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A relação de Parasite Eve com Frankenstein

Qual o limite do controle sobre a vida?

12/02/2026

Desde o século XIX, a literatura vem explorando as ansiedades relacionadas ao avanço científico, assim como seus limites éticos e morais. Nenhuma outra obra exemplifica melhor isso do que o clássico de Mary Shelley: Frankenstein. Publicada originalmente em 1818, a história do cientista Victor Frankenstein e de sua busca incansável por gerar vida a partir da morte rapidamente tornou-se um marco do romance gótico e uma das bases da ficção científica moderna. 

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No entanto, como bem sabemos, Frankenstein nunca foi apenas uma narrativa de horror. A jornada de Victor e o resultado de sua experiência — um monstro que possui consciência e vontade própria — trouxeram questionamentos duradouros sobre os limites da ciência e as consequências da ambição humana em querer criar e controlar a vida. Foi a partir disso, que Mary Shelley construiu uma narrativa que praticamente se fundiu à cultura contemporânea e encontrou eco em inúmeras outras obras no cinema, na literatura e em diferentes formatos midiáticos. Mais de 200 anos depois e uma coisa é certa: Frankenstein continua mais atual do que nunca. 

É justamente por isso que conseguimos encontrar ecos da narrativa de Shelley no aclamado livro de Hideaki Sena, Parasite Eve. Apesar de publicada em 1995, mais de um século depois de Frankenstein, a obra retoma algumas das mesmas inquietações, redirecionando o foco para a biologia moderna e a genética. 

Em Parasite Eve, acompanhamos Toshiaki Nagashima, um pesquisador especializado em biologia molecular, que perde sua esposa Kiyomi em um trágico acidente. Desolado pela perda, ele decide então cultivar em seu laboratório as células do fígado de Kiyomi, inconsequentemente dando início a algo aterrador: uma cultura celular, apelidada de Eve1, que desenvolve consciência e autonomia. Para piorar, Eve1 começa a manipular os acontecimentos ao seu redor dando início a um insidioso plano de transcender aquilo que conhecemos como humano. 

Embora pertençam a contextos históricos completamente distintos, Frankenstein e Parasite Eve compartilham de uma mesma inquietação ao abordar os limites da ciência e seus resultados imprevisíveis. Seja por meio de parafusos e eletricidade ou genética e biologia moderna, ambas as obras fornecem um alerta de como o desejo e a vaidade humana de dominar a vida podem gerar consequências catastróficas. Separados por quase dois séculos, os dois livros partem praticamente da mesma pergunta: até onde o ser humano pode ir até que a sua criação cobre a conta?  

Frankenstein e Parasite Eve: e se a ciência fosse longe demais?

Apesar de suas diferenças, a relação entre Frankenstein e Parasite Eve pode ser entendida a partir de um plano temático e filosófico, com ambas as obras dialogando com questões como ciência, criação da vida e os limites éticos do ser humano. Para começo de conversa, é interessante como as duas constroem sua argumentação por meio de embasamentos científicos e filosóficos. Mary Shelley, por exemplo, baseou-se em descobertas e experimentos recentes no campo da eletricidade, química e filosofia natural para escrever Frankenstein.

frankenstein prometeu moderno

Já no caso de Parasite Eve, Hideaki Sena partiu de descobertas científicas sobre a origem das mitocôndrias – organelas responsáveis por produzir energia – e sua relação simbiótica com as células humanas. A partir dessas bases científicas, os livros estabelecem importantes relações com seu contexto de produção, não apenas ecoando temáticas atuais, mas também ressoando com ansiedades coletivas perante avanços científicos e tecnológicos. 

É assim que enxergamos o primeiro ponto de convergência entre as narrativas: a ciência ultrapassando os limites éticos. Enquanto Frankenstein gira em torno da ambição descontrolada de Victor Frankenstein em superar as fronteiras naturais, em Parasite Eve, Toshiaki Nagashima é um cientista dominado pelo próprio orgulho que, tal qual Victor, não prevê o caos que sua obsessão acarretará. Desta forma, as duas histórias questionam as consequências da arrogância humana e a falta de responsabilidade ética diante do poder científico. Em Parasite Eve, assim como em Frankenstein, a ciência, ao avançar cegamente, desencadeia forças e processos que escapam do controle humano. 

A partir disso, outro ponto surge entre as obras: a criação que foge do controle do criador. Em Frankenstein, o Monstro, enquanto resultado do orgulho científico de Victor, se volta contra seu criador ao ser rejeitado por ele, tornando-se fonte de sofrimento e destruição ao longo do livro. Em Parasite Eve, não demora para Nagashima perder o controle de sua experiência, de forma que a evolução acelerada e descontrolada de Eve1 rapidamente ameaça toda a humanidade. Aqui, criação e destruição andam lado a lado, sendo que o perigo não é consequência apenas dos experimentos científicos, mas principalmente da incapacidade humana de prever e assumir as consequências de seus atos. É assim que tanto Frankenstein quanto Parasite Eve levantam a seguinte pergunta: até onde o ser humano pode criar, modificar e controlar totalmente a vida?

Por fim, as duas obras ainda exploram, de formas distintas, ansiedades coletivas de suas próprias épocas perante um progresso científico desconhecido. Escrito no início do século XIX, Frankenstein expressa angústias perante o avanço da ciência experimental, especialmente aquela realizada com corpos humanos e descargas elétricas. Já no final do século XX, Parasite Eve traduz ansiedades bastante modernas relacionadas à genética, biotecnologia e manipulação do corpo humano. Indo além, o livro de Hideaki Sena também explora um tema bastante relevante no Japão dos anos 90: a ética dos transplantes de órgãos diante de certas circunstâncias.

Desta forma, tanto Frankenstein quanto Parasite Eve exploram o uso irresponsável da ciência, mostrando como ela pode se tornar contraproducente quando se torna uma obsessão pelo conhecimento e pela vaidade, em vez de trabalhar para o bem comum. Não se trata, portanto, de narrativas “anticiência”, mas sim de advertências acerca do uso irresponsável do conhecimento, da vaidade e ambição humanas descontroladas e da ilusão de que o ser humano pode dominar completamente todos os aspectos da vida. 

E se as mitocôndrias tomassem o controle?

Não é à toa que Parasite Eve conta com referências explícitas à Frankenstein. Em determinado momento, por exemplo, descobrimos que a personagem Mariko Anzai, uma adolescente que precisa de transplante de órgão, previamente rejeitou o rim doado pelo pai ao parar de tomar os imunossupressores. Tudo isso porque foi apelidada de “monstro de Frankenstein” por algumas crianças. 

É a partir de discussões sobre genética, consciência celular, biotecnologia, autonomia corporal e ética científica que Parasite Eve de certa forma “atualiza” algumas das questões levantadas por Frankenstein em 1818. Dialogando com o contexto da ciência do século XX, Hideaki Sena constrói um horror visceral e intelectual que transborda com violência, perversão e corporalidade. 

parasite eve

No final das contas, a relação entre Parasite Eve e Frankenstein mostra que algumas preocupações nunca saem de moda, sendo remodeladas de acordo com diferentes contextos. No caso da obra de Hideaki Sena, a eletricidade foi substituída pela genética e o laboratório tornou-se mais tecnológico. No entanto, seja por meio de um monstro feito de partes de cadáveres ou de mitocôndrias decididas a transcender a humanidade, a advertência permanece muito parecida: quando o conhecimento científico avança sem responsabilidade e acompanhado da arrogância humana, o progresso rapidamente se transforma em ameaça. E, como sempre, alguém acaba pagando o preço. É assim que, por meio da biologia moderna e outras inquietações típicas do século XX, que Parasite Eve reforça como os dilemas de criação, poder científico, responsabilidade humana e suas consequências continuam mais atuais — e vivas — do que nunca.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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