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Medo Clássico

Dorian Gray & suas múltiplas censuras

Conheça a história por trás do clássico

Embora muitas sejam as vidas biografadas de escritores, artistas e gênios, raras vezes uma obra se torna tão marcante e fundamental para a cultura a ponto de receber sua própria biografia. A vida de uma obra, nesse caso, apresenta uma instigante trajetória de sua criação, uma desafiadora revisão de seu processo preparatório e lançamento e também a narrativa de seu impacto na cultura e na sociedade.

O Retrato de Dorian Gray é um desses casos. Um romance cujo histórico inspira tanto fascínio quanto a esfuziante vida de seu autor, o poeta, dramaturgo, esteta e bon vivant Oscar Wilde, um criador que para muitos dispensa apresentações. Neste DarkBlog, vamos explorar justamente a biografia de uma de suas criações máximas: Dorian Gray, numa edição sem censura que a DarkSide® Books publica em breve.

Tudo começou numa sombria noite de setembro de 1888, quando o editor norte americano da Lippincott’s Monthly Magazine, um importante periódico literário publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra, foi a Londres e convidou para o jantar dois mestres da literatura e dois dos maiores criadores de horror do século XIX: Arthur Conan Doyle (1859-1930) e Oscar Wilde (1954-1900).

Edição em Fac-símile do Manuscrito de Dorian Gray (SP Books, 2018)

O jantar no elegante restaurante do Langham Hotel reuniu o editor J. M. Stoddart a seus dois ilustres convidados e daquela mesa resultaria a publicação de O Signo dos Quatro, a segunda aventura de Sherlock Holmes e Watson, e O Retrato de Dorian Gray, dois livros que mudariam a face da literatura vitoriana. No caso do segundo, um livro que mudaria também a vida de seu autor e receberia três versões distintas, versões que resultariam em múltiplas censuras posteriores.

Oscar Wilde produziu a primeira versão do romance entre o final de 1888 e o início de 1889, em manuscrito, com sua letra rabiscada registrando o processo criativo, com parágrafos sendo cortados, frases reescritas e notas adicionadas. Essa primeira versão, raríssima, recebeu em 2018 uma edição em fac-símile, publicada pela editora francesa SP Books. Foi essa edição a utilizada pelo professor e pesquisador Luiz Gasparelli Jr. para suas notas à edição da DarkSide® Books.

A partir dessa versão em manuscrito, que permaneceu nos espólios dos originais de Wilde, foi feita uma cópia datilografada, enviada ao editor da Lippincott’s Monthly Magazine. O editor Stoddart fez uma série de edições, resultando na versão publicada em sua revista em 1890. É esta edição publicada em 1890, em domínio público, a escolhida pela DarkSide® Books, uma edição que recupera uma versão de Dorian Gray antes do debate público que viria a fulminar obra e autor nos anos seguintes.

Assim, com uma primeira alteração editorial, O Retrato de Dorian Gray foi publicado em junho de 1889 tanto nos EUA quanto na Inglaterra no número de julho da Lippincott’s, com grande destaque enquanto principal obra literária do volume e de enredo fantástico e sombrio. Essa versão, mesmo com as alterações do editor, gerou resenhas severas e um escandaloso debate público entre Wilde e os resenhistas, com esses acusando o autor de produzir uma obra imoral e desaconselhável aos leitores.

Tendo em vista essa recepção, quando Dorian Gray recebeu versão em livro em abril de 1891 pela editora Ward, Lock and Co., o editor inglês George Lock exigiu uma série de mudanças. Entre essas alterações, a intimidade física entre os três protagonistas foi amenizada, resultando em um maior destaque à personagem de Sibyl Vane e ao relacionamento heterossexual entre ela e Dorian, além da fascinação de Basil por seu modelo ter sido alterada de uma idolatria mais física para uma relação mais idealizada. Dos treze capítulos da primeira versão, Wilde adicionou seis, além de dividir o último capítulo em dois, totalizando assim vinte capítulos.

Entre essas duas edições – a de 1890, com treze capítulos, e a de 1891, com vinte – a história de Wilde ganhou outros sentidos e uma dupla censura, uma vez que o próprio Wilde trabalhou não com seu original para ampliar o romance e sim com a edição publicada na Lippincott’s.

No caso de Wilde, essas múltiplas censuras ao seu romance sobre amizades proibidas, tragédias amorosas e quadros amaldiçoados iriam despertar a atenção de uma audiência vitoriana carente de histórias sombrias, impactantes e subversivas. Além disso, seu próprio autor seria vilipendiado, julgado e condenado por sua arte e vida. Eis duas biografias que se intercalam, a de um homem e a de sua obra, ambas perpassadas pela violência da censura e da condenação moral.

Sobre Enéias Tavares

Enéias Tavares é professor de literatura clássica na UFSM, tradutor e escritor. Além de organizador da edição de Dorian Gray para a DarkSide® Books, publicou também pela Caveira em 2020 o romance transmídia Parthenon Místico e roteirizou a série audiovisual A Todo Vapor!, disponível na Amazon Prime Vídeo. Mais de sua produção em eneiastavares.com.br.

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