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Conto ExclusivoDarkside

Fogueiras de Junho

Três Rios arde mais uma vez

Por Cesar Bravo

Todo junho era a mesma coisa. Casais dançando quadrilha, senhoras servindo quentão, e um exército de crianças espalhando gripe e estourando suas bombinhas pelo chão. Como acontecia em todos os anos, era de se esperar que alguém ficasse incomodado com as músicas sanfonadas da festa, com o correio elegante extraviado para o parceiro errado, e até mesmo com o bêbado de plantão que acidentalmente derrubaria cerveja no peito de alguém naquele puta frio. Mas não foi assim naquele junho de 2022.

De certa forma, o mundo pós-quase-apocalipse precisava celebrar sua existência, precisava renascer. Três Rios, um pouco mais, depois de sobreviver a tantas mortes. Por toda a região, disseram que aquela cidade deixaria de existir, que perderia sua gente, chegaram a dizer que a Capital da Carne iria ser sugada por um buraco que se abriu e atraiu dezenas de crianças para as suas margens. O que essa gente maliciosa não sabia, entretanto, é que a morte dificilmente alcança o que nasceu do coração. Como a boa semente que era, Três Rios se expandiu pela vizinhança. Como boa árvore que se tornou, ainda gerava frutos.

Naquela noite fria era possível ver o brilho das fogueiras por toda a cidade.

Ninguém sabe de onde partiu a ideia, muito menos seu objetivo ou como foi organizada, mas o fato é que a cada dois quilômetros, uma nova fogueira nascia e ardia.

Em uma dessas festas populares — uma das maiores na cidade, locada em um terreno cedido pela prefeitura —, a pequena Nina rodava um pedaço de bombril flamejante preso a um arame. Ela e sua família haviam chegado a alguns meses da vizinha Terra Cota, e ainda tentavam se enturmar com o povo do Tridente. À frente da menina de cinco anos, seu irmão Emerson estava imerso em um grupo de amigos. Às costas da pequena, mamãe e papai começavam a falar mole graças a pouco mais de um litro de vinho quente vertido goela abaixo.

Nina rodava o bombril e observava a chuva de faíscas.

Gostava da cor do fogo, do brilho, gostava tanto que, como muitas outras crianças, sua vontade era viver dentro dele.

Do lado direito da menina, a uns cinquenta metros, Gioconda Seixas parecia absorver suas intenções. A idosa (porque dizer velha é uma coisa muito, muito feia) estava de olho nas crianças, comendo um churros e se esforçando terrivelmente para não derrubar o doce de leite do recheio no vestido que mandou fazer especialmente para a festa.

Gioconda era mãe de Kelly Milena, principal executiva do Grupo Piedade, conglomerado de negócios que vinha mandando e desmandando em Três Rios e região há décadas. Gioconda não se dava bem com a filha desde o rompimento de Kelly com aquele namorado maluco (um mocinho confuso que se deitou na linha do trem e perdeu uma perna). Sabe-se lá por qual motivo, a filha a culpava pelo término. Ela a aconselhou? Claro que sim. É o que as mães fazem, não é? 

— Impressionante como crianças gostam de fogo — alguém disse e interrompeu seus pensamentos.

Surpreendida, Gioconda babou um pouco do doce de leite pelo queixo. Limpou o excesso com um guardanapo, um segundo antes do doce escorrer por seu vestido novo.

— A menina não deve ter pai nem mãe… — ela disse em resposta. Também deu uma olhada mais atenta no homem que apareceu ao seu lado. Até que era bonito. Moço ainda. Tinha cabelos fartos e um pouco distantes de um corte. — A pirralha vai acabar se queimando com aquela porcaria. E quem é o senhor?

— Meu nome é Dimas.

— O moço é daqui mesmo? De Três Rios?

— De certa forma — ele riu e devolveu os olhos às crianças.

Nina agora estava correndo atrás do irmão com aquele brinquedo incandescente.

— É por isso que o mundo não vai longe. Olha só o tipo de gente que nasce — Gioconda fez questão de dizer.

— Crianças gostam de se arriscar, faz parte da natureza delas.

— Moço, eu não sei onde o senhor se criou, mas em Três Rios a gente aprende a temer o fogo logo cedo.

— Algum motivo especial?

Gioconda pensou um pouco. Aquela não era uma boa história, mas na sua idade, qualquer coisa que chamasse atenção de um mocinho valia o sacrifício.

— Acho que foi em 1972… a fábrica de tecido daqui pegou fogo, foram mais de duzentos mortos. Dizem que tudo começou com um desses rapazes de mal com a vida. Depois a polícia descobriu que ele participou dessas — ela se benzeu — missas satânicas. Parece que o homem já tinha perdido a mulher e o filho.

— Então ele estava louco…

— Eu tenho um sobrinho louco e ele nunca machucou ninguém. Loucura não é desculpa pra isso, moço, o que aconteceu foi falta de Deus no coração.

O rapaz riu e deixou os olhos nas crianças. Elas não estavam mais correndo, agora, improvisavam uma fogueira com um monte de lixo. Copos descartáveis, saquinhos de pipoca, um punhado de jornais. Gioconda não disse nada, mas sacudiu a cabeça, cheia de contrariedade.

— A senhora deve saber que o fogo também pode ser um sinal do céu.

— Aqueles moleques não são Deus, mocinho. Ou a voz dele.

— Espero que não — ele sorriu de novo. — Mas os anjos às vezes aparecem como seres de fogo, e o próprio céu já falou com a terra por meio de um arbusto em chamas. Até mesmo as fogueiras da festa junina… são fogueiras de São João, não são? 

— Mocinho… o senhor pode dizer a verdade, mas isso passa longe de estar certo. Criança que mexe com fogo acorda mijada, e é por isso que tenho todos os meus oitenta e oito anos. — Dito isso ela se distraiu de novo. Eram as crianças, elas haviam acendido a fogueira e agora apanhavam objetos maiores para atirar nas chamas. Ao lado do fogo, as crianças mais jovens pareciam catatônicas. Os rostos amarelados, as mãos estendidas para captar o máximo de calor possível. E havia mais. Bem mais…

— Misericórdia… O que elas têm no rosto? Os olhos, meus Deus! Os olhos!

Mocinho ria. Cautelosamente, mas ria.

— Eu vou pedir ajuda! — Gioconda acelerou o passo na direção da rua.

E logo foi tomada pelo coque de cabelo em um puxão feroz.

— A senhora vai ficar aqui e apreciar o espetáculo.

— Tira a mão de mim, seu monstro! Demônio! Socor…

— Shiiiiiii — o homem sibilou, como uma cobra. E a mandíbula de Gioconda imediatamente travou sobre os ossos.

— Não sou monstro ou demônio, sou apenas um emissário. A senhora deve conhecer a história das fogueiras de junho, mas eu vou refrescar sua memória. Um dia, Isabel, que era muito amiga de Maria, contou que teria um filho, um tal de João Batista. E disse que esse João seria muito amigo do filho de Maria, o bebê que ainda viria. Ouvindo isso, Maria disse que gostaria muito de saber quando o bebê de Isabel nasceria, mas a senhora deve imaginar que não existiam telefones naquela época de merda. Pois bem, a solução encontrada pelas duas foi Isabel acender uma fogueira, uma das boas, pra que Maria soubesse o dia que o bebê nasceu.

— Me solta! — a velha grunhiu. E o mocinho trocou seus cabelos por um aperto no cangote enrugado.

— Essa noite vamos transformar Três Rios em uma fogueira, vovó. E o brilho vai ser tão forte, tão vivo, que todos irão saber que estamos anunciando uma novidade. Elas, as crianças, ouviram em primeira mão, enquanto estavam sentadas na beira daquele buraco. Ninguém sabe o que tinha lá embaixo, mas elas ouviram, ah sim, ouviram direitinho.

— Que novidade é essa que precisa queimar uma cidade inteira!?

— Olhe bem pra elas — o rapaz a forçou a encarar as crianças. Estavam rindo e ateando fogo nas primeiras barraquinhas de lona. Muitos adultos gritavam, outros se incineravam, poucos reagiam; os incendiários eram muitos para que pudessem controlá-los. — Você enxerga sofrimento nessas criaturas?

Gioconda nada disse. No momento, ela reconhecia seu neto mais novo, filho de Kelly Milena. Ele havia apanhado um rojão e apontava a boca para o botijão do homem do algodão doce. Nesse momento Gioconda chorou. Quanto ao rapaz ao seu lado, certo que nada que aquela mulher fizesse mudaria o final da noite, ele a deixou em paz.

— Esse mundo não é mais seu, Gioconda, ou meu. Esse é o mundo que deixamos pra eles, uma semente amarga que ninguém deseja cultivar.

O moço já ia andando em direção à saída do loteamento onde acontecia a festa.

— Deixe-os queimar.

Sobre Cesar Bravo

Avatar photoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D. e 1618.

10 Comentários

  • Vinícius Vurdel

    24 de junho de 2022 às 16:19

    Cesar Bravo sempre foda!

  • Rita Ribeiro

    24 de junho de 2022 às 16:33

    César Bravo mais uma vez colocando fogo no parquinho. Literalmente. Sensacional!

  • strega

    24 de junho de 2022 às 17:30

    Brilhante!!!!

  • Warlen Guerra

    25 de junho de 2022 às 19:22

    Cidade do Tridente

  • Joyce Furtado

    26 de junho de 2022 às 13:31

    Deixa arder

  • Márcia Moretto

    26 de junho de 2022 às 15:55

    Como sempre impecável,!!!! Parabéns!!!!

  • Sandra Luisa

    27 de junho de 2022 às 01:08

    Intrigante, sensacional!!!
    Vc arrasa César Bravo!!!

  • Nara

    27 de junho de 2022 às 13:41

    Salve salve César Bravo… Impecável!!!

  • Vera Carvalho Assumpção Aberst

    27 de junho de 2022 às 20:51

    Intrigante e sensacional!

  • Jessica

    29 de junho de 2022 às 17:00

    Tri! Adorei!

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