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EntrevistaPrêmio Machado

Diox: “Muitas famílias pretas vão se identificar com a história”

Ilustrador de Aurora conversa com o DarkBlog sobre o processo de criação da HQ vencedora do 1º Prêmio Machado.

Aurora, história em quadrinhos vencedora do 1º Prêmio Machado DarkSide, é fruto da mente criativa da dupla Diox e Rafael Calça. A trama é inspirada nas mulheres das famílias dos dois artistas.

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Diocir José de Assis Junior, o Diox, nasceu em Mogi das Cruzes (SP) mas sempre viveu na capital paulista. O artista começou a desenhar antes mesmo de ingressar no mundo dos quadrinhos, arte da qual ele é fã desde criança. Quando era adolescente frequentou as aulas da Oficina Cultural Alfredo Volpi e mais tarde cursou a faculdade de Artes Plásticas e teve aulas de História em Quadrinhos. Atualmente, o artista trabalha para o mercado editorial, ilustrando livros infantis e materiais didáticos, além de também contribuir com o mercado publicitário e de games. O trabalho dele pode ser conferido na sua página do Behance.

Em uma conversa com o DarkBlog, Diox compartilhou um pouco de sua trajetória, o processo de criação de Aurora, conduzido em parceria com o roteirista Rafael Calça, e a repercussão que ele espera que a obra tenha na sociedade.

DarkSide: Conta para a gente um pouco sobre você, sua carreira e amor pelos quadrinhos. Como tudo começou? 

Diox: A primeira memória que eu tenho com desenho é a do meu pai (que era um artista, mas que nunca conseguiu viver de arte) surpreso, mostrando um desenho meu, que tinha uma corrida de carrinhos, para a minha avó. Eu já desenhava muito antes de começar a ler quadrinhos. O meu primeiro contato com as HQs foi através da Turma da Mônica, Disney e só depois, já adolescente, Marvel e DC. Nesse sentido, a minha história deve ser parecida com a de qualquer fã de quadrinhos. Como a minha família era muito pobre, eu só fui ter acesso ao mundo das artes graças à Oficina Cultural Alfredo Volpi, em Itaquera. Durante um bom tempo a “Volpi” foi a minha segunda casa, uma válvula de escape diante da vida dura e desalentada da periferia dos anos 1990 em São Paulo. Lá, tive grandes professores e ganhei dois amigos pra minha vida toda, Eduardo Rosa e João Pinheiro. Verdadeiros camaradas de estudo e de prática. Esses manos me ajudaram na construção do artista e ser humano que sou hoje. Desde a “Volpi” demorou, mas eu consegui entrar na faculdade de Artes Plásticas, que eu só consegui concluir com a ajuda financeira da minha mãe e dos meus irmãos. Com o meu diploma na mão, eu consegui o meu primeiro trabalho na área. Eu desenhava HQs curtas, de forma muito intuitiva, e até cheguei a publicar uma história juntamente com outros artistas. Mas, em 2014, eu ganhei uma bolsa de estudos na Quanta Academia de Artes para o curso de História em Quadrinhos, ministrada pelo mestre Octávio Cariello. Outro ponto de virada na minha vida. De lá pra cá são nove anos trabalhando pro mercado editorial, publicitário e indústria de games.

D: Como surgiu a ideia da arte de Aurora?

D: Logo depois que eu li o roteiro do Rafa eu fiz alguns estudos e mostrei pra ele. A ideia inicial era de um trabalho de linha clara com sombreamento posterior em aquarela, mas com o passar do tempo achei que seria bem mais trabalhoso. Abandonei a ideia e a partir daí optei pelas hachuras – que na verdade se mostraram tão complexas quanto a aquarela (risos).

Foto: Ricardo Lopes

D: Como foi o processo de criação da obra que é tão pessoal para você e o Rafael?

D: O processo criativo começou a partir da leitura e discussão do roteiro com o Rafa, depois veio a parte da documentação e nessa parte o Rafa me ajudou bastante. Comecei a separar fotografias, filmes e até músicas dos períodos em que a história se passava. A ideia era criar uma atmosfera e me envolver o máximo possível. Sem essa parte não me sinto à vontade para começar a desenhar. Só depois eu mandava os esboços das páginas pro Rafa e ele fazia os apontamentos. É importante ressaltar que como as histórias de nossas famílias eram bem parecidas eu usei muitas referências fotográficas da minha família.

D: Em Aurora acompanhamos as batalhas e conquistas de três gerações de mulheres de uma família. O que os leitores da DarkSide® podem esperar dessa leitura?

D: O Rafa narra brilhantemente, de maneira muito singular e sensível, a história de três gerações de mulheres pretas. Muitas famílias pretas vão se identificar com a história, como eu me identifiquei, mesmo não tendo nenhum grau de parentesco com o Rafa. Na minha ideia, o álbum ajuda a entender como funciona o racismo estrutural no Brasil. De como essa estrutura social possibilita a manutenção das injustiças e das desigualdades de geração a geração. De como esse ciclo só pode ser interrompido com oportunidades iguais para todos. Pode até parecer pretensão minha, mas eu gostaria muito que a nossa HQ chegasse ao maior número de pessoas possível, para, juntos, criarmos um debate acerca do que é essa chaga, o racismo. É isso que eu espero.

D. Em sua opinião, qual a importância de iniciativas como o Prêmio Machado para o mercado nacional?

D: Pra mim é de suma importância, principalmente neste momento obscuro de nossa história pelo qual passamos. Só quem vive, ou melhor dizendo, sobrevive de cultura sabe o que nós estamos passando. Ainda mais durante essa pandemia. Então eu só tenho que parabenizar a atitude da DarkSide Books. A cultura brasileira agradece!

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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6 Comentários

  • Débora Aquelarde

    13 de janeiro de 2021 às 20:47

    Parabéns, Darkside por iniciativas como este prêmio que só fomentam a cultura! Esperando ansiosamente por “Aurora”!

    • DarkSide

      14 de janeiro de 2021 às 18:59

      Contagem regressiva para trazer essa obra para vocês.

  • Thiago (AfroNerd)

    13 de janeiro de 2021 às 21:30

    Só de saber que será uma história afrocentrada e com roteiro e arte de dois artistas incríveis, essa já uma das HQs que mais espero ler em 2021! Só vem AURORA!

    • DarkSide

      14 de janeiro de 2021 às 18:55

      Caveirinha está ansiosa para que conheçam esse trabalho incrível!

  • Valéria Borges da Silva Bertuchi

    14 de janeiro de 2021 às 21:30

    Parabéns Darksid pela matéria que esta ótima, pelo incentivo à todos e pela fotografia (linda foto). Eu conheci vcs através da Luka do programa 89 a rádio rock.

    • DarkSide

      15 de janeiro de 2021 às 10:02

      Caveirinha ficou feliz em saber que gostou do conteúdo!

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