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Diário da Caveira: uma narrativa sobre o isolamento

Estar sozinho é o mesmo que estar só? Confira a história completa dos dias em que a Caveira precisou se recolher em sua cabana milenar

Assim como vocês, a Caveira também precisou se recolher. O lugar escolhido foi uma cabana, herança milenar da família Dark, onde o tempo passa mais lentamente e os livros permanecem portais para a imaginação.

O que segue é o Diário da Caveira, um livro de registro dos sentimentos e da solidão de nossa protagonista, palavras que podem ressoar dentro de cada um de nós em tempos como os que vivemos. Afinal, almas sombrias sempre se conectam de alguma forma. 

Enquanto a Caveira vai desbravando seu lar temporário, questionamentos surgem. Estar sozinho é o mesmo que estar só? Como transformar o isolamento em uma experiência de introspecção? Acompanhem as reflexões da Caveira — e compartilhem também as suas nos comentários.

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“Há anos não venho aqui, mas nunca esqueci o caminho. O legado de uma família ultrapassa os bens herdados: esta não é apenas uma cabana antiga, feita de madeira e sombras. É a fonte de todas as histórias da família Dark.

A estrada conduz apenas os mais corajosos para esta região sombria. Atravessei a floresta. Saudei seus habitantes, pedi licença para despertá-los. Não me perdi uma única vez. A trilha se expandiu sob meus pés, como se as próprias entranhas da terra me guiassem.

Por fim, avisto a cabana, eterna como a noite. Cabanas são portais mágicos para a imaginação — assim como os livros. Subo os degraus, alcanço a varanda. A escuridão é do tamanho do silêncio, meu coração pulsa nas trevas. Giro a chave.

O rangido da porta rasga o silêncio e minha mão sente uma teia de aranha. Estaco no umbral para tentar ver o que há na cabana, para saber se minha memória desenha bem tudo que está lá dentro.

A lua alta e redonda ilumina minhas costas, enquanto minha visão cava na treva em busca de uma familiaridade que sei que está ali, em algum lugar… que está ali, na verdade, em todo lugar. Depois que entrar, devo permanecer nesta cabana, e só sair na certeza de que estou só. Embora eu saiba que jamais estou só enquanto ainda ouvir a teia das histórias ser tecida.

Entro na cabana, entro no escuro. As histórias vêm junto.

Aqui dentro, tudo parece adormecido. O silêncio estica seus braços para me tocar, a escuridão é uma presença sobrenatural. Dou um passo adiante. A madeira solta um lamento sob meus pés.

O cheiro de umidade invade meus sentidos conforme avanço pela cabana, tateando. Uma poltrona empoeirada. Um quadro na parede. Detenho-me no coração da casa. O silêncio e a escuridão se aproximam devagar. Respiro fundo. Estou só.

A escuridão talvez seja uma questão de hábito. Quando o familiar nos escapa, surge a oportunidade de observar o que parecia além da percepção. Meus olhos se acostumam e o lugar ganha contornos. Tento avançar aos poucos, mas os móveis desenham um mapa que ainda não conheço.

Penso que o maior medo de todos é exatamente este: o desconhecido. O que ainda não enxergamos parece sempre perigoso e hostil – como esta cabana mergulhada nas trevas. A noite engole as certezas, toco as paredes em busca de apoio, sinto a angústia do confinamento. No entanto, sei que, em algum lugar, existe uma fonte de luz.

Dou mais um passo; outro; mais um. De repente, tudo claro, a escuridão se foi. A luminosidade explode do teto e das paredes.

Enquanto meus olhos se reacostumam à claridade, me pergunto: como pode a luz surgir assim, do nada? Então, eu entendo: a luz surgiu porque era seu tempo de entrar na narrativa.

Encontro uma cadeira, me sento e deixo o tempo passar. Me deixo ficar alguns minutos. Pela primeira vez, sei exatamente onde estou e reconheço, em cada detalhe da cabana, a herança viva dos meus antepassados. Móveis, quadros, objetos. E livros, sobretudo os livros. A poeira obscurece as velhas lombadas, mas saber que estamos juntos dissipa todos os temores.

A luz traz calmaria enquanto coloco cada coisa em seu lugar. Guardo meus pertences, tiro o pó, varro o chão, arrumo os livros na estante. Preparo uma xícara de chá; ela espalha um aroma adocicado pela cabana.

Horas mais tarde, os sons da madrugada me envolvem quando me acomodo na cama, envolta pelas cobertas, no quarto pequeno e aquecido pelo fogo da lareira. Então percebo que há um canto que ainda não foi explorado: a gaveta da mesa de cabeceira.

Em seu interior, um livro de capa preta e letras douradas brilha sob o luar. Um corvo na capa parece me convidar para ler. Eu o abro. Viro uma página. E mais outra.

Estou em casa. Estou em paz.

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