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EntrevistaGraphic Novel

Emily Carroll fala sobre a experiência de desenhar e escrever Floresta dos Medos

A quadrinista conversou com o DarkBlog e revelou detalhes do processo criativo usado para desenvolver a HQ

Emily Carroll sempre gostou de ouvir histórias lidas em voz alta. Ela se lembra de ouvir seu pai lendo contos de terror para ela e seu irmão durante várias noites ao longo de sua infância em London, Ontario. A oralidade das histórias contadas jamais saiu de sua memória e ela brilhantemente a empregou em Floresta dos Medos — um livro perfeito para ser lido em voz alta e ao lado de uma fogueira. Aos 36 anos, Carroll já venceu dois prêmios Eisner — o mais importante do mundo dos quadrinhos — nas categorias Melhor Reimpressão de Álbum Gráfico e Melhor História Curta. Agora, Floresta dos Medos finalmente chegou aos leitores brasileiros.

Em entrevista ao DarkBlog, a quadrinista revelou como foi o processo de criação dos contos que compõem a HQ da marca DarkSide Graphic Novel, lançada pela DarkSide Books. Atualmente, Carroll vive com sua esposa, Kate, e seu enorme gato laranja em Stratford, Ontario.

Confira a entrevista completa com a autora:

Você só começou a fazer quadrinhos em 2010, certo? O que te levou a escrever e ilustrar webcomics naquela época?

Eu tinha muitos amigos que estavam fazendo webcomics na época (geralmente séries mais longas), então eu tinha muita inspiração à minha volta, além de motivação. Estava trabalhando em um estúdio de animação em um trabalho que não exigia muito de mim criativamente, e essa foi uma forma de exercitar meus músculos narrativos e artísticos que não estavam sendo usados há muito tempo.

O seu trabalho é incrivelmente lindo e também muito sombrio e assustador, o que combina perfeitamente com nosso DNA na DarkSide Books. Você sempre quis contar histórias que intrigassem e invadissem a mente das pessoas?

Eu sempre gostei de contar histórias, mesmo que não necessariamente no formato de quadrinhos. Eu cresci com um pai e um irmão mais velho que eram super fãs de filmes cult e de terror, e eu, basicamente, fui na onda deles. Meu pai também me contava várias lendas urbanas de terror para eu dormir, então cresci gostando muito desse tipo de cadência da narrativa oral, na qual a maior parte da escrita de Floresta dos Medos se baseia. Eu sempre amei terror, provavelmente porque eu era uma criança ansiosa e medrosa, e essa era uma maneira de controlar a narrativa do que me assustava.

Por que você acha que histórias de terror têm esse poder de atrair tantas pessoas mesmo sendo, bem, assustadoras?

É meio como eu mencionei antes — você pode controlar uma história de terror, como você interage com ela, quando você interage com ela, etc. Você pode exorcizar demônios que de outra forma poderiam ser prejudiciais ou dolorosos de lidar na vida real. Além de ter o elemento de diversão, quando você sente medo com outras pessoas, ao contrário de quando sente medo sozinho.

Como foi a experiência de adaptar a webcomic “Seu Rosto Todo Vermelho” (His Face All Red) em formato impresso? Como você encontrou equilíbrio entre esses dois mundos?

Não foi tão difícil, eu acho, apesar de definitivamente preferir como funciona na web, já que ela foi originalmente criada para essa mídia. Mas eu ainda acho que funciona muito bem impressa. O maior desafio foi trabalhar com as viradas de página e as revelações, por causa disso alguns painéis e certas peças de arte que eu tinha criado tiveram que ser redesenhados para garantir que tudo fluiria bem. Eu também tive que refazer toda a tipografia, que agora está muito muito melhor e corrigir alguns erros gramaticais que ainda assombram a versão na web.

Podemos ver que Floresta dos Medos tem toda uma vibe de contos de fadas macabros. As histórias são baseadas ou influenciadas por alguma história em especial? Você gostava de contos de fadas macabros quando era criança? Se for o caso, qual era o seu favorito?

Meu conto de fadas favorito é O Barba Azul ou qualquer variação dele (como O Noivo Salteador ou O Estranho Pássaro). A história “As Mãos de Uma Moça São Frias” é explicitamente baseada nesse tipo de conto, no qual uma jovem descobre o lado assassino de seu novo marido. E eu amava contos de fadas quando era criança, assim como mitologia. Eu adorava, e ainda adoro, aquela realidade estranha onde eles parecem habitar, e como existem tantas variações e o quanto a história muda dependendo de quem conta. É legal como não tem uma versão “real”, como você pode fazer ajustes por conta própria, como o conto muda simplesmente ao ser contado.

Tem algum motivo especial para que todas as histórias sejam contadas em algum ponto do passado? Ou você só sentiu que elas seriam mais assustadoras dessa forma?

Existem algumas razões bem sem graças para isso, que são simplesmente porque: a) naquela época, eu preferia desenhar roupas de época, e b) Eu queria evitar ter que lidar com elementos como telefone, computador, etc, além do fato de eu ser péssima para desenhar várias coisas dos tempos modernos (carros, cidades, etc). Hoje, eu já desenho muito mais esse tipo de coisa, mas acho que mostra como nos meus primeiros trabalhos eu mantinha elementos que eram muito mais simples, tanto visuais quanto narrativos. Eu também queria brincar com essa sensação de conto de fadas que se passa em um período nebuloso, para que a história habitasse a mesma não-realidade que eu disse antes. Eu queria que as coisas não parecessem muito reais ou concretas. A exceção foi a última história, que se passa no começo da década de 1930, especificamente em Quebec — essa foi a última história que eu escrevi para o livro, então talvez tenha sido um sinal de que eu estava pronta para abordar cenários mais “modernos”.

De onde você tirou a ideia para cada uma das cinco histórias? Você passou por aquele momento em que parece que uma lâmpada acendeu dentro da sua cabeça?

Eu geralmente penso em um sentimento ou uma imagem e começo a construir a história a partir dali. Penso em uma inspiração inicial como uma coluna, e a partir dela crio todo o corpo da história. Mas a coluna precisa ser sustentada e reforçada. E é por isso que o estilo artístico tende a mudar a cada história, o que funcionou para um tema, pode não funcionar para outro.

Mas histórias se transformam e mudam. “As Mãos de Uma Moça São Frias” veio do mito do Barba Azul e emergiu praticamente intacta da minha imaginação, enquanto “O Ninho” passou por diversas mudanças antes de se tornar o que é. Inicialmente, a semente dessa história era sobre uma mulher que vivia em uma mansão e tinha uma doença misteriosa, e sua empregada descobrindo que era porque ela estava sendo comida de dentro para fora por vermes estranhos. “Seu Rosto Todo Vermelho” sempre foi uma história sobre se sentir uma fraude, sobre sentir culpa e vergonha. Apesar de ter começado com uma imagem mental de um buraco estranho na floresta. “A Casa do Vizinho” foi originalmente uma ideia de webcomic no estilo “escolha sua própria aventura”, onde o leitor “jogava” como o narrador, visitando a casa do seu estranho vizinho.

As histórias costumam mudar quando eu começo a desenhá-las e percebo como elas estão ficando — normalmente vejo os personagens e o cenário depois de desenhá-los e penso: “ah, você tinha que fazer Isso, não aquilo.” E ajusto conforme for. É um processo muito intuitivo que é (claramente) difícil de explicar!

Todas as histórias de Floresta dos Medos parecem ter sido criadas para serem lidas em voz alta à luz de uma lareira. Essa estranha sensação foi proposital ou ela surgiu naturalmente?

Foi definitivamente proposital. Como mencionei antes, meu pai contava muitas histórias de terror para o meu irmão e pra mim, e eu amo o ritmo quando uma história é contada em voz alta. Toda a escrita de Floresta dos Medos foi originalmente dita em voz alta para garantir que seguia esse mesmo tom e, idealmente, que seriam histórias que o leitor pudesse revisitar sempre, assim como uma história de cabeceira favorita. Eu até criei uma melodiazinha para acompanhar a música do fantasma em “As Mãos de Uma Moça São Frias”! No entanto, eu não sei cantar. Então essa melodia vai comigo para o túmulo.

Então… florestas. O que elas têm de especial?

A resposta sem graça é: sou péssima para desenhar perspectiva e era muito mais fácil pra mim desenhar várias árvores do que vários prédios. Eu também amo desenhar árvores. Então tudo sempre tem muitas muitas árvores.

Uma resposta mais interessante e, provavelmente, mais honesta é: quando se trata de floresta, e da maior parte do mundo natural, eu fico abismada com o quanto eu não sei ou não entendo sobre. Há uma natureza ancestral nas árvores e, mais ainda, silenciosa, que se combinam perfeitamente para criar uma atmosfera inquietante. Sem mencionar que se você está bem dentro da floresta, você não só está literalmente afastado de outras pessoas criando um senso de isolamento e, possivelmente, de impotência, como também de abrigo, de onde é confortável e seguro. Agora, leve em consideração que isso tudo vem de uma pessoa que cresceu na cidade, que não curte acampar, que não faz trilha, que morre de medo do escuro, que não sabe acender uma fogueira ou montar um abrigo em caso de necessidade. Então eu talvez tenha um ponto de vista parcial aqui. De qualquer forma, todas as histórias são pontos de vista parciais, então que seja.

Temas como solidão, culpa e vingança aparecem em todo o seu trabalho. Tem algo especial em relação a esses sentimentos (que, sejamos honestos, são muito pesados) que te atrai?

Senti-los constantemente durante toda a minha vida, provavelmente! E tenho certeza de que isso acontece com a maioria da população humana também. Quando se trata de terror, prefiro apelar para emoções humanas profundas como essas em vez de focar em um monstro, ou em um fantasma etc. Eu não gosto de terror que é facilmente resolvido ou percorrido, prefiro ler (e criar) o tipo que fica com você depois que o livro se fecha, ou que o filme termina. Além de me fornecer material inesgotável para histórias futuras. Sinceramente, percorrer esses sentimentos é um processo para a vida toda e criar história é uma ótima forma para eu lidar com eles.

Qual foi a parte mais desafiadora ao criar Floresta dos Medos?

Não tenho certeza… sinceramente, trabalhar nesse livro foi um sonho. Eu ainda não consigo acreditar que me deixaram criar algo tão divertido e indulgente! A arte leva bastante tempo, mas é mais um investimento de tempo, não um grande desafio.

Porém, eu tive que desenhar um carro algumas vezes. Isso foi difícil.  

Qual a sua história favorita em Floresta dos Medos? Por que?

Eu já falei bastante dela, mas “As Mãos de Uma Moça São Frias” é a minha favorita. Eu me diverti muito desenhando ela e acho que ela é a mais marcante visualmente. Eu amei desenhar a personagem principal como esse elemento quase ornamental. E eu realmente gostei de desenhar aqueles pequenos detalhes, como as flores e os padrões, sem falar que eu tive a chance de usar vários respingos de sangue. Eu amo fazer respingos de sangue e partes do corpo velhas e macabras, tanto quanto eu amo desenhar um vestido do século XVIII.

Além disso, é baseada no meu conto de fadas favorito. Acho que isso trouxe uma diversão extra para o trabalho.

Você gostaria de mandar alguma mensagem para os seus leitores brasileiros? Eles estão aguardando esse lançamento há muitos anos!

Só que eu espero que eles gostem e que um dia eu possa autografar uma edição pessoalmente! E isso pode soar cafona, mas quando se trata desse livro, eu espero que as pessoas se divirtam lendo ele tanto quanto eu me diverti fazendo, porque foi realmente um prazer. 🙂

No mais, estou sinceramente animada e empolgada para esse livro sair pela DarkSide! Vocês são perfeitos.

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