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A bizarrice presente na família Binewski, em Geek Love

A autora Katherine Dunn criou o fenômeno literário que inspirou o festival Lollapalooza e nos encantou com um drama familiar bem diferente

Por Dai Castro, parceira DarkSide

Antes de mais nada é válido explicar que esse ‘geek’ do título não se refere ao significado que a palavra adquiriu na cultura pop, nesse caso, a palavra é empregada em seu sentido original e refere-se aos artistas de circo que em sua apresentação degolavam galinhas vivas. Sim, sei que isso soa bastante bizarro, e é justamente essa a sensação que você tem a maior parte do tempo ao topar embarcar na história da família Binewski. Bizarrice, estranhamento e uma boa pitada de repulsa.

A frente de um circo itinerante, os Binewski decidiram produzir as suas próprias aberrações, utilizando substâncias tóxicas e radioativas para dar luz à crianças com algum tipo de alteração genética ou física a fim de utilizá-las no show. Cada um dos seus quatro filhos diferencia-se por alguma anormalidade, característica essa amplamente explorada por seus pais no show de horrores particular da família Binewski.

Conheça a Família Binewski


Crystal Lil é a matriarca, a bela loura de grandes pernas era uma geek antes de passar a se dedicar a família e abandonar a sua apresentação no espetáculo; Al Binewski, herdou o circo do pai, sempre esteve à frente da tomada de decisão, administrando todos os aspectos de seu empreendimento de perto; Arty ou o Aqua Boy, o primogênito que nasceu com nadadeiras nos pés e nas mãos, logo mostra a sua capacidade de persuasão através de discursos cada vez mais entusiasmantes, enquanto se apresenta em um grande aquário; Elly e Iphy, as gêmeas siamesas, dotadas de uma personalidade forte e contraditória, as gêmeas se destacam em apresentações onde demonstram os seus dotes musicais; Olly, a anã corcunda, albina e careca, não foi digna de ganhar um espetáculo para si, no entanto, acaba se saindo bem servindo incondicionalmente aos irmãos, é de sua boca que ouvimos a história dos Binewski; e por fim Chick, o caçula, o aparente “normal” que quase fora abandonado por falta de utilidade, aos poucos revela uma habilidade psíquica bastante valiosa. Dono de um coração de muita bondade é motivo de ciúme para os Binewski mais orgulhosos.

A escrita e narrativa de Katherine Dunn

A narrativa de Geek Love é divida em duas linhas temporais, é através de Olly que descobrimos o passado da família e o desenrolar dos fatos até os dias atuais, quando a anã já se encontra com seus 38 anos. Apesar de achar esse recurso bastante interessante em alguns livros, acho que isso dificultou um pouco o meu avanço na história. A trama do passado, aquela na qual conhecemos cada integrante e a sua importância para o desenrolar da narrativa, fluiu de uma maneira bem rápida, porém, a linha temporal do presente não me pareceu tão interessante, o que me fez torcer para retornar aos estranhos acontecimentos do passado.

Temos uma descrição detalhada de como era a dinâmica do show itinerante, apesar de termos contato com uma boa quantidade de personagens, vamos aos poucos construindo uma imagem bem clara dos integrantes da família Binewski e suas intenções. E fatos que antes eram apenas vislumbres de algo maior, logo passam a tomar proporções assustadoras.

Geek Love, em meio a tanta bizarrice e estranhamento, levanta várias questões interessantes, dentre elas o conceito de família. É impossível não se revoltar com a intenção inicial de Al e Crystal Lil, por outro lado, conforme a história avança conseguimos entender e até aceitar certas atitudes bizarras que foram sendo tomadas, reconhecendo até mesmo, o amor em meio tanta controvérsia. É através do arco de Arty, que a história vai tomando um rumo bastante inesperado e muitas vezes, pesado. Exercendo o seu alto poder de persuasão e oratória é o responsável por disseminar uma nova ideia sobre pureza e libertação, levando os seus seguidores as últimas consequências a fim de se livrarem da maldição da aparente normalidade a qual, os seus corpos estão fadados. Seria a aparente beleza e normalidade um empecilho ao melhor desenvolvimento das capacidades humanas?

Ouvir a história pelos lábios de Olly, a faz muito mais interessante. A personagem compartilha com o leitor uma visão bastante crua da vida e dos acontecimentos, a amargura de suas palavras que por vezes, podem soar como preconceituosa, insensível e distante, funciona como um óculos que nos ajuda a embarcar naquele universo e aceitar os fatos mais bizarros como parte daquela realidade. Não é uma leitura leve e irá incomodar os leitores mais sensíveis, o meu conselho é embarcar com a mente aberta, há bastante coisa para aproveitar dessa leitura.

Publicado originalmente no blog Colorindo Nuvens

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