. Tanto no filme de 1931 quanto em sua continuação, A Noiva de Frankenstein, a Criatura aprende a pensar, sentir, amar e machucar, características tidas como essencialmente humanas. É aqui também que ele se torna alvo de nossa simpatia, não sendo rejeitado apenas pela humanidade, mas também por sua própria companheira. 

De forma semelhante, O Fantasma da Ópera de Gaston Leroux também questiona as fronteiras da monstruosidade. Embora o personagem título seja um ser perigoso, marcado pela icônica máscara que esconde seu rosto deformado, ele também é fruto da rejeição e violência da sociedade, desejando constantemente ser amado e reconhecido. Outro exemplo reside em O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo em que o protagonista, Quasimodo, é visto pelos outros como um monstro, mas no fundo é um ser sensível e leal, submetido às atrocidades das pessoas tidas como “normais”.  

lon chaney fantasma da ópera

Quando os monstros amam, sofrem e desejam

Nesse sentido, enxergamos como os monstros podem surgir como espelhos da própria condição humana, personificando medos presentes em todos nós, como o medo do desconhecido, da rejeição e da solidão, assim como as consequências devastadoras de traumas e preconceitos. Ao mostrar tais personagens sofrendo e lidando com seus próprios sentimentos, a fronteira entre o humano e o inumano se desfaz, levantando questionamentos como: seriam os monstros realmente tão diferentes de nós? E afinal de contas, o que define a humanidade?

É justamente por isso que inúmeras histórias trazem os monstros, mesmo em suas formas mais aterrorizantes, reivindicando sua humanidade por meio de sentimentos como o amor, expresso em suas mais variadas formas. É o caso do clássico da Universal, A Múmia, em que o antagonista, Imhotep, tenta ressuscitar sua amada, procurando incansavelmente por ela, e também de King Kong, em que o gigantesco animal desenvolve um afeto genuíno pela protagonista, Ann Darrow, o que nos faz enxergá-lo como a vítima de uma sociedade cruel e gananciosa. 

Mais recentemente, o vencedor do Oscar, A Forma da Água, trouxe uma emocionante história de amor entre Elisa, uma mulher muda, e uma criatura aquática misteriosa. Como em outras narrativas, o “monstro” é muito mais humano, carinhoso e empático do que os outros personagens da trama, mostrando que a monstruosidade pode sim se esconder sob facetas “normais” e “comuns”. Indo mais além, filmes como Titane e Grave, da cineasta Julia Ducournau, ressignificam a monstruosidade e a reconstroem como uma nova forma de humanidade, questionando concepções tradicionais como normal, anormal, afeto e família. 

a forma da água

Os monstros dos anos 1980 e sua estranha forma de amar

Voltando aos anos 1980, diversos filmes de terror trash e independente subverteram a questão da monstruosidade de forma bastante sangrenta e criativa. O Vingador Tóxico, por exemplo, traz Melvin, um sujeito frágil e excluído socialmente, que após cair em um tambor de lixo tóxico se transforma em uma criatura grotesca conhecida pela alcunha de Vingador Tóxico. No entanto, apesar de sua aparência monstruosa, o protagonista não é um ser vilanesco, mas sim um justiceiro que constantemente faz o bem, protegendo os inocentes, lutando contra o crime e nutrindo sentimentos humanos, como amor e compaixão. Com muito gore e humor sombrio, O Vingador Tóxico nos mostra que Melvin é muito mais humano do que diversos indivíduos “normais” ao seu redor e que a monstruosidade não reside na aparência física. 

Basket Case, dirigido por Frank Henenlotter, aborda de forma ainda mais bizarra e trágica a humanidade do monstro. Lançado em 1982 e atualmente considerado um clássico do terror independente, o filme acompanha Duane e seu irmão gêmeo, Belial, uma criatura amorfa e vingativa que foi descartada como lixo cirúrgico após ser separada à força do irmão. Unidos por um passado traumático, os dois compartilham não apenas um laço que desafia a lógica e os limites do corpo e da mente, mas também a mesma sede de vingança. As coisas tomam um rumo drástico quando a dupla chega à Nova York, com Belial escondido em uma inofensiva cesta de piquenique, pronta para acertar as contas com o passado. 

Basket Case

No entanto, apesar da aparência grotesca de Belial, Basket Case nos mostra como o personagem é resultado de um mundo que o rejeitou desde o seu nascimento simplesmente por não aceitar o diferente. Os traumas e a raiva reprimida do personagem o levam a cometer atrocidades, mas ainda assim ele demonstra emoções humanas, como dor e sofrimento, por ter sido separado à força do irmão, e ciúmes e raiva, quando Duane passa a levar uma vida relativamente normal. Nesse sentido, Basket Case não apenas transforma a aberração em protagonista, como constrói Belial como o lado reprimido, sujo e marginalizado que a humanidade tanto tenta esconder sob uma fachada de “normalidade”. 

Uma experiência bizarra e deliciosamente grotesca, Basket Case deixou de ser apenas um cultuado filme e chegou na DarkSide® Books integrando a coleção DarkRewind da locadora Macabra. Com texto afiado de Armando Muñoz e tradução ácida de Daniel Bonesso, a obra não apenas resgata o clássico de Frank Henenlotter como surge como uma carta de amor ao horror trash, aos filmes de locadora e aos monstros grotescos dos anos 80. Uma história perturbadora sobre dois irmãos, Basket Case não aposta só no choque, no gore e na insanidade, mas também nos leva por reflexões inesperadas sobre amor fraternal, aceitação, identidade e, é claro, monstruosidade. 

Basket Case

Nesse sentido, Basket Case segue, de forma bastante inusitada e sangrenta, uma tradição que já pode ser vista em Frankenstein, a qual não apenas questiona a monstruosidade, mas também a transforma em um espelho para a própria condição humana, abordando questões incômodas como traumas, exclusão e desejos. Indo além, muitas vezes, os monstros revelam mais sobre a sociedade que os teme e cria do que sobre si próprios. Desta forma, eles não apenas nos obrigam a questionar o que os define. Afinal de contas, se os monstros possuem sentimentos e desejos que os aproximam da humanidade, talvez a pergunta mais correta (e difícil) seja outra. O que define um ser humano? E como saber se nós não somos os verdadeiros monstros? Talvez, a resposta seja um pouco desconcertante e seja a hora de percebermos que as fronteiras entre a humanidade e a monstruosidade não são e nunca foram tão delimitadas quanto pensávamos que elas eram. 

LEIA TAMBÉM: Fatos pouco conhecidos sobre O Monstro da Lagoa Negra

Sobre Gabriela Müller Larocca

Avatar photoHistoriadora e pesquisadora de cinema de horror há mais de dez anos, enfatizando a representação feminina no audiovisual e o uso do horror como fonte histórica. Produtora de conteúdo e aspirante a garota final. Nunca nega um livro da Caveirinha nem um bom filme de horror. Fala bastante e reclama muito no RdMCast.

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