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Como a Noiva de Frankenstein se tornou um ícone feminista

Símbolo de resistência deixou sua marca no terror

05/03/2026

Quando o assunto são monstros que mudaram para sempre a história do terror é praticamente impossível não pensar na Criatura de Frankenstein. Concebido em 1818 pela jovem Mary Shelley, o personagem atormentado, criado a partir de diferentes partes de cadáveres como fruto de um experimento científico nada ético, se transformou em um dos maiores representantes da literatura de terror e ficção científica. 

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No século XX, a Criatura foi além e conseguiu outra façanha. Saindo das páginas escritas por Shelley, ela adentrou o mundo do cinema, transformando-se em um ícone audiovisual. Entre tantas adaptações, uma das mais memoráveis foi a dirigida em 1931 por James Whale, a qual se tornou um dos grandes símbolos da bem-sucedida era dos Monstros da Universal. Eternizado pela atuação e pelo visual de Boris Karloff como a Criatura, o filme não apenas se tornou um clássico, como também abriu as portas para uma franquia cinematográfica de sucesso. 

Foi assim que em 1935, a Universal apresentou ao mundo a ousada continuação da história de Mary Shelley: A Noiva de Frankenstein. Dirigida pelo próprio Whale, com roteiro de William Hurlbut, a produção marcou o retorno de Karloff ao papel, começando logo após os eventos do primeiro filme e seguindo mais de perto a interpretação feita por Shelley da Criatura. Contudo, para dar continuidade à trama, a sequência enfrentou um desafio único e precisou introduzir uma nova personagem, a qual ficou conhecida como a Noiva. 

Interpretada por Elsa Lanchester, que também deu vida à Mary Shelley nas cenas iniciais de A Noiva de Frankenstein, a personagem foi apresentada aos espectadores como a contraparte da Criatura, destinada a ser sua companheira ao mesmo tempo em que concretizava o sonho do Dr. Frankenstein de criar a vida a partir da morte. Entretanto, o que parecia à primeira vista mais uma criação excêntrica do mundo das continuações audiovisuais, rapidamente adquiriu contornos inesperados. Bastou um olhar de recusa, uma postura firme e um grito estridente para que, em menos de cinco minutos de tempo de tela, a Noiva deixasse sua marca permanente no terror.  

Com o passar dos anos, a personagem não apenas se transformou em um símbolo do terror gótico, famoso por seu visual inigualável, mas também adquiriu significados modernos, tornando-se um inusitado ícone feminista. Desde muito cedo, os espectadores perceberam que existia algo diferente ali, o que permitiu que décadas mais tarde, em um contexto diferente, a Noiva se transformasse em um símbolo poderoso de resistência e autonomia. Afinal de contas, convenhamos: poucas personagens da ficção disseram “não” com tanto estilo e força.

De “companheira sob encomenda” para ícone feminista

Criada pelo Dr. Frankenstein e pelo Dr. Pretorius, a Noiva surge nos momentos finais de A Noiva de Frankenstein como a companheira ideal, servindo com o único propósito de acabar com a solidão da Criatura interpretada por Boris Karloff. Sem ter a mínima ideia de quem é ou das motivações por trás de sua criação, ela nasce com o objetivo de cumprir solenemente as expectativas masculinas. Sua missão é simples: ser um par para a Criatura e solucionar os problemas de seus criadores. No entanto, como as coisas nem sempre saem como esperamos, tudo muda quando a personagem é enfim apresentada ao novo companheiro. Ao invés de aceitar seu destino e o papel imposto, ela reage com medo e, principalmente, recusa. O grito que sai de sua boca não prenuncia um romance, mas sim a rejeição e o terror. 

Se por um lado essa recusa impulsiona os momentos finais de A Noiva de Frankenstein, evidenciando a tragédia vivida pela Criatura durante toda a sua existência e frustrando os planos megalomaníacos de seus criadores, por outro, ela também permite uma leitura feminista bastante atual, contribuindo para que a personagem se transformasse em um marco da cultura pop. 

Embora tenha sido criada por dois homens com a finalidade de ser a companheira de alguém que nunca havia conhecido (realidade vivida historicamente por milhares de mulheres por séculos), a Noiva escolhe por abertamente rejeitar o papel que lhe foi designado e o destino que lhe foi imposto. Ela não nasce para obedecer, agradar ou cumprir as expectativas impostas sobre sua existência. A personagem não corresponde ao desejo masculino, não se deixa moldar e não aceita ser simplesmente a “outra metade” de alguém. Por uma ótica feminista, a existência da Noiva questiona a própria ideia tradicional de que uma mulher é feita para completar um homem. 

De certa forma, a personagem rompe não apenas com o roteiro previsto pelo Dr. Frankenstein, pelo Dr. Pretorius e pela própria Criatura. Ela rompe com a Hollywood dos anos 1930 e com a sociedade da época, ambas marcadas por papeis de gênero bastante rígidos. Como fruto de seu próprio tempo, é claro que a Noiva ainda está inserida nesse mesmo ambiente, sofrendo com as limitações da época, de forma que a recusa e a tentativa de trilhar o próprio caminho levam ao seu fim prematuro ao lado daquele que deveria ser seu novo companheiro. 

Ainda assim, esse desfecho trágico não impediu que, década depois, a personagem fosse ressignificada em um ícone feminista décadas. Seu visual marcante passou a ser símbolo de identidade própria, enquanto seu categórico “não” a consolidou como um ícone da independência feminina. Além disso, ela também foi posteriormente celebrada como um ícone queer, por desafiar as expectativas que lhe foram impostas e romper com a heterossexualidade normativa e dominante. Desta forma, a personagem deixou de ser apenas um monstro clássico para se afirmar como representação de autonomia, resistência e desejo próprio. 

Com poucos minutos em tela, a Noiva se tornou uma das figuras mais adoradas do mundo do terror, conquistado espaço ao lado de grandes nomes do gênero e aparecendo, desde então, em inúmeras outras produções. Não é à toa que ela foi amplamente homenageada em A Noiva de Chucky (1998) e, agora, em 2026, terá seu retorno triunfal nos cinemas em A Noiva!, filme dirigido por Maggie Gyllenhaal e protagonizado por Jesse Buckley e Christian Bale. 

Ao dizer “não” ao destino que lhe fora traçado, a Noiva deixou de ser o acessório de uma história masculina e transformou seu grito de terror em um manifesto moderno. Em um laboratório moldado por egos e vontades masculinas, ela nos mostrou que sempre há espaço para a resistência e autonomia. Ao ousar fazer o impensável para a época, a personagem mostrou a importância do posicionamento, atravessando as décadas para sair do preto e branco e ganhar as cores das lutas feministas. Provando que nem sempre precisamos falar muito para dizer tudo, a Noiva deixou o laboratório para entrar na história, nos lembrando constantemente que não nascemos para ser a criação de ninguém e que todas temos o direito de escrevermos nossos próprios destinos.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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