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De Andy Warhol a Jay-Z: O teste de Rorschach na cultura pop

A criação do psicólogo Hermann Rorschach nos anos 1920 influenciou a arte durante o século XX e persiste até os dias de hoje.

Por Cláudio Gabriel

Em 1984, cerca de 63 anos após a criação do método original, o artista americano Andy Warhol lançou o quadro “Rorschach”. A obra tinha uma inspiração bem clara no trabalho original do psiquiatra Hermann Rorschach. Em um desenho de mancha de tinta, Andy, de acordo com o site do Museu de Arte Moderna de Nova York, na verdade, interpretou mal a concepção original de Hermann, acreditando que os médicos analisavam o que os pacientes faziam com a tinta.

Esse acontecimento pode parecer um pouco estranho, mas foi o pontapé inicial para que o Teste de Rorschach – que tem agora a história contada no livro da DarkSide, Teste De Rorschach: A Origem –, se transformasse em uma constante fonte de inspiração da arte e da cultura popular. É até curioso que isso tenha começado com Warhol, um dos nomes mais relevantes da pop art que, por sua vez, é um dos mais populares movimentos artísticos da história.

Teste de Rorschach

Mas, para entender isso, é importante contextualizar e compreender o porquê do teste ter se transformado em algo tão instigante. Formalizado no ano de 1921 através do livro “Psicodiagnóstico”, o método de Rorschach tinha como antecedente a experiência clínica de seu autor, onde convidava seus pacientes a colocarem diversas manchas de tinta em um papel, dobrar e, ao abrir novamente, dizerem o que viam ou percebiam ali. Hermann Rorschach buscava compreender questões complexas ligadas ao psiquismo humano.

A professora doutora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, Marta Helena de Freitas, destaca que pode ter havido um forte impacto do método junto à sociedade, aguçando a curiosidade e as fantasias no imaginário popular por dois motivos: devido a remeter ao jogo lúdico de interpretação de formas ambíguas; e pelo fato os borrões de tintas produzidos ao acaso terem sido também empregados em sessões de espiritismo, remetendo ao aspecto “fantasmagórico” presente nas imagens. 

“O método de Rorschach, enquanto instrumento científico de psicodiagnóstico, é realmente pouco conhecido realmente na cultura popular, mas também suscita muita curiosidade”, comenta Marta Helena. “Remete a todo um universo imaginário, um clima de mistério”. Para ela, essa ambiguidade e curiosidade trazida pelos desenhos pode ter sido um fator determinante de inspiração dos artistas. Lembra ainda que o próprio Rorschach, autor do método, era artista e, quando criança, tinha o apelido de Klex, que em alemão quer dizer “borrão de tinta”.

A influência de Rorschach em “Watchmen”

Rorschach de Watchmen

Após a publicação da imagem por Andy Warhol, um debate dentro do meio cultural sobre o teste voltou a ganhar destaque. Apenas dois anos depois do americano, o roteirista britânico Alan Moore trouxe de volta para uma produção de arte. No caso, a HQ “Watchmen”, lançada em 12 edições entre 1986 e 1987. Além de Moore, a história também tinha os desenhos de Dave Gibbons.

Entre os protagonistas de “Watchmen” está Rorschach. Uma figura misteriosa, em que não se sabe muitos detalhes sobre sua identidade e possuído um instinto de vingança e vigilantismo constante dentro da HQ. Algumas obras mais recentes dão conta sobre desenvolver mais a identidade e personalidade do personagem, mas vamos nos ater na relação curiosa com o método que originou o nome do personagem.

Primeiro, a curiosidade sobre ele é talvez um dos elementos mais reveladores por parte da história. Em segundo, o fato de ser uma pessoa de múltiplas interpretações, também se relaciona bastante com a ideia original de Hermann. Por fim, o lado mais óbvio da conexão é sua máscara, que é uma cópia exata da avaliação. Além de repetir a imagem, ela se modifica constantemente, gerando variadas concepções sobre o que ele poderia estar pensando/tramando.

Rorschach ainda se transformou também em alguém controverso no mundo de “Watchmen”, justamente por essa ambiguidade. A narrativa tem um enfoque bem grande na sua visão sobre os fatos – algo que é detalhado em seu diário que acompanha quase todas as páginas. Sendo assim, ele foi pensado sob diferentes óticas nesse universo, mas também usado por supremacistas brancos na série da HBO “Watchmen”, que dá continuidade aos acontecimentos da publicação original.

Os anos 2000 e as influências contemporâneas

Apesar disso, a imagem do método desapareceu na cultura popular nos anos seguintes. Mesmo sempre estando vagando nos entornos de certas ideias artísticas, o teste não esteve muito presente fora da área acadêmica de psicologia.

Isso mudou um pouco durante os anos 2000. Em 2008, a então senadora democrata Hillary Clinton, que viria a ser ainda candidata à presidência dos Estados Unidos, declarou que ela era um “Teste de Rorschach”, ao abordar sobre como os americanos colocavam os medos, esperanças e ansiedades nos ombros das mulheres.

Em 2010, foi publicada uma autobiografia do rapper e produtor Jay-Z, intitulada “Decoded”. A publicação trazia a imagem feita por Warhol da avaliação de Rorschach em 1984.

Jay-Z

No ano de 2015, uma relação política e da arte com o teste. No caso, o senador republicano Ted Cruz declarou que Rorschach, aquele mesmo de “Watchmen”, era um dos seus cinco super-heróis favoritos, o que causou um imenso debate nas redes sociais. 

Quem veio mais recente foi a banda de indie rock Typhoon com uma canção e clipe chamados de “Rorschach” – além da série da HBO, falada anteriormente. 


Em 2017 também ocorreu a estreia de uma nova série policial da Netflix, chamada Mindhunter, produzida por David Fincher e Charlize Theron entre outros. A produção chamou bastante atenção do público ao abordar dois agentes do FBI, interpretados por Jonathan Groff e Holt McCallany, que entrevistam assassinos em série presos para tentar resolver casos em andamento. Mas o que conectou a série ao método de Rorschach chegou com a divulgação de sua segunda temporada, em que o pôster mostrava os personagens dentro de uma mancha de tinta.

Netflix Gives You a Rorschach Test With the Official Poster for Season 2 of  "Mindhunter" - Bloody Disgusting

As recentes polêmicas e frases mostram como o método de Rorschach não foi algo passageiro. Longe disso, se mostrou uma intensa curiosidade por parte da sociedade e especialmente pela cultura popular. De Andy Warhol a “Watchmen”, passando pelo trabalho de Jay-Z e Typhoon, as imagens concebidas por Hermann se mostram ainda presentes na cabeça do mundo contemporâneo, e sempre de forma imaginativa.

LEIA TAMBÉM: POLÍTICA E PARANOIA: O QUE TORNA INVASORES DE CORPOS UMA OBRA TÃO GRANDE?

Cláudio Gabriel é jornalista e crítico de cinema. Criou em 2014 o site Senta Aí e já colaborou para veículos como a Folha de São Paulo, UOL, Omelete e a revista Quatro Cinco Um. É especializado em jornalismo cultural. Atualmente, trabalha como repórter da rádio CBN.

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

1 Comentário

  • Donária

    27 de abril de 2021 às 10:32

    Shooow

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