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DarksideEntrevista

Paula Febbe: “Esse é o maior poder da leitura, conseguir questionar e incomodar”

Autora fala ao DarkBlog sobre rituais de escrita e literatura insólita

18/07/2025

Um quarto de luzes apagadas, uma vela acesa e o brilho da tela do computador. É assim que a literatura insólita de Paula Febbe ganha vida. Mas antes disso, a autora de Vantagens que Encontrei na Morte do Meu Pai e Vermelho já iniciou um processo inconsciente de acessar memórias muitas delas dolorosas — e anotar tudo à mão.

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Durante a Bienal do Livro, o DarkBlog teve uma conversa com a escritora capaz de acessar os pavores e desejos mais íntimos dos DarkSiders, com direito até à escalação dos sonhos de Febbe para uma adaptação de Vermelho em Hollywood. O resultado você confere a seguir:

DarkBlog: Paula, quais sensações você gostaria que uma pessoa tivesse ao pegar um livro seu antes, durante e depois da leitura?

Paula Febbe: Uma coisa muito importante pra quem escreve insólito é que a pessoa se sinta incomodada. Antes a gente sempre vai querer a expectativa, né? A pessoa de repente já te conhece como autora, ou já ouviu falar o seu nome, e espera que ela sinta algo que vai perturbar. Durante, eu espero que ela venha comigo numa jornada de descobrir, comigo, o que acontece com as personagens. Então tem essa questão de caminhar também, é um passeio, você tem que estar aberto para sentir essa perturbação. E aí, no final, que se sinta mudado, que se sinta transformado. Toda leitura que realmente te toca, te transforma de alguma maneira, e isso é o mais importante quando a gente escreve terror, insólito, alguma coisa que seja pesada.

paula febbe vermelho

D: Aproveitando esse assunto, para você, quando uma pessoa está lendo uma história, no fim das contas, ela aprendeu mais sobre os personagens, sobre o mundo ou sobre ela mesma?

PF: Eu acho que sempre sobre ela mesma, pelo menos nos meus livros. Como o meu processo de escrita é um pouco solto, insconsciente, eu não faço um grande plano sobre como o livro vai acontecer. Claro, depois que ele discorre, que ele começa a tomar forma, você entende onde vai ser o plot twist, onde que a surpresa vai acontecer. Mas na verdade ele é uma descoberta sobre aquele mundo e sobre si mesmo. Pensando no Vantagens que Encontrei na Morte do Meu Pai, no primeiro momento ela é uma grande vítima. E a pessoa começa a se compadecer com o que ela conta, e com o passar da narrativa, a pessoa começa a pensar “peraí, por que ela tá fazendo isso?”. Então tem esses dois caminhos, de você de repente encontrar questionamentos seus que você não sabia que tinha. E aí você se conecta ao vilão em pontos muito pesados, em questionamentos muito pesados. Daí você começa a pensar “nossa, ela está questionando isso, mas eu também já pensei isso”. Por isso eu acho que é sempre sobre a gente, não importa o tipo de livro que a gente lê, a gente se identifica quando encontra algo que fale com quem é a gente no nosso íntimo.

D: Além da Paula autora, existe a figura pública da Paula Febbe. Como você lida com essa exposição nas redes sociais ao transformar as suas vivências em personagens?

PF: Eu sempre me vejo como autora, e todo o resto é pra fazer com que as pessoas conheçam os meus livros. É uma vitrine para fazer com que as pessoas entrem no meu mundo. Hoje em dia com o podcast, o Instagram, acaba sendo mais fácil as pessoas chegarem até você, até os seus livros. Se elas ouviram você no podcast, elas acabam seguindo o que você faz. Ontem mesmo eu fui num evento e um menino para mim “olha, eu te ouvi no podcast, comecei a consumir o que você faz e já tô aqui”. Ele foi lá, comprou meus livros, conversou comigo… é muito legal ver esse lado como uma abertura para a leitura, para que as pessoas de fato consigam consumir o livro e ter interesse no livro. Isso é o mais valioso e às vezes é o que a gente mais demora pra fazer, mas é um grande caminho e uma vitrine.

D: Tem algo na sua escrita que você gostaria de mudar? 

PF: Mudar, não. Eu sou muito fiel ao que eu quero fazer. Eu não me privo de nada, mesmo quando a gente pensa em questões de gatilho e tudo mais, a gente tem que avisar pras pessoas que se trata de um livro de terror, de um livro insólito. De qualquer forma, a gente precisa conseguir fazer esses questionamentos. A gente precisa conseguir falar sobre o que quer e ser fiel ao que a gente faz. E a DarkSide faz isso muito bem para mim. Trabalho muito bem com o meu editor, ele me deixa muito livre para que eu consiga fazer o que eu quero. A gente se encontra, a gente se entende nas coisas que precisam ser feitas. Ele, o Cesar Bravo, também é da opinião de que a gente precisa questionar.

Paula Febbe

D: E por outro lado, você já se impressionou com algo que você própria escreveu? Teve algum momento em que você pensou “caramba, fui eu que escrevi”?

PF: Tem algumas partes que são mais de sofrimento, até. Como já falei, eu tenho esse processo um pouco mais inconsciente. Então tem lembranças que eu acesso da minha vida que eu só acesso escrevendo. Tem cenas que eu lembro, que eu não lembrava de outra forma. Daí eu decido colocar aquilo no papel — e aí eu modifico, claro — e vira ficção. Mas é uma espécie de terapia mesmo. Eu tenho momentos em que eu penso “eu não acredito, como eu fui me esquecer disso?”. Daí quando eu vou reler eu choro, eu não fico bem, porque é algo pesado. 

D: Em Vermelho tem muito do que é dito, do que é escrito, mas há também o que é sentido. Como você trabalha com o que não é dito nas suas histórias?

PF: Eu não digo [risos]. Brincadeira! A sutileza é muito usada nas minhas histórias, porque às vezes falar de um jeito mais poético faz com que isso chegue dessa maneira às pessoas, a “violência poetizada”, de alguma forma. Então é com essa forma de trabalhar as palavras, trabalhar as frases para que elas se tornem de alguma maneira sutis, mas ao mesmo tempo violentas e pesadas. É esse contraste. 

D: Você tem algum ritual enquanto está escrevendo?

PF: Eu gosto muito de escrever só à luz de velas. Eu acendo uma vela no meu quarto e começo a escrever. Geralmente escrevo no escuro, só com o computador aberto. Também faço anotações, tem muitas anotações dos livros que eu gosto de fazer primeiro em caderno, então ainda anoto tudo em caderno. Em primeiro lugar porque eu amo, não há nada como escrever à mão. Depois eu acabo passando as coisas pro computador (algumas até escrevo direto lá), nesse momento eu costumo apagar a luz do meu quarto, acender uma vela e escrever desse jeito. Eu adoro isso.

Paula Febbe

D: Hoje se fala muito em comfort reading, aquelas leituras para aquecer o coração de alguma maneira. Para você, a leitura ainda pode ou deve ser um espaço de desconforto?

PF: Primeiro, toda literatura é válida. Tudo o que levar a pessoa para a leitura é bom. Mas até por uma questão pessoal, eu gosto muito do questionamento. Eu gosto muito do desconforto, tanto para ler como para escrever. É quem eu sou. Não consigo imaginar pegar um livro que seja só para ler uma história tranquila e me sentir realizada. Eu não consigo. Esse é o maior poder da leitura, conseguir questionar e incomodar. Pra mim, pelo menos, sempre vai ser.

D: Se Vermelho virasse um filme de Hollywood, quem estaria na direção e quem estaria no elenco?

PF: Eu adoraria o Tarantino, acho que ele seria um ótimo diretor de Vermelho. Para atriz, eu gosto muito da Margot Robbie, ninguém poderia esperar que ela pudesse ser a protagonista de um filme tão violento, acho que seria uma boa, é a primeira em quem consigo pensar. Adam Driver também, gosto muito dele, acho que ele tem um rosto interessante, expressivo, seria muito bom em algum papel talvez do primeiro conto. Gostaria também da Viola Davis (pra ser a Dominatrix), e de Laverne Cox como Madalena.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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