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Becky Chambers fala sobre suas influências e paixões na literatura de ficção científica

Com pais cientistas espaciais, a autora da marca DarkLove cria os mais incríveis universos e mostra que é possível viver num mundo igualitário e inclusivo - nem que seja fora da terra

Por Rebeca Puig, parceira DarkSide

A escritora Becky Chambers, autora de A Longa Viagem A Um Pequeno Planeta Hostil, lançado no Brasil pela Darkside Books na linha DarkLove, linha dedicada às novas vozes femininas da literatura foi entrevistada pelas meninas do blog Nebulla.co, parceiras da Caveira.

Becky Chambers cresceu numa família com grande influência de ciência espacial, seus livros foram indicados ao Hugo Award, Arthur C. Clarke Award, ao Bailey’s Women’s Prize for Fiction, entre outros. Ela ganhou o Prix Julia Verlanger em 2017e, ao longo da entrevista, falou não apenas sobre o livro, mas também sobre as influências de seu trabalho e o processo criativo para criar uma obra de ficção científica.

Confira a entrevista completa:


Quais foram as suas maiores influências para escorre A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil?

Eu cresci junto das séries de Star Trek da década de 90, então isso teve uma grande influência em mim tanto criativamente como pessoalmente. Eu também sou uma grande fã de Star Wars e Farscape, e o meu amor por confusos mercados alienígenas e naves espaciais faz parecer que a minha casa está em algum lugar entre esses dois. Do ponto de vista de escrita, Ursula K. Le Guin fez eu me apaixonar a prateleira de ficção científica na livraria, e Carl Sagan me ensinou sobre a poesia do universe.

Um dos elementos que mais nos chamou atenção durante a leitura de Um Pequeno Planeta Hostil foi o fato de Ashby, um humano, ser profundamente contra armas e combates. Foi interessante perceber que isso era, na verdade, algo que a comunidade humana dividia. Essa é um approach difícil de encontrar em Space Operas, que normalmente são repletos de guerras e conflitos violentos, normalmente com heroísmo sendo significado de quantos vilões o herói matou. Essa escolha por um personagem mais pacifista à uma visão mais tradicional à la Han Solo de um capitão foi proposital? Você acha que há um potencial a ser explorado em histórias que não se focam somente nos conflitos armados?

Com certeza “sim” para as duas perguntas. Eu amo uma boa batalha especial tanto quanto qualquer pessoa, mas ficção científica não precisa ser limitada à isso. Meu objetivo com Um Longa Viagem era contar uma história sobre pessoas comuns vivendo no espaço. A maioria das pessoas comuns não participa de conflitos armados, elas não amarram armas aos seus veículos, e elas não saberiam o que fazer quando os caras maus batessem à porta. Então, em termos de história, eu coloquei a tripulação toda por problemas que são (eu espero!) interessantes, mas que são resolvidos por meios diferentes da violência.

A aversão cultural à violência de Ashby não é dividida por todos os humanos da tripulação. Alguns humanos estão ok com armas, outros não querem ter nada a ver com elas. Eu queria deixar claro que os humanos não são uma monoculture, e que as diferenças ideológicas deles sempre vão estar lá. Mas sim, de maneira geral, eu pensei que seria uma mudança interessante de ritmo ter um capitão que não apenas não atira primeiro, mas que não atira de maneira nenhuma.

A Andarilha é uma nave muito tecnológica, mas por ser uma nave de trabalho pesado ela passa longe do glamour e do design que normalmente é atribuído às naves, como em Star Trek, por exemplo. De onde veio a idéia de contar a história de uma nave que constrói túneis?

A Becky de doze anos de idade era completamente obcecada pela adaptação ao cinema de Contato, do Carl Segan (e leu o livro até ele quebrar), então buracos de minhoca são algo que desde cedo capturava a minha imaginação. Quando eu estava começando a desenvolver a história eu sabia que eu precisaria tomar a decisão sobre se velocidade mais rápida que a luz era possível. Eu decidi que o aspect de viagem no tempo não valia a pena, mas eu queria que os meus personagens pudessem pular rapidamente de um planeta ao outro. Buracos de minhoca foram a solução. Sobre a Andarilha não ser top de linha no design, isso volta exatamente sobre essa história ser sobre pessoas comuns. Esses caras não são heróis. Eles são, essencialmente, pedreiros. A nave deles não vai ser nada sobre o que valha a pena escrever para casa.

Um dos elementos que mais nos chamou atenção na narrativa de Um Pequeno Planeta Hostil foi a escolha por focar no desenvolvimento dos personagens, ao invés de na aventura da Andarilha em si. Porque você escolheu esse foco narrativo?

Cem por cento! O que eu com certeza queria era que o leitor pudesse facilmente se inserir dentro deste universo. Já que a maioria das pessoas não precisa lidar com planetas explodindo ou guerras intergalácticas, eu dei à minha tripulação problemas com que se relacionar. Eles não estão pensando muito sobre política ou sobre a expansão da galáxia (apesar dessas coisas estarem acontecendo ao fundo). Eles estão pensando nas suas famílias, nos seus trabalhos, nos seus problemas pessoais, mas coisas que eles querem para a vida deles, no que eles vão comer no jantar. Se você coloca o foco nas coisas do dia-a-dia, até algo que parece fantástico como a vida no espaço fica acessível. Essa é a experiência que eu queria que o leitor tivesse.

Ainda sobre os personagens, eles são tão diversos e tão incríveis que pega muitos dos leitores de surpresa exatamente por fugir dos padrões pré-estabelecidos de relacionamentos, do que alienígenas deveriam ser e de como humanos deveriam se comportar. Essa escolha por personagens tão diversificados vem de uma vontade de preencher um vazio dentro do Sci-fi? Você acha que ainda existe muito para ser explorado?

Dois campos nos quais eu sou muito interessada são biologia e antropologia. Eu amo aprender sobre outros animais (quanto mais diferentes dos humanos, melhor), e sobre culturas e subculturas diferentes das quais eu sou um produto. Nosso planeta tem uma quantidade incrível riqueza de diversidade, tanto em outras espécies como na nossa. Dizer que um futuro galáctico teria apenas uma cultura dominante, só um tipo de família, aliens que se parecem e se comportam exatamente como nós – isso não é só desonesto, é chato. Eu não estou interessada num futuro que representa apenas uma pequeno braço da humanidade, e não estou interessada em alienígenas que são só humanos com tinta verde. A vida como nós a conhecemos é muito mais divertida do que isso.


Uma de nós tem o apelido de “shippmancer” e, assim que começamos a ler o livro, sabíamos que ele tinha muito potencial para ships. Você tem algum ship em especial dentro dos personagens? Ou algum que você não conseguiu explorar direito no primeiro livro, mas que podemos esperar nos próximos?

Eu tenho um favorito, mas como é um relacionamento que acontece mais para frente no livro eu não quero estragar para quem ainda não leu. (Para quem já leu: uma garrafa de vinho e dois copos). Eu posso dizer que Sálvia e Azul são o casal com quem eu gostaria de passar mais tempo. Sálvia é apenas uma personagem pequena em A Longa Jornada, e por mais que eu tenha escrito cenas com o seu companheiro, Azul, só não havia mais espaço para eles na versão final. Eu fiquei muito contente de ter a oportunidade de passar mais tempo com eles no segundo livro, A Closed and Common Orbit.

Uma de nós é roteirista de cinema/tv, e assim que começou a ler o livro ela automaticamente começou a imaginar-lo como filme e/ou série de televisão. Ia ser incrível ter uma adaptação de sci-fi espacial criado por uma mulher. Existem planos pra adaptação? Caso contrário, se você tiver interesse em uma adaptação, qual seria o meio preferido, série ou longa?

Eu estou com certeza interessada nessa possibilidade, e eu escolheria TV ao invés de cinema com certeza. Já que todo o livro é sobre passar tempo com esses personagens e ver como eles se desenvolvem, ter o tempo e o espaço que uma série de televisão permite seria melhor. Acho que haveria problemas colocando todos os lugares que eles visitam, e todas as coisas que eles fazem, em duas horas.

Quando nós conversamos com autores gostamos de saber qual o método que eles usam para escrever. Você poderia descrever um pouquinho do seu dia-a-dia quando está escrevendo um novo livro?

Café da manhã é a parte mais importante. Você não pode escrever um livro se não tiver combustível. Eu também me distraio e fico preguiçosa se tento trabalhar de casa e de pijamas, então eu divido um escritório fora de casa com um cineasta amigo meu. Eu acordo, como roupa de humanos de verdade, vou de bicicleta até o escritório e depois eu mergulho no trabalho. Eu trabalho melhor pela manhã, antes que a minha cabeça fique cheia de outras coisas. Eu não olho e-mail, nem a internet nem nada até que eu tenha terminado o meu trabalho do dia. Eu faço outline dos meus livros, mas é bem raso, e eu raramente escrevo as coisas em ordem cronológica. Eu sento na minha mesa, olho a minha checklist de cenas que precisam ser escritas, e escolho a que parece melhor para aquele dia. Algumas semanas eu posso escrever só um personagem, outras semanas eu vou pulando por todos eles. Eu gosto de escutar música enquanto trabalho, mas só música instrumental – escutar as letras ferra comigo.

Quando eu estou perto de um tratamento completo eu começo a refina-lo. Eu leio os meus tratamentos em voz alta quando tenho o suficiente para trabalhar em cima. É uma ótima maneira de ter certeza que tudo está fluindo do jeito que eu quero, e de pegar erros de ortografia. Depois que eu fico sem força para continuar escrevendo, eu checo o meu e-mail, eu faço todas as coisas relacionadas à trabalho (como entrevistas!) e, frequentemente, tiro uma soneca. Sonecas são as melhores amigas de um escritor.

Publicado originalmente no blog Nebulla

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