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Aluísio Azevedo: diplomata, abolicionista e imortal da ABL

Autor de O Cortiço, Aluísio Azevedo imaginou o Rio de Janeiro imerso em trevas e no mais absoluto silêncio

Autor inaugural do Naturalismo, um dos movimentos mais importantes da literatura brasileira, Aluísio Azevedo nasceu em uma família abastada no estado do Maranhão, em 14 de abril de 1857, filho do então vice-cônsul de Portugal, David Gonçalves de Azevedo e de D. Emília Amália Pinto de Magalhães, e irmão mais novo de Artur Azevedo. Sua mãe havia casado, aos 17 anos, com um comerciante português, porém o temperamento violento do marido pôs fim no casamento — algo bastante incomum naquela época, meados dos anos 1850. Emília, então, refugiou-se na casa de amigos até conhecer o vice-cônsul português, que havia se tornado viúvo pouco tempo antes. Os pais de Azevedo passaram a viver juntos, sem se casar novamente, o que, à época, foi considerado um escândalo na sociedade maranhense.

Frequentando boas escolas desde pequeno, Azevedo que sempre demonstrou interesse pela pintura e, mais velho, decide se matricular na Imperial Academia de Belas Artes, hoje Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde explora o universo da pintura. Para se manter longe da família, Azevedo fazia caricaturas para os jornais da época e, a partir de então, começou a desenvolver histórias para esses personagens, decidindo se aventurar em um romance pela primeira vez em 1879, com a publicação de Uma Lágrima de Mulher, típico dramalhão característico do período.

Álvares Azevedo na caricatura de Lula Palomanes, presente em Medo Imortal, da DarkSide Books
 Aluísio Azevedo no traço de Lula Palomanes


Apenas em  1881, com o lançamento de O Mulato, romance que causou escândalo entre a sociedade maranhense pela crua linguagem adotada e pelo assunto tratado: o preconceito racial. Nesse romance abolicionista, o autor explora as questões raciais de seu estado natal, o Maranhão. O livro teve grande sucesso, foi recebido na Corte como exemplo de Naturalismo, e Aluísio pôde retornar para o Rio de Janeiro naquele mesmo ano, decidido a ganhar a vida como escritor. E assim o fez, se tornando um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira de número 4, na posição de fundador. 

Os traços mais sombrios de sua escrita podem ser apreciados na antologia Medo Imortal, que reúne 13 autores imortais da ABL em contos e poemas que evocam os traços sobrenaturais da produção literária da época, organizados por Romeu Martins. Nele, Azevedo nos apresenta ao conto “Demônios”, um texto fantástico sobre um fenômeno que faz com que a cidade do Rio de Janeiro seja sucumbida a um mundo de trevas e soturno silêncio. 

“Era a morte geral! A morte completa! Uma tragédia silenciosa e terrível com um único espectador, que era eu. Em cada quarto havia um cadáver pelo menos! Vi mães apertando contra ao seio sem vida filhos mortos; vi casais abraçados dormindo o derradeiro sono.”

Em “Demônios”, Azevedo nos mostra sua verve sombria — muito diferente da escrita encontrada em O Cortiço — um dos romances mais estudados da literatura brasileira. Nele, o mais famoso livro do autor, lançado em 1890, sua escrita ganha traços antropológicos, analisando friamente os comportamentos de seus personagens e nos presenteando com uma rica descrição de ambientes e cenas. O livro também se destaca por ser a primeira obra nacional a abordar abertamente a homossexualidade presente em seus personagens. Em “Demônios”, o autor explora os medos mais profundos e os sentimentos mais confusos que possam deixar qualquer um de nós sem saber distinguir a realidade dos sonhos, ou melhor, dos pesadelos. 

Considerado um dos principais nomes da literatura brasileira, Aluísio Azevedo esteve entre os grandes intelectuais de sua época e já depois da publicação de seus romances mais famosos, que foram O Mulato (1881), Casa de Pensão (1883) e O Cortiço (1890), decidiu seguir a carreira do pai, que falecera, em 1895.Após se tornar diplomata e passar por países como Japão, Espanha, Itália e Inglaterra, optou por editar as passagens mais sombrias e até necrófilas do conto “Demônios”, mas Medo Imortal recupera a edição original e integral da história macabra desse importante autor da literatura brasileira. Nos livros, Azevedo encontrou o melhor caminho para mostrar um dos principais ideais do Naturalismo e de seu fundador libertário francês Émile Zola (1840- 1902): o indivíduo é fruto do meio em que vive. E, inevitável e felizmente, Azevedo viveu e transformou o meio em que vivia com obras do mais alto nível literário.

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

3 Comentários

  • Arnaldo

    2 de agosto de 2019 às 12:17

    Interessante! não sabia que havia escritores do passado que se aventuraram pelo gênero.

  • Fatima Calcagno

    3 de agosto de 2019 às 20:46

    Apaixonantes suas obras! Obrigada, amei o artigo! Livro comprado!! 🖤

  • Thailana

    16 de outubro de 2020 às 14:18

    Que matéria massa! Mas uma pequena observação: a legenda da ilustração está “Álvares Azevedo”. Não seria o Aluísio?

    Abraços!

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