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O que Mulheres Perfeitas nos questiona sobre a trend TradWife

Empoderamento ou comportamento reacionário?

12/12/2025

Em uma bela manhã de sol, uma bela mulher com seu vestido florido, salto alto, maquiagem em dia e avental a postos prepara com devoção o café da manhã para sua família, com o pão que ela mesma amassou, sempre com um sorriso no rosto. Essa poderia ser uma cena comum no livro Mulheres Perfeitas… ou poderia estar num vídeo do TikTok com milhares de visualizações e a hashtag #TradWife.

LEIA TAMBÉM: Saiba como Mulheres Perfeitas influenciou a cultura pop

O ano é 2025, você está passando infinitamente por vídeos sugeridos e de repente esbarra em conteúdos que parecem ter saído da década de 1950. Mulheres vestidas como no período pós-guerra, dedicando todo o seu dia ao lar, à família, ao marido. Elas não trabalham e não tomam nenhuma decisão sem o consentimento do parceiro. Elas são as TradWives.

Quem são as TradWives? Onde vivem? Do que se alimentam?

O termo TradWife é a abreviação de Traditional Wife, literalmente, esposa tradicional. Ele está associado a um movimento que se disseminou com força nas redes sociais, principalmente através de vídeos, nos últimos anos. A ideia central é valorizar os “papéis de gênero tradicionais”, ou seja, o homem enquanto chefe de família e provedor do lar, e a esposa, claro, com dedicação total ao lar, marido e filhos.

https://www.instagram.com/ballerinafarm/?hl=en Hannah Neeleman

Na prática, essas mulheres são a definição de “bela, recatada e do lar”, tratando o cuidado da casa como prioridade, vestindo-se de maneira feminina, rejeitando o estresse do estilo de vida moderno e das mulheres de carreira. Algumas delas até promovem valores religiosos ou conservadores associados à ideia de submissão feminina — Gilead mandou lembranças.

Nas redes sociais, o movimento se manifesta por meio de vídeos com fins estéticos, como mostrar um café da manhã sendo preparado do zero, pães assando, roupas estendidas no varal, o engomado perfeito nas calças (!). Esses conteúdos costumam vir acompanhados de legendas que deixam bem clara a mensagem que querem passar, como “o trabalho mais importante do mundo: ser esposa e mãe”.

Além das aparências, a trend da TradWife também faz comparações entre a vida moderna e “à moda antiga”, sempre com um viés bem romantizado aos “velhos tempos” e críticas ao mercado de trabalho e ao feminismo liberal. O movimento chega a ser interpretado como uma espécie de resposta ao esgotamento que muitas mulheres sentem por terem acumulado obrigações da carreira profissional e do trabalho doméstico, como se a dedicação exclusiva ao segundo fosse uma espécie de “levar uma vida mais leve”.

A relação com as Mulheres Perfeitas de Stepford

Stepford wives

Não sabemos se as tradwives já leram Mulheres Perfeitas em algum momento, mas certamente se sentiriam encantadas com Stepford. A idílica cidade relatada por Ira Levin parece um paraíso distante do turbilhão humano. Até mesmo a protagonista Joanna Eberhart pensou isso num primeiro momento: que estava em um local calmo onde poderia se dedicar à fotografia, enquanto seu marido trabalha em Nova York todos os dias, mas sempre volta a tempo para o jantar.

Porém, não demora muito até ela perceber que há algo muito errado em Stepford. Ao tentar se enturmar com as vizinhas, ela se depara com mulheres extremamente passivas, obedientes, seguindo o mesmo padrão de beleza e ocupadas demais com seus afazeres domésticos. Ela e sua nova amiga Bobbie, outra mulher que foge dos padrões de esposas locais, decidem investigar o que realmente acontece por ali antes que sejam devoradas por essa perfeição assombrosa.

Inspirado pelo florescente movimento de liberação das mulheres do final do século XX, Mulheres Perfeitas é uma das histórias mais perturbadoras sobre aqueles tempos ao mesclar humor e horror, provocado pelo previsível reacionarismo que insiste em atrapalhar a vida daquelas que querem somente ser livres e seguir seu próprio caminho. 

Quem tem a ganhar com as donas de casa perfeitas?

Mulheres Perfeitas pode até ter sido publicado pela primeira vez em 1972, há mais de cinquenta anos, mas já trazia críticas contundentes a essa tendência que tem ganhado as redes no primeiro quarto do século XXI. Não dá para dizer que Ira Levin estava profetizando o que aconteceria mais de meio século depois, mas o alerta continua assustadoramente atual.

Mulheres Perfeitas

A descrição do autor sobre o estilo de vida em Stepford lembra muito o que era idealizado na década de 1950, um mundo permeado pelo pós-guerra, crescimento econômico e pela Guerra Fria nos Estados Unidos. Os homens voltaram a ocupar os postos de trabalho que estavam sendo desempenhados pelas mulheres durante o conflito. Elas, por sua vez, se dedicariam ao lar e às suas famílias nucleares. Esse ideal combinava o anseio por segurança e estabilidade à propagação do American Way of Life — um argumento que ganhou força diante da “ameaça do comunismo”.

Mas o que justifica esse movimento nos dias de hoje? O burnout das mulheres? O esgotamento da jornada dupla? Será que o feminismo falhou ao nos fazer correr atrás de uma carreira, mas sem conseguir dividir de maneira equilibrada a carga doméstica?  

Sim, parece muito tentador abrir mão do esgotamento do trabalho e se concentrar apenas em cuidar da casa, das plantinhas, de fazer o nosso lar um lugar melhor. Mas qual o custo disso? Essa escolha é realmente sua? E mais: as suas escolhas permanecem realmente suas a partir do momento em que você se torna mais dependente de alguém?

Vale repetir o questionamento que Ira Levin fez há mais de cinquenta anos: quem realmente se beneficia de mulheres perfeitas, belas, recatadas e do lar? Ser uma esposa tradicional é realmente uma escolha sua ou alguém te levou a acreditar que essa era uma boa ideia? Se algum dia você mudar de ideia e quiser mudar a realidade em que vive, terá como fazer isso?

A trend da TradWife já carrega em si um paradoxo: uma mulher que escolheu abrir mão do feminismo, sendo que esse mesmo feminismo foi o que a permitiu fazer escolhas. Alguns defensores dizem até ser um ato de empoderamento, ao mesmo tempo em que ela abre mão de seu poder. Uma mulher que escolheu não poder escolher.

Será que em vez de se dedicar exclusivamente ao lar essas mulheres não precisam apenas de férias? Mudar de emprego? Ter um parceiro que realmente divida as tarefas domésticas? Contar com uma rede de apoio que ajude a carregar o fardo? 

A nostalgia dos “bons tempos” parece ser tentadora, mas muitas de nós não viveu aquela época. Não sabe de fato o que se escondia por trás de vestidos florais e maridos que davam ordens sem ser questionados. Os casamentos eram realmente perfeitos ou as mulheres só aturavam em silêncio uma situação da qual não tinham a mínima condição de escapar? 

Mulheres Perfeitas acabou revelando toda a podridão que sustentava a fachada de uma comunidade idealizada. A pergunta que fica é se, com a força de movimentos como o da TradWife, estamos repetindo Stepford por vontade própria e, se quando percebermos o preço, ainda haverá tempo de escolher outro caminho. A perfeição sempre tem um preço, e ele quase nunca é pago por quem dita as regras.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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