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Dia do Tradutor: Conheça curiosidades e desafios da profissão

Profissionais publicados pela Caveira compartilham segredos de um trabalho que traduz muito mais do que um idioma.

Eles não são dicionários bilíngues ambulantes e muito menos aplicativos de tradução instantânea. Os profissionais que trabalham com tradução têm a importante tarefa de transpor não apenas um idioma, mas toda a visão do autor, sutilezas da escrita e detalhes culturais de lugares e tempos nunca imaginados pelo leitor.

Neste Dia do Tradutor, comemorado em 30 de setembro, o DarkBlog conversou com quatro profissionais que já trabalharam em publicações da DarkSide®: Alexandre Boide, Camila Fernandes, Marcia Heloisa e Paulo Raviere. Eles compartilham um pouco de sua trajetória, os desafios da profissão e as qualidades que definem um bom tradutor. 

DarkSide: Há quanto tempo trabalha como tradutor?

Camila Fernandes: Comecei a traduzir profissionalmente no final de 2012, depois de azucrinar um cliente muito querido até ele me passar meu primeiro teste. Eu já prestava serviços de preparação e revisão de livros traduzidos para esse editor, por isso me senti autorizada a azucriná-lo (mas juro que foi com jeitinho e bom senso).

Paulo Raviere: Comecei traduzindo para mim mesmo, durante a graduação em Letras na UFBA, em Salvador. Em 2011 comecei o mestrado, que consistiu em selecionar e traduzir ensaios clássicos ingleses; depois passei anos fazendo traduções informais (os artigos de odontologia têm imagens e descrições técnicas tão apavorantes quanto livros de terror), e de ensaios literários que publicava por conta própria. A primeira obra que traduzi para a DarkSide foi O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock.

D: Quantos livros já foi responsável por traduzir? Quais foram os livros da Caveira?

PR: Com a dissertação e a tese [em andamento], contei treze. Quatro já foram publicados: O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, de Robert Louis Stevenson, Antologia Macabra, organizado por Hans-Åke Lilja, O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock, e Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis; o primeiro volume dos Livros de Sangue, de Clive Barker, que está pra sair. Os outros cinco ainda não foram anunciados, mas saibam que também serão lançados pela Caveirinha. E há mais na fila. Fica o mistério.

CF: É a primeira vez que paro para fazer a conta: traduzi ou cotraduzi quase 40 livros. Para a DarkSide foram sete, mas vou citar só os que a editora já publicou ou anunciou: O Silêncio da Casa Fria, de Laura Purcell, e Dicionário Agatha Christie de Venenos, de Kathryn Harkup.

D: Como descobriu que essa era uma área em que gostaria de atuar?

Marcia Heloisa: A literatura faz parte da minha vida desde muito cedo, graças à influência dos meus pais e da minha tia, que não só viviam cercados de livros, mas eram leitores muito apaixonados. Ainda bem jovem, ganhei um concurso literário e o prêmio foi uma bolsa de estudos na Inglaterra. A experiência sedimentou ainda mais o meu já existente interesse por idiomas e culturas estrangeiras. Anos depois, decidi abraçar de vez a carreira e me formei em tradução na PUC-Rio. O amor pelos livros me conduziu à vida acadêmica e, durante quase uma década, me dediquei exclusivamente ao mestrado e ao doutorado em literatura. Meu regresso à tradução se deu em 2016, quando fui convidada pela DarkSide para traduzir Edgar Allan Poe. Foi então que encontrei, enfim, um verdadeiro lar editorial.

Alexandre Boide: Bom, eu estudei para isso, sou formado em Letras com habilitação específica para tradutor e intérprete. Então posso dizer que tenho essa ideia em mente desde a época do vestibular. Mas a vida dá suas voltas, claro, e eu acabei entrando no mundo dos livros não como tradutor, mas trabalhando numa editora, a Conrad. Fui assistente editorial e editor lá durante muitos anos, e tomei gosto por essa parte do trabalho de publicação também, tanto que até hoje continuo combinando a função de tradutor com a de preparador de texto, e eventualmente faço também revisões, leituras críticas, escrevo orelhas de livros, releases de imprensa… Enfim, continuo pondo em prática o que aprendi em quase duas décadas de mercado editorial.

D: Trabalhar com tradução é mais do que apenas traduzir para outra língua um texto. Quais as aptidões básicas que um tradutor precisa possuir, além claro, da fluência na língua?

AB: A primeira coisa necessária é repertório, ou o que poderia ser chamado de cultura geral, por assim dizer. Para o tradutor, não existe cultura inútil. Nunca se sabe quais partes de nosso repertório serão mobilizadas em uma determinada tradução. Então eu diria que precisamos ler de tudo (livros, jornais, revistas, quadrinhos), ver de tudo (noticiários, filmes, séries, documentários, programas de humor, desenhos animados) e ouvir de tudo (músicas, entrevistas, podcasts). O tradutor deve ser antes de tudo um grande curioso, alguém que tenha a capacidade de saber onde buscar informações quando se depara com coisas que nunca ouviu falar. Outra coisa bastante elementar, mas que é fundamental, é a capacidade de organização. Muitas vezes trabalhamos com projetos de centenas de páginas, que vão demorar meses para ficar prontos, então é preciso saber traçar um cronograma realista e se manter dentro da programação para terminar tudo sem atrasos e sem atropelos.  

MH: O tradutor tem que gostar de ler. A devoção à literatura é fundamental. Outra aptidão extremamente importante é a dedicação à pesquisa. É preciso perfurar todas as camadas do texto, investigar autor, obra, contexto histórico. Outra característica que considero essencial é não ficar subserviente ao material de origem. Vejo muitas traduções excessivamente coladas no original e o resultado é um texto por vezes esdrúxulo, que não faz sentido algum em português. Textos que, no desejo utópico de se manterem “fiéis” ao original, acabam repletos de traduções ao pé da letra. É possível tratar um texto com absoluto respeito, lealdade e carinho, mas ainda assim não perder de vista a importância de produzir algo que faça sentido para o público brasileiro.

PR: O tradutor precisa desconfiar das palavras. Não apenas das palavras dos textos herméticos. Como já dizia o economista Joseph Schumpeter, “Nada é mais traiçoeiro do que aquilo que parece evidente”. Uma palavra usual pode portar significados recônditos. O leitor pode até passar batido por eles, mas o tradutor, por ofício, precisa investigá-los; a pesquisa demanda disposição e paciência, e contextualizá-los requer bom senso. Também é preciso conhecer muito bem os mecanismos do idioma de chegada para retransmiti-los; para modular a música, o ritmo do texto. Depois de tudo isso, por mais dedicada que tenha sido, a tradução sempre pode ser melhorada, e por isso passa pela mão de outros profissionais – a tradução é apenas uma das várias etapas no processo de produção do livro. E quando chega ao leitor, precisamos de certo desapego, pois cada um tem sua própria leitura, muitas vezes diferente da nossa. Em suma: desconfiança, disposição, paciência, bom senso, ouvido atento, humildade, desapego.

D: Com funções e aplicativos novos, como por exemplo, o Google Tradutor, muitos acreditam que a tradução de um livro é algo simples de se realizar. Qual é a verdade sobre as dificuldades de ser um tradutor?

AB: Para traduzir bem, especialmente livros, é preciso saber escrever bem. O tradutor, portanto, apesar de não precisar ser escritor, deve ser um ótimo redator, capaz de trabalhar com diversos tipos de linguagem. Não basta dominar os elementos da narrativa de ficção, por exemplo, já que no livro seguinte pode ser necessário se valer da linguagem jornalística na tradução de um livro de não-ficção, e o seguinte pode ser uma coletâneas de tiras de humor, e depois pode chegar um livro infantil cheio de versinhos e rimas. Não existe algoritmo que dê conta de tantas variedades e sutilezas. A tradução de livros é um trabalho artesanal e especializado.

CF: O Google Tradutor evoluiu e já dá resultados muito bons na tradução do inglês para o português. O que o Google Tradutor ainda não tem, mas nós temos, são sutilezas, como senso de humor, referências culturais, noção de naturalidade, capacidade de identificar soluções que se distanciem do formato para se aproximar do sentido, sensibilidade para escolher o melhor termo caso a caso… A tradutora profissional para no meio do texto e passa uma hora pesquisando um episódio histórico ou o funcionamento de uma substância química para entender o que está traduzindo e ter certeza de que não vai escrever bobagem. Só no dia seguinte ela consegue, finalmente, entender o que aquele trecho obscuro estava dizendo. O histórico de pesquisas do navegador dela está recheado de sites que a fariam parecer uma assassina em série ou terrorista. Para traduzir bem, é fundamental ter discernimento e atenção. 

D: Quais foram os maiores desafios da sua carreira como tradutor?

CF: Um foi (e é) controlar a frustração. Às vezes, você não consegue a chance de fazer um teste, ou consegue, mas não recebe o trabalho. Outras vezes, sua tradução é publicada com tantos erros que você não sabe mais quais são seus. Na primeira vez que isso aconteceu, eu quis cavar um buraco, me jogar nele e botar uma plaquinha de “não perturbe”! O outro foi (e é) o próprio traduzir. A cada livro a gente aprende alguma coisa. Há obras que são paixão à primeira vista; outras são uma boa briga. As primeiras podem impor desafios de vocabulário, enquanto as segundas exigem que você pesquise assuntos que não conhece bem ou reproduza um estilo com o qual talvez não se identifique. E todos esses trabalhos devem ser abordados com o mesmo grau de atenção e respeito.

MH: Os dois volumes de Alice. Em Lewis Carroll, a mera equivalência das palavras é insuficiente e é preciso se render ao nonsense, reestruturando a experiência do texto com máxima lealdade, mas compreendendo que fidelidade é impossível. É um trabalho minucioso, quase técnico, mas ao mesmo tempo, muito estimulante.

D: Que dicas você dá para quem gostaria de atuar nessa função um dia?

AB: Uma coisa que considero fundamental é tentar conhecer todo o processo de publicação, e não só a parte da tradução. Porque, por mais que à primeira vista não pareça, a tradução de um livro é um trabalho coletivo. Depois de traduzido, o livro é preparado, em seguida vai para as mãos do editor, que precisa tomar uma série de decisões importantes relativas ao texto, e depois ainda é diagramado e revisado. Um bom tradutor é aquele que facilita a vida de todas as pessoas que vão trabalhar naquele livro lá na frente. 

MH: Recomendo ler bastante, sobretudo em português. Também existem bons cursos e especializações na área que, além de oferecer aprofundamento teórico e prático, possibilitam a troca com tradutores e outros profissionais do mercado editorial. Não se deixar abater pelos obstáculos e insista no sonho; conheça as editoras brasileiras, examine seus catálogos, entre em contato para testes de tradução. O mercado está sempre atento, em busca de profissionais competentes, dedicados e apaixonados pelos livros.

PR: Sugiro investir ao máximo no próprio repertório. Ler horror, ficção contemporânea, poesia experimental, ensaios familiares, sonetos, tirinhas, teatro clássico, epopeias, filosofia, artigos teóricos, reportagens – o que for possível, sem pressa, sem pressão, o que fluir. Cotejar traduções, ver como um mesmo texto por ser vertido de maneiras diversas. Testar técnicas variadas, ainda que apenas como estudo – treinar a escrita de diálogos, descrições de cenários e personagens, trocadilhos, aforismos, cenas de ação, piadas, informações factuais, versos, argumentação lógica, fluxo de consciência. Quanto mais diversificado esse repertório, mais ferramentas com que traduzir. Sugiro também começar a traduzir textos curtos por conta própria, em vez de esperar por um convite de uma editora. 

Conheça um pouco destes profissionais

Alexandre Boide traduz livros desde 2009 e já possui dezenas de traduções publicadas ao longo destes 11 anos. É formado em Letras com habilitação para tradutor e intérprete. Já trabalhou em diferentes etapas do processo editorial, como assistente editorial e editor. Trabalha com tradução para a DarkSide® desde 2019 e já trabalhou em seis títulos, que ainda serão publicados.

Camila Fernandes começou a traduzir profissionalmente desde 2012. Começou a trabalhar no mercado editorial como revisora e em preparação de textos traduzidos, de onde adquiriu mais conhecimento sobre o trabalho de tradução. Em sua carreira já traduziu ou cotraduziu quase 40 livros. Para a DarkSide®, Camila já traduziu sete livros, como O Silêncio da Casa Fria e Dicionário Agatha Christie de Venenos.

Marcia Heloisa trabalha com tradução há 19 anos. Quando era jovem, ganhou uma bolsa de estudos na Inglaterra através de um concurso literário. Anos depois, abraçou a carreira e se formou em tradução pela PUC-RJ. Pela Caveira já traduziu dez títulos, incluindo Edgar Allan Poe e Alice no País das Maravilhas.

Paulo Raviere sonhava em ser tradutor desde o ensino médio, quando espontaneamente traduzia músicas e textos para os colegas. Formado em Letras pela UFBA, em 2011 iniciou o mestrado, que consistia em selecionar e traduzir ensaios clássicos ingleses. Já traduziu 13 livros, entre eles O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, Antologia Macabra, O Mal Nosso de Cada Dia e Psicopata Americano.

2 Comentários

  • Valeska F. Serafim

    1 de outubro de 2020 às 02:22

    Parabéns a todxs pela belíssima profissão. Em especial a Marcia Heloisa, a tradução dos livros de Poe estão impecáveis! A Darkside, muito obrigada pela qualidade do trabalho de toda a equipe. São os livros mais esteticamente lindos que já adquiri!
    Abraço!

    • DarkSide

      1 de outubro de 2020 às 15:05

      Caveirinha agradece o carinho com nosso time <3

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