Depois de percorrer cenários dignos de pesadelos, apresentar monstros inesquecíveis e enveredar por narrativas atmosféricas, o cinema de terror continuou firme e forte. Provando que não era uma moda passageira, o gênero chegou com tudo nos anos 50, mostrando que havia encontrado uma voz, um formato e uma legião de espectadores fieis. Longe de tirar férias, o terror deixou bem claro que tinha vindo para ficar — e assustar.
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É claro que o mundo mudou, de forma que o gênero resolveu mudar junto, sabendo bem que não poderia ficar alheio à tudo que estava acontecendo ao seu redor. Afinal de contas, novos tempos trazem novos medos. Se antes o susto vinha em preto e branco, personificado por aristocratas decadentes de territórios distantes, ele agora tinha novos representantes, os quais acompanhavam as ansiedades e dilemas da sociedade. Ele poderia vir do espaço, sair da lagoa, comandar um hotel à beira da estrada, levantar do túmulo e se esconder em uma inocente garotinha. Esbanjando criatividade e mostrando que não existiam limites nem orçamentos pequenos demais, o terror prosperou de uma forma memorável.
Continuando nossa jornada pela história do cinema de terror, hoje a Caveira te leva por uma viagem pelo gênero produzido entre os anos 1950 e 1970. Prepare a pipoca, não apague a luz e segure seu crucifixo (só por garantia), é hora de voltarmos no tempo para revisitar alguns filmes que definiram gerações de pesadelos e fizeram com que muitas pessoas preferissem dormir de luz acesa.
A Segunda Guerra Mundial pode até ter acabado em 1945, mas seus desdobramentos continuaram na próxima década e influenciaram imensamente a produção do cinema de terror. Em um contexto marcado pelo início da Guerra Fria, pelo medo da aniquilação nuclear e desconfiança em relação à tecnologia e ciência descontroladas, o gênero encontrou um vasto reservatório de novos enredos, antagonistas e sustos. Foi nesse cenário que o terror se aliou à ficção científica, dando origem a narrativas sobre monstros gigantes, mutações e invasões alienígenas que funcionavam como metáforas dos temores políticos e sociais da época.
Filmes como O Monstro do Ártico (1951) e Vampiros de Almas (1956), este último adaptado do romance Invasores de Corpos de Don Siegel, exemplificam essa fusão entre o terror e a ficção científica, abordando a invasão da Terra — especificamente, os Estados Unidos — por seres alienígenas agressivos e tecnologicamente superiores.

Paralelamente, outros longas invocaram abertamente o medo das armas atômicas, adicionando doses de paranoia apocalíptica por meio dos famosos monstros gigantes, como o japonês Godzilla (1954) e o estadunidense Tarântula (1955). Ainda dentro dessa tendência, simbolizando o medo do desconhecido e os efeitos colaterais do avanço científico, diversos filmes abordavam a ciência fora de controle com efeitos catastróficos. Um dos exemplos mais famosos é A Mosca da Cabeça Branca (1958), estrelado por Vincent Price, que mais tarde seria refilmado por David Cronenberg.

Nem mesmo os monstros escaparam dessas temáticas, já que criaturas famosas dos anos 30 foram cientificamente recriadas nas telonas em produções como I Was a Teenage Werewolf (1957) e Blood of Dracula (1957). Embora de forma mais contida, a Universal continuou investindo em monstros, que desta vez adquiriam contornos diferentes, simbolizando o confronto entre ciência e natureza. Foi o caso de O Monstro da Lagoa Negra (1954), o qual aborda questões como o medo do desconhecido, a alteridade incompreendida, o progresso gerando consequências incontroláveis e a natureza violada pelo avanço humano e tecnológico.

Um dos grandes destaques do filme foi seu monstro, cujo visual, criado pela artista Milicent Patrick, entrou para o hall da fama das criaturas por sua dimensão ambígua e simultaneamente ameaçadora e melancólica.

Apesar disso, vale ressaltar que o filme de terror mais lucrativo da década não tinha relação com a ficção científica. Trata-se de Museu de Cera, produção de 1953, lançada em 3D, que estabeleceu Vincent Price como uma estrela do terror. Embora não dialogasse com os medos atômicos, Museu de Cera ilustra como os estúdios de Hollywood abraçaram novas e ostensivas técnicas para implementar a experiência de ir ao cinema e competir com a televisão. Foi nesse contexto que o diretor William Castle conquistou o título de “mestre dos truques” por suas estratégias promocionais ousadas em filmes como A Casa dos Maus Espíritos (1959) e Força Diabólica (1959).

A televisão, inclusive, foi um fator crucial para a década de 1950. Embora o avanço da tecnologia tenha levado a uma diminuição da audiência no cinema, ele também democratizou o acesso a diversos longas. Em 1957, por exemplo, a Universal vendeu um pacote de 52 filmes antigos para diversas estações de TV, os quais eram apresentados em programas temáticos durante as madrugadas. Para uma geração mais nova isso representou um primeiro contato com histórias clássicas, como Drácula e Frankenstein, desencadeando uma nova onda de fascínio por esses monstros. Paralelamente, isso influenciou o surgimento dos apresentadores locais de terror na televisão, como Vampira e Zacherle, além de criar um mercado direcionado para um público mais jovem.

Embora estivesse preocupado com seus monstros, apocalipses e com a ameaça da TV, o cinema de terror ainda encontrou tempo para desenvolver obras de caráter psicológico, antecipando temas que seriam amplamente desenvolvidos na década seguinte. É o caso de A Tara Maldita (1956), filme baseado no romance homônimo de William March, que desloca a monstruosidade e o medo para o interior da família de classe média e para a mente humana, explorando a ideia do mal inato e da psicopatia infantil. Nesse sentido, A Tara Maldita e outras produções sinalizam o início de uma transição para um horror cada vez mais íntimo e humano.

Já do outro lado do oceano, a Inglaterra também viveu um período frutífero para o gênero por meio da Hammer Film Productions. Voltando sua atenção para os monstros clássicos da literatura, a Hammer investiu em filmes como A Maldição de Frankenstein (1957) e O Vampiro da Noite (1958), ambos estrelados pela dupla Peter Cushing e Christopher Lee. Apostando no uso das cores, a produtora não teve medo de adicionar violência gráfica e elementos macabros em seus filmes, algo bastante inédito na época, inundando as telas com sangue, cinismo e temas sexuais. Assim como a Universal alguns anos antes, a produtora também abraçou as franquias, produzindo vários filmes de Frankenstein, Drácula e A Múmia.

O sucesso da Hammer nos anos 1950 não apenas criou um mercado para outros estúdios britânicos, mas também marcou uma transição importante para os anos 1960. Ao retomar figuras clássicas do horror gótico, representadas com maior carga de sensualidade e violência, o estúdio britânico preparou as audiências para os filmes de terror das décadas seguintes, estabelecendo uma ponte estética e temática para o gênero dos anos 1960. Saíam de cena assim os alienígenas e entravam os monstros mais temidos pelos espectadores: os próprios seres humanos.
Nos anos 1960, o terror enveredou por diferentes caminhos. Por um lado, o sucesso da Hammer influenciou o cinema que estava fora do circuito hollywoodiano. Diversos cineastas europeu se beneficiaram do aumento da tolerância dos espectadores perante materiais mais gráficos, assim como da flexibilização das leis de censura. Na Itália, por exemplo, Mario Bava, com seu filme A Maldição do Demônio (1960), se destacou ao explorar o terror de forma visualmente ousada e estilizada, combinando elementos clássicos do gótico com atmosferas surreais e uma violência perturbadora.

Um dos grandes representantes do chamado horror gótico europeu, Bava ainda enveredaria por outros caminhos, tornando-se um mestre do giallo, subgênero italiano conhecido que mistura suspense, assassinatos brutais e uma estética visual sofisticada, que mais tarde influenciaria os slashers nos Estados Unidos.

Voltando para o solo britânico, a produtora Anglo-Amalgamated Productions, distribuiu o emblemático A Tortura do Medo (1960). Extremamente controverso, o longa dirigido por Michael Powell deslocou o terror para o campo da mente humana ao explorar temas como voyeurismo, culpa, obsessão e perversão. Retratando uma violência intimista e perturbadora, A Tortura do Medo rompeu com o terror clássico ao sugerir que o verdadeiro monstro era o ser humano, algo que estabeleceria paralelos temáticos com um filme que estrearia apenas dois meses depois na cidade de Nova York: Psicose.

Uma adaptação da obra homônima de Robert Bloch, que por sua vez foi inspirada pelos crimes cometidos na vida real por Ed Gein, Psicose assinalou uma mudança gigantesca nos filmes de horror estadunidenses. Com uma quantidade de sangue e violência sem precedentes em Hollywood, o filme de Alfred Hitchcock mudou a definição popular de terror, a transformando em um psicopata que persegue e assassina um grupo de pessoas. Levando o medo para o cotidiano, Psicose revelou aos espectadores que o verdadeiro monstro estava dentro da mente humana, influenciando uma geração de filmes de terror psicológico e abrindo caminho para as narrativas dos anos 70. Além disso, com a famosa cena do chuveiro, Hitchcock subverteu a narrativa tradicional e chocou o público ao mostrar que ninguém estava a salvo, nem mesmo a suposta protagonista do filme.

Pegando carona no sucesso dessas narrativas, filmes como O Parque Macabro (1962), O Colecionador (1965) e O Mago (1968), os dois últimos adaptações de obras de John Fowles, também deslocaram o terror para dentro da mente humana, criando tensão ao explorar temas como desequilíbrio emocional, alienação, isolamento e o mal inserido no cotidiano. Outro exemplo formidável foi A Filha de Satã (1962), uma história sobre bruxaria onde forças aparentemente ocultas testam os personagens e retratam o embate entre a razão e a superstição. Enquanto isso, nos Estados Unidos, com os grandes estúdios de Hollywood ainda concedendo o gênero aos estúdios independentes e estrangeiros, Roger Corman se consagrou como o “rei dos filmes B”, com longas como A Pequena Loja dos Horrores (1960) e uma série de adaptações de Edgar Allan Poe, as quais combinavam horror gótico, experimentação visual e simbolismo.
Vale também lembrar que no Brasil, o cineasta José Mojica Marins abria caminho para o gênero com o seu emblemático personagem, Zé do Caixão. Produzindo um terror conectado a tabus culturais e morais, Marins é um dos exemplos das experimentações radicais do cinema nos anos 1960, entrando para a história com filmes como À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967).

Se encaminhando para o final da década, o gênero estava prestes a sofrer mais uma reviravolta com a chegada do ano de 1968, considerado uma data chave para o terror estadunidense moderno. Uma das mudanças mais significativas foi o abandono da restrição de conteúdo — o Código Hays — e a adoção de um sistema de classificação de filmes menos rigoroso. Por sua vez, isso possibilitou que cineastas explorassem temáticas mais adultas e uma violência mais gráfica, explícita e sexualizada. Dentro desse contexto, dois filmes surgem para levar o terror para direções paralelas: O Bebê de Rosemary e A Noite dos Mortos Vivos.

Baseado na obra homônima de Ira Levin, O Bebê de Rosemary não apenas desencadeou um ciclo de filmes com temáticas de satanismo nos anos 70, como também se tornou um dos primeiros longas de terror onde o Mal alcança uma vitória retumbante ao final. Com um orçamento elevado para a época e distribuição de um grande estúdio, O Bebê de Rosemary se destacou ao construir um terror psicológico permeado por paranoia e elementos sobrenaturais. Indo além, o filme protagonizado por Mia Farrow trouxe o terror para a selva de pedra, mostrando como o mal poderia sutilmente invadir um ambiente urbano aparentemente normal.
Do outro lado, A Noite dos Mortos Vivos de George Romero consolidou um dos conceitos mais utilizados no terror: o dos mortos que retornam à vida famintos por carne humana. Embora não seja o primeiro filme de zumbi, o longa é o progenitor do subgênero apocalipse zumbi, influenciando o arquétipo moderno deste monstro na cultura popular. Introduzindo um terror visceral, Romero utilizou a violência explícita, personagens complexos e um espaço narrativo isolado para transformar o terror em comentário social. Aqui, os zumbis surgem como metáforas de alienação e racismo, sendo utilizados como veículos de crítica política e social.

Por mais diferentes que sejam, A Noite dos Mortos Vivos e O Bebê de Rosemary compartilham a mesma sensibilidade apocalíptica que se estenderia pelo cinema dos anos 1970. Ambos transmitem o cinismo e pessimismo da era do Vietnã, abordando um mundo onde a racionalidade falhou, a desordem era fruto dos próprios seres humanos e o fim estava por perto, representado tanto por zumbis no interior dos Estados Unidos quanto por satanistas conspirando em Nova York. Os dois filmes também projetaram o que o terror seria na década seguinte. Enquanto A Noite dos Mortos Vivos apontou uma direção para o cinema independente e para o potencial de jovens diretores, O Bebê de Rosemary mostrou a Hollywood que o gênero poderia ser um produto de alto orçamento dentro de estúdios de prestígio.
Tudo isso preparou o público para a década seguinte, a qual seria marcada por um terror mais gráfico, cru, visceral e politicamente carregado. Sem pedir licença, os anos 70 chegaram com tudo e, empunhando sua serra elétrica, o terror tornou-se um gênero impossível de ser ignorado.
Impulsionada por uma nova tolerância à violência nas telas, a década de 1970 representou uma verdadeira revolução para o gênero. O medo adquiriu contornos mais explícitos, provando que os conflitos sociais e políticos não podiam ser expressos de maneira leve e humorística. Em um período marcado por crises políticas e econômicas, guerras, o fortalecimento de movimentos sociais e o choque de valores tradicionais, o terror entendeu a tarefa e produziu alguns dos filmes mais emblemáticos já vistos.
De um lado o cinema independente prosperou com diferentes temáticas, com filmes como Blácula (1972), Ganja & Hess (1973) e Aniversário Macabro (1972). Este último, por exemplo, marcou a parceria entre Wes Craven e Sean S. Cunningham, nomes de destaque na década seguinte e que juntos exploraram uma violência brutal emergindo da vida cotidiana estadunidense.

No entanto, um dos grandes marcos da década veio em 1973 com o lançamento de O Exorcista, baseado na obra homônima de William Peter Blatty. Ao confrontar o público, de forma chocante e realista, com uma temática sobrenatural, o filme levou o terror a um novo patamar e lhe conferiu um lugar de destaque no mainstream cinematográfico. Ressoando com uma crise espiritual e de racionalidade vivida pela sociedade da época, O Exorcista se tornou uma das produções mais lucrativas e reconhecidas de todos os tempos. Entre protestos, desmaios do público e uma notável “maldição”, o filme se tornou um fenômeno cultural e escancarou as portas para longas com temáticas semelhantes, como A Profecia (1976).

Apenas um ano depois, o terror conheceria outro clássico, que surgiria imponente do cinema independente para abalar as estruturas do gênero: O Massacre da Serra Elétrica. Dirigido por Tobe Hooper, o longa não apenas apresentou um dos vilões mais conhecidos do audiovisual, como apostou em uma violência crua, angustiante e caótica. O filme abandonou os castelos distantes e as criaturas sobrenaturais para explorar o terror no interior do Texas, mostrando que o perigo se encontrava entre estradas esquecidas, postos de gasolina, abatedouros e casas familiares. Sem oferecer alívio ou conforto aos espectadores, O Massacre da Serra Elétrica trouxe um terror que funcionava com uma metáfora para um Estados Unidos em crise, permeado pelos traumas do Vietnã, pela perda de segurança, pela brutalidade latente na sociedade e pelo colapso social.

Marcado por essas duas produções, o gênero continuou se transformando ao longo dos anos 70. Em 1975, ele conheceu o primeiro blockbuster da história com Tubarão, o qual nos lembrou que o medo podia vir tanto da natureza quanto da negligência humana. Enquanto isso, no ano seguinte, o terror explorou a adolescência, a sexualidade feminina e o bullying em Carrie: A Estranha, a primeira adaptação de Stephen King para as telonas.

No mesmo período, diretores visionários começaram a consolidar seu nome na indústria, assim como diferentes subgêneros passaram a conquistar os fãs. O folk horror, por exemplo, ganhou contornos mais nítidos com produções como O Estigma de Satanás (1971) e O Homem de Palha (1973). Já o horror corporal encontrou expressão com o canadense David Cronenberg que dirigiu filmes como Calafrios (1975), Enraivecida na Fúria do Sexo (1977) e Os Filhos do Medo (1979), mostrando que o terror poderia vir dos nossos próprios corpos.

Enquanto isso, o italiano Dario Argento misturou suspense, violência estilizada e estética surreal em uma abordagem visual e sonora inovadora, exemplificada em Prelúdio para Matar (1975) e Suspiria. Já o estadunidense George Romero, consolidou de vez seu lugar como o “pai dos zumbis” ao utilizar os mortos-vivos mais uma vez como metáfora social em O Despertar dos Mortos (1978).

Foi também em 1978 que o terror passaria por mais uma virada, a qual influenciaria o gênero ao longo de toda a década seguinte. Dirigido por John Carpenter, Halloween – A Noite do Terror transformou de vez o bairro de subúrbio em um ambiente de terror e medo, apresentando o icónico Michael Myers como uma força abstrata do mal.

O filme de Carpenter não apenas redefiniu a forma de assustar os espectadores, mas estabeleceu as bases fundamentais do slasher, como a garota final, o assassino mascarado e o grupo de jovens que morre em frente às telas. Longe de ser um sucesso isolado, Halloween escancarou as portas para o terror dos anos 80, abrindo caminho para a febre dos slashers e das franquias. O triunfo da produção fez com que diversos estúdios investissem em filmes semelhantes, deslocando o terror para bem perto do público. Mostrando que o antagonista sempre podia retornar na sequência, Halloween deixou um manual que os anos 80 seguiram de perto. Os slashers estavam finalmente em casa.
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