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Alan Moore apoia Lula em carta aos brasileiros

Autor vê com preocupação agendas da direita sobre o planeta

Ontem à noite, para aplacar nossos corpos da onda de calor repentina e nossas mentes da onda de notícias hediondas (nem tão repentinas), me reuni com alguns amigos em um bar. Eram, em sua maioria, amigos das letras; alguns inclusive já trabalharam em livros da DarkSide®. Começamos falando sobre futebol, mas entre pessoas das letras, especialmente nestes tempos, logo a conversa descamba para política ou para a literatura, quando não as duas coisas.

Como esta semana anunciei meu primeiro romance, Todos se Lavam no Sangue do Sol, não quero falar sobre outro assunto; mas na semana de uma eleição tão importante, fica difícil competir com a política nas conversas de bar. Pra não perder a deixa, portanto, tentei falar da excelente imitação de Lula que fizeram para divulgar o livro (confiram em meu Instagram), do voto na Bahia, de como é difícil inventar vilões com personagens tão nefastos nos noticiários

Em pouco tempo, sabe-se lá por quais caminhos, o papo descambou para Alan Moore, a genialidade de Alan Moore, a lucidez de Alan Moore, a necessidade de lermos Alan Moore. Hoje acordei e descobri que na mesmíssima hora em que falávamos de política brasileira e Alan Moore, Alan Moore, na madrugada inglesa, escrevia sobre política brasileira e nós: eu, meus amigos, e vocês, leitores. Penso que, nesse momento de crise, de desgoverno, de monstros celebrados como heróis, algo tão único e verdadeiro precisa ser propagado. Abaixo, segue uma tradução que fiz, no calor do momento, do texto que ele escreveu; trata-se de uma carta aberta ao Brasil:    

Caríssimo Brasil, 

Estamos esgotando rapidamente as últimas chances de salvar o planeta e seus povos. Nosso mundo está mudando, mais rápido do que qualquer mudança anterior, e está nos forçando a nos adaptarmos mais depressa se quisermos sobreviver. De sociedade caçadora-coletora à agricultura, da agricultura à indústria, da indústria ao que quer que agora esteja tomando forma — esta nova condição à qual ainda não temos um nome — a humanidade já viu antes esses tipos de alternâncias monumentais, embora com menos frequência. Essas transições não são causadas por forças políticas, mas pelos irrefreáveis movimentos da maré da história e da tecnologia, que é uma maré na qual podemos conduzir nossas embarcações, ou que pode nos varrer para longe. A Terra está mudando, mudando por necessidade de um novo lugar, e podemos apenas mudar com ela ou, em vez disso, perder para sempre a biosfera que nos sustenta. A maioria das pessoas, acredito, sabe disso no íntimo de seus corações e sente isso em suas barrigas. 

Mesmo assim, nesses últimos cinco anos, mais ou menos, vimos ao redor do globo um feroz ressurgimento das mesmíssimas ideias políticas e econômicas que nos trouxeram a esta situação claramente desastrosa, em primeiro lugar. A agressão desbragada desse avanço da extrema-direita me parece tão forçosa, e tão desconectada da realidade, que ela só pode ter nascido do desespero; do medo histérico sentido por aqueles que mais usufruem das estruturas de poder do velho mundo, e que sabem que, no fim, não haveria lugar para eles no novo mundo. Temerosos por sua própria existência, e pela existência de uma visão de mundo da qual eles se beneficiam, nessa última metade de década eles vêm lotando o palco do mundo com personagens de pantomima cada vez mais ruidosos, descomedidos e tumultuosos, a quem nenhum curso de ação é demasiado corrupto ou desumano, e nenhuma linha de raciocínio fragrantemente absurda.      

Desavergonhadamente monstruosos, eles perseguiram minorias raciais e religiosas, ou seus povos nativos, ou os pobres, ou as mulheres, ou as pessoas de sexualidades diversas, ou todos estes. Durante a pandemia ainda em curso, eles puseram suas posturas políticas e suas doutrinas financeiras acima da segurança de suas populações, presidindo sobre centenas de milhares de mortes potencialmente desnecessárias; centenas de milhares de famílias devastadas, de comunidades devastadas. Com suas nações em chamas, ou inundadas, ou consumidas pela seca, eles insistiram que a mudança climática era um logro esquerdista para constranger a indústria, e rotularam de terroristas os militantes ambientais e sociais. Adotando o estilo circense fascista de Silvio Berlusconi na Itália, tivemos a perigosa teatralidade insurrecta de Donald Trump na América do Norte, e as danosas indignidades de Boris Johnson e seus atores substitutos no Reino (presentemente) Unido. E, claro, o Brasil teve Jair Bolsonaro. 

Embora obviamente nós do Hemisfério Norte tenhamos contribuído com muito mais do que nossa cota justa de horrendas figuras políticas para a situação do mundo, não conheço ninguém com uma grama de consciência e compaixão que não se apavora com o que Bolsonaro, que chegou à posição surfando na maré de Trump, fez com o país enorme e belo de vocês, junto com o que ele continua a fazer com nosso planeta relativamente pequeno e de algum modo ainda belo. Assistimos em desespero enquanto, entoando o mesmo hinário de sua inspiração dos Estados Unidos, Bolsonaro discursou contra povos indígenas, contra os homossexuais e contra o direito das mulheres a um aborto seguro, alimentando um descontrolado incêndio de ódio como distração de suas agendas sociais e econômicas, enquanto ao mesmo tempo inundava a sua cultura com armas. Vimos suas bravatas sobre a pandemia, seu jorro de idiotices antivacina, e vimos no Brasil o crescente aumento de terrenos com cemitérios improvisados às pressas; uma série de cubículos em solo cinzento cujas gotículas de cor eram flores mortas e marcadores pintados aqui e ali.

Também assistimos de camarote enquanto ele reagia à prospecção de novas leis internacionais ambientais simplesmente acelerando sua destruição suicida da floresta, sufocando nossa atmosfera comum ao queimar selvas, deslocando ou despachando pessoas que viviam nessas regiões há gerações, e aparentemente conspirando ou fazendo vista grossa ao assassinato de jornalistas que investigavam essa limpeza étnica brutal. Uma respeitada revista científica britânica que eu assino, a New Scientist, recentemente descreveu as iminentes eleições no Brasil como um ponto crucial potencialmente sem volta, na batalha de vida ou morte que nossa espécie trava contra a catástrofe climática que nós mesmos engendramos. Simplificando, ou Jair Bolsonaro pode continuar, lucrativamente, a agradar aos interesses corporativos que o apoiam, ou nossos netos poderão comer e respirar. Uma coisa ou outra. 

Como anarquista, há poucos líderes políticos que eu poderia tolerar completamente, veja lá endossar, mas de todos que eu ouvi ou li a respeito, Luiz Inácio Lula da Silva me parece um desses raros indivíduos. Sua política parece justa, humana e prática e, conforme entendo, ele prometeu desfazer muitas das desastrosas decisões de Bolsonaro. Consertar o estrago desses últimos cinco anos com certeza não será fácil, nem acontecerá sem algum custo, e Lula estaria herdando uma paisagem política terrivelmente desfigurada. Na pior das hipóteses, entretanto, de sua distância ele ao menos tem o olhar de um candidato que reconhece que a humanidade está passando por uma de suas infrequentes transformações sísmicas, e percebe que devemos mudar nosso modo de viver, se é que desejamos viver. Ele parece ser um político comprometido com o futuro, com seu trabalho duro e com suas possibilidades justas e maravilhosas, mais do que com as agonias de morte torturantes e destrutivas de um passado insustentável. 

A eleição que ocorrerá no Brasil está, dizem-me, na corda bamba e, como discutido acima, o mundo inteiro está andando sobre ela. Se você já gostou de alguma obra minha, ou sentiu qualquer simpatia por suas inclinações humanitárias, rogo que vote por um futuro cabível a seres humanos, por um mundo que seja mais que a latrina de ouro das corporações e suas marionetes.    

Deixemos para trás as iniquidades dos últimos cinco, ou talvez quinhentos anos. 

Com amor e confiança, 

Seu amigo, 

Alan Moore.

Imagens da carta com a assinatura de Alan Moore:

A filha do autor, Leah Moore, confirmou a veracidade do documento em sua conta no Twitter:

Sobre Paulo Raviere

Avatar photoPaulo Raviere nasceu em Irecê-BA, em 1986. Colaborou com o Blog do IMS e as revistas Pesquisa FAPESP, Barril, Serrote e Piauí. É editor da DarkSide®️ Books, pela qual também publicou traduções de obras de Robert Louis Stevenson, Bret Easton Ellis, Donald Ray Pollock, Clive Barker, Joseph Conrad, David L. Carlson e Landis Blair, entre outros. Tem mestrado em tradução pela UFBA e atualmente pesquisa e traduz a obra de Charles Lamb em doutorado na FFLCH-USP. Todos se Lavam no Sangue do Sol é seu primeiro romance publicado pela DarkSide®️ Books. Saiba mais em raviere.wordpress.com.

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2 Comentários

  • Roberto afonso

    29 de outubro de 2022 às 18:25

    Brilhante comentário a respeito desse alerta sobre situação surreal da destruição dos nossos ecossistemas liderado pela desastrosa política desse atual presidente nefasto, e que realmente esta é uma das eleição, ou se não a mais importante do mundo em que o Brasil decidirá o destino da salvação não só do nosso país, como também do planeta e sem dúvida nenhuma entre os dois candidatos, Lula é a única salvação.

  • Raquel

    31 de outubro de 2022 às 17:52

    Alan maravilhoso 🙂

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