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O UNIVERSO DARK DE FÃ PARA FÃ

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Geek Love: como uma família de aberrações inspirou a cultura pop

Livro de cabeceira de nomes como Kurt Cobain e Neil Gaiman inspirou a criação do Lollapalooza e diversos ícones culturais

Kurt Cobain e Courtney Love eram fãs. Chuck Palahniuk considera um de seus livros preferidos. Terry Gilliam – ex-Monty Python e diretor de Os Bandidos do Tempo, Brazil, Medo e Delírio – chama de “o livro mais romântico que já li sobre amor e família. Fiquei envergonhado de ser tão absolutamente normal“. Nos anos 90, Harry Anderson, mágico e ator (ele interpretou o juíz em Night Court) pediu os direitos de filmagem e escreveu ele mesmo um roteiro. Flea, baixista dos Red Hot Chilli Peppers adora o livro. “Alguns livros“, diz ele, “são tão criativos que te sugam para dentro de um mundo que você nem sabia que existia. Eles fazem você sentir que está por dentro desse segredo. É transformador.

[Aviso da Caveirinha: contém spoilers!]

O livro em questão é o Geek Love de Katherine Dunn, uma obra prima brilhante e estranha. É a história das atrações de um circo chamado O Fabuloso Circo Binewski, que passa por tempos difíceis. (O título “geek” se refere à atração de circo que arrancava a cabeça de galinhas com a boca.) Quando algumas atrações falham, seus proprietários – Aloysius e Crystal Lil Binewski – decidem gerar suas próprias aberrações de laboratório. Seus métodos são experimentais e mais que perturbadores: eles mexem com seu próprio DNA e bioquímica usando várias drogas, inseticidas e materiais radioativos. Funciona: Lil dá a luz a um menino com barbatanas em vez de mãos e pés, um par de gêmeas siamesas ligadas pela cintura, uma anã albina corcunda e um bebê aparentemente normal com poderes telecinéticos. Os Binewski se tornam aberrações super-heróis, um time de rebeldes esquisitões, cada um com suas próprias habilidades e poderes.

Não soa muito como um material para o grande mercado. Mas Geek Love tem sido um eterno best seller e sua influência cultural é prodigiosa. O livro emocionou e inspirou escritores e artistas a contarem suas próprias histórias loucas. A escritora Karen Russell leu Geek Love pela primeira vez quando tinha 15 anos. Ela pegou o livro esperando uma história de amor entre nerds, mas encontrou algo muito diferente: “Me senti eletrocutada quando li aquela primeira página com a Crystal Lil e sua cria de aberrações. Fiquei lá na livraria, boquiaberta. Nenhum livro que eu li, antes ou depois, me fez sentir do mesmo jeito”. Harlan Ellison descreve Geek Love como “transformador” e acrescenta: “não só para sua época e pelo seu tema, mas pelo ataque que Katherine Dunn faz ao material. Ela tem uma voz firme e uma visão clara”. E teve Jim Rose, que leu Geek Love quando ele era um americano de 30 anos viajando pela Europa como um dublê de circo com a família circense de sua esposa. O livro o inspirou a lançar sua própria atração, The Jim Rose Circus, com o qual fez turnê junto com o recém-criado festival Lollapalooza. “Geek Love força um filme a passar na sua cabeça enquanto você o lê“, diz Rose, “você nem percebe que está lendo”. O único outro livro que ele conseguiu lembrar que teve o mesmo efeito nele? Crime e Castigo do Dostoiévski. (Deve ser a cena na qual a mulher leva uma machadada na cabeça.)

Me senti eletrocutada quando li aquela primeira página […]. Fiquei lá na livraria, boquiaberta. — KAREN RUSSELL

Geek Love me nocauteou também. Li pela primeira vez aos 16 e não conseguia tirar ele da minha cabeça – não que eu quisesse – mesmo depois de ler vários outros livros. Foi durante aquela idade maravilhosa em que ler não é um escape, é a sua vida. Quando tudo além dos livros fica inundado pelas histórias nas quais você está mergulhado. Reconheci algo em Geek Love que sempre amei em quadrinhos, a ideia de que a estranheza de um personagem é fonte da sua força. Assim como os membros da Liga da Justiça, ou do Quarteto Fantástico, as aberrações do Fabuloso Circo Binewski são todos párias, cada um com uma habilidade singular.

Quando criança, eu queria ter algum poder especial – invisibilidade, principalmente. Eu queria ser como todo mundo, mas também, de alguma forma, secretamente especial e indomável. Em Dungeon Master, um RPG antigo para videogame que eu jogava no Atari na época do colégio, você começa o jogo escolhendo seus personagens e seus talentos especiais. Eu amava a ideia de escolher poderes mágicos, de construir uma persona única a partir de um menu de habilidades e capacidades. Os Binewski, essas grandes aberrações, e seus conflitos familiares insanos me ajudaram a me sentir melhor sobre meus próprios problemas familiares, minha própria falta de poder. O livro inverteu a dura verdade da adolescência que diz: o que te faz diferente é o que te condena.

Em seguida, teve a questão da linguagem em Geek Love, que era diferente de qualquer coisa que eu já tinha visto: confiante, perversa, ultrajante. A escritora Karen Russell (cujo livro indicado ao Pulitzer, Swamplandia!, deve obviamente a Geek Love, inclusive ela cita Dunn nos Agradecimentos) descreve a prosa de Dunn como um “meio pirotécnico tão distante do nosso discurso diário que é injusto e impreciso chamar essa linguagem em brasa de inglês“. Um exemplo do capítulo 8: “Um circo à luz do dia é uma besta malformada. A chuva faz dele um fantasma. A música chiada das atrações vazias e imóveis em uma tarde nublada e chuvosa no parque sempre fez meu peito doer. A dança colorida das luzes no ar molhado cintilava nas poças que se formavam na serragem com um glamour oleoso.” Ou essa reflexão do Arty, o garoto com barbatanas, no capítulo 9: “Temos essa vantagem, os normais esperam sabedoria de nós. Até uma palhaça anã com bunda de rato pode ter uma astúcia terrível disfarçada por sua patetice. Bizarros são como corujas, mitificados como seres de pura objetividade fria e cega.

Quando era adolescente, eu pensava que eu era a única pessoa que idolatrava Geek Love. Mas então comecei a conhecer outros que também partilhavam desse segredo. Anos depois, quando eu era editora no The Paris Review, escrevi para Dunn e nos tornamos correspondentes ocasionais. Não foi um daqueles encontros onde você finalmente conhece seu ídolo, só para ter sua admiração esmagada. Dunn foi tão brilhante e calorosamente hilária em pessoa quanto no papel. (Eventualmente, ela me deixava ler parte do manuscrito do seu próximo livro, The Cut Man, no qual ela esteve trabalhando desde Geek Love. Nós publicamos um trecho do livro com o conto, “Rhonda Discovers Art” no The Paris Review).

Ano passado, vi uma edição brochura de Geek Love na banca de jornal do aeroporto. Como, me perguntei, sentiriam-se os passageiros a respeito dessa estranha e insana obra-prima quando a abrissem em seus vôos para Waikiki ou Warsaw? Como um livro tão louco e macabro quanto Geek Love resiste décadas? E, sério, quem é essa escritora-maravilha, essa maga de mundos?

Katherine Dunn nasceu em 1945, em Garden City, Kansas. Seu pai a deixou antes de completar 2 anos e sua mãe casou-se com “um bom homem, um bom mecânico de uma família de pescadores comerciantes, que havia crescido trabalhando em traineiras, pescando em Puget Sound“, diz ela. Sua mãe, uma artista, era de um clã de agricultores da Dakota do Norte. “Ela pintava e esculpia, desenhava e construía móveis, brinquedos, roupas, etc. Ela estava feliz contanto que estivesse criando algo. Quando ela estava feliz, o mundo era um lugar lindo. Quando ela não estava criando coisas, ela não estava feliz e fazia questão de que ninguém próximo dela ficasse também“.

Assim como Oly – a anã albina e corcunda que serve como narradora de Geek Love -, Dunn era a segunda mais nova de cinco irmãos. Eles eram uma família de contadores de histórias, sua mãe e seu irmão, Spike, sendo especialmente bons em fazer a família rir. (“Eu era a pior de todas“, diz Dunn. “Eu sempre fugia do tema pensando em como minha história poderia funcionar melhor.“) Nos anos 50, a família se mudou muito atrás de trabalho. “Às vezes seguíamos as colheitas, fazendo trabalho migratório. Nós fizemos vários anos de arrendamento a oeste de Oregon, começando no início dos anos 50. Mais tarde, meu padrasto foi gerente de postos de gasolina numa cidadezinha perto de Portland“. Foi lá onde Dunn fez o Ensino Médio. Na Reed College, ela começou como estudante de filosofia. “Eu gostava, até que empaquei numa aula de Estética. Eu fiquei pensando, é, arte, beleza – minha comida, bebida e ar. Mas no primeiro dia eu não entendi uma palavra que foi dita em sala, então sai correndo dali e troquei minha graduação para psicologia“.

Ela começou a escrever seu primeiro livro, Attic, enquanto ela ainda estava em Reed. Durante uma viagem de Natal a São Francisco, Califórnia, em 1967, Dunn conheceu um cara no distrito de Haight-Ashbury e juntos eles partiram em viagem, fazendo paradas no México, em Boston (onde um de seus empregos foi no turno da noite da fábrica de doces Welch em Cambridge, no setor de embalagem do Sugar Daddy), e Terra Nova. Terminar a faculdade agora parecia fora de questão. O casal seguiu para Sevilha, na Espanha, onde ela terminou Attic. Quando ela terminou seu segundo livro, Truck, eles estavam morando na ilha grega de Karpathos e Dunn estava grávida. (Attic foi publicado em 1970 e Truck em 1971). Preocupados com a Guerra do Vietnam, eles decidiram ir para Dublin em vez de voltar para casa. “Eu queria que a criança tivesse opção, uma cláusula de escape, no caso de uma guerra futura para a qual ele pudesse ser recrutado nos EUA“, diz Dunn. “Além disso, a medicina irlandesa é boa, totalmente gratuita e os médicos falam inglês“. O casal pulou de um lugar pra outro até que o filho de Dunn completou 7 anos, quando eles voltaram para Portland para ficar. “Nós viemos para Portland porque tinha uma boa escola pública alternativa. Amigos que moravam lá me falavam sobre ela e meu filho amou. Eu deixei o pai dele e fui trabalhar servindo mesas numa lanchonete pela manhã e num bar em uma taverna de motoqueiros à noite“.

Dunn lembra-se do momento em que começou a escrever Geek Love. Foi no final dos anos 70. “Meu filho tinha uns 7 ou 8 anos. Eu gosto muito de andar. Gosto de fazer longas caminhadas e de ter companhia. Num dia de verão, disse para o meu filho, ‘Ah, vamos fazer uma caminhada. Eu vou até o Rose Garden.’ Ele não queria ir, queria ficar brincando com os amigos. Então eu saí para fazer minha caminhada e estava um pouco emburrada com ele. Eu cheguei no grande Rose Garden experimental no Washington Park em Portland, bem no alto da colina. Sentei nos degraus e olhei para todas essas centenas de variedades de rosas. Cada uma tinha sido cuidadosamente gerada por qualidades particulares: diferentes cores, formas, cheiros, uma cor por dentro da pétala outra por fora. E eu comecei a pensar sobre um assunto que me interessava havia muito tempo, a natureza versus criação, e sobre a manipulação da herança genética. Me ocorreu que eu poderia ter projetado um filho mais obediente.

Não há nada novo nisso. As pessoas tem tentado manipular genes há séculos, melhorar certos traços e atingir pureza racial, até mesmo em humanos. Claro que pensei nos nazistas e seus esforços para atingir a magnificência ariana. E achei que essa busca pela perfeição era um tanto quanto entediante. Seria muito mais interessante ir numa direção inteiramente oposta, procurar por algo diferente da simetria, da noção comum de perfeição. O que me fez começar a pensar sobre aberrações e mutações que não seriam consideradas desejáveis. Foi basicamente assim que começou. Fui pra casa me sentindo bem animada e escrevi uma parte do livro, que continua basicamente intacta.” (Al Binewski conta para sua cria uma história de inspiração parecida no Rose Garden quando perguntado por seus filhos: “Conte como você pensou em nós!”).
Dunn trabalhou no livro por mais de uma década. Ela também trabalhou como garçonete, bartender e pintora. Em 1981, ela começou a escrever sobre boxe para jornais locais. (Uma coletânea de seus ensaios, One Ring Circus, foi publicada em 2009). Dunn também escreveu uma coluna de conselhos para um jornal local e fez alguns trabalhos de dublagem para comerciais de rádio e TV. (Sua voz é um contralto a base de whisky e cigarros que ressoa de forma agradável). Ocasionalmente, ela contava aos amigos sobre seu trabalho em andamento, Geek Love. “Eles chiavam e diziam ‘pelo amor de Deus, Dunn, ninguém vai querer publicar isso, ninguém vai querer ler essa porcaria“. E eu concluí que, bem, isso deve ser verdade”.

Dunn chorou quando ela terminou o livro. “Foi triste e terrível. Eu fiquei de luto por um bom tempo. Eu amava aquelas pessoas e aquele mundo. Eu vivi lá com eles por muito tempo. Mas o final do livro destruiu qualquer possibilidade de retorno“.

O agente literário, Richard Pine, ouviu falar de Dunn através de outros escritores que ele representava no Noroeste Pacífico. Quando ele finalmente recebeu o manuscrito, ficou fascinado: “Eu achei que era uma das coisas mais brilhantes que já tinha lido, e também um dos livros mais difíceis de vender que eu já tinha pegado“. Mas depois de alguns meses de rejeição, Pine tinha um punhado de editores competindo pelos diretos.
Todo mundo que trabalhou em Geek Love tornou-se um titã do mercado literário. Seu editor, Sonny Mehta, se mudou recentemente de Londres para liderar a Knopf em Nova York. Pine enviou o manuscrito pra ele. “Eu era observado com grande curiosidade, suspeito, porque todo mundo ficou meio curioso quanto ao meu gosto“, diz Mehta, que eventualmente tornou-se não apenas o editor-chefe na Knopf Doubleday, mas também um dos editores mais poderosos do último quarto de século. (Ele publicou os trabalhos seminais de Kazuo Ishiguro, Douglas Adams, Toni Morrison e Bret Easton-Ellis, só para citar alguns). Numa sexta-feira, ele pediu a um jovem editor, Terry Adams, que lesse o manuscrito no final de semana. “Eu cheguei na segunda-feira de manhã e fui direto para a sala do Sonny“, disse Adams, hoje editor de livros e ebooks na Little, Brown. “Eu fiquei estupefato com o manuscrito. Eu disse ‘Você tem que comprar isso. Você tem que comprar isso!’” Geek Love foi a primeira aquisição de Mehta para a Knopf. “Pensei que era algo incrivelmente ambicioso, um livro muito desafiador“, diz Mehta. “Achei ele assustador, achei emocionante, algumas vezes muito engraçado, mas fui conquistado pela pura sensação de ‘bem-feito-pra-você’ da coisa toda. Achei que era brilhante“.

Geek Love foi publicado em 11 de Março de 1989. A gráfica rodou 20.000 cópias, que é uma impressão padrão para um livro de ficção literária de um autor que não publica há mais de 15 anos. A capa, ostentando uma fonte angular desenhada a mão, contra um fundo laranja neon, foi projetada por um designer junior relativamente desconhecido, Chip Kidd. “Fazer o design desta capa foi um avanço pessoal pra mim“, diz Kidd – hoje, seguramente o mais prolífico e conhecido capista de todos os tempos. “Foi a primeira sobrecapa que eu fiz que tinha uma linguagem visual original. Isso foi inteiramente inspirado pela linguagem original de Dunn e por sua narrativa brilhante. Eu desenhei os E’s mutantes para representar o desenvolvimento das várias aberrações na história“. (Os E’s não eram as únicas aberrações na sobrecapa. O logo da Knopf de um Wolfhound Russo está em circulação desde 1915. Em homenagem aos Binewski, Kidd deu ao cão uma quinta pata).

Eu era um designer pirralho e espertinho“, diz Kidd. “O que fez com que fosse engraçado foi que ninguém percebeu a pata extra até o livro chegar às prateleiras“.

Geek Love foi amplamente criticado, sendo que a maioria eram positivas. Ele foi finalista do National Book Award em 1989, concorrendo com Billy Bathgate de E.L.Doctorow, Mambo Kings Play Songs of Love de Oscar Hijuelos, The Joy Luck Club de Amy Tan, e Spartina de John Casey (Spartina venceu). Dunn ficou surpresa com a recepção do livro. Ela havia passado quase 10 anos trabalhando na história, distante do mundo editorial. “Todo o tempo em que trabalhei em Geek Love foi como meu próprio autismo particular“, diz ela. Dunn viajou de Portland para Nova York para o jantar de premiação e ficou com Sonny Mehta. “Odeio te dizer isso“, diz ela, “mas eu não sabia o que o National Book Awards era até receber a ligação“. (Terry Adams lembra de Dunn trazendo uma cópia do livro de cada um dos indicados para o jantar, para que eles autografassem).

Pine se lembra de como Geek Love se destacou dentre os livros de ficção literária populares da época. “Ficção era dominada por realismo. Saul Bellow, Philip Roth no meio de sua carreira, Bernard Malamud, John Updike. Você não via pessoas removendo digitais, pessoas com poderes mágicos e membros extras. Knopf foi o bastião dessa ficção realista, então para Geek Love ser o primeiro livro do Sonny lá – um que não é o que se considera apropriado ou comercial – foi algo significativo.

Geek Love pisou em alguns calos no começo dos anos 90, enquanto o grunge rock fluía do Noroeste Pacífico e filmes independentes como Cães de Aluguel (1992), O Balconista (1994), Kids (1995) e Bem Vindo à Casa de Bonecas (1995) floresciam. Da mesma forma que o punk e o grunge pareciam reais – não como o rock pasteurizado de estádios, filmes de estúdio com grandes orçamentos, TV falsa e roteirizada – Geek Love atingiu um novo tipo de autenticidade. Os Binewski pareciam reais, mesmo que suas vidas e sua história fossem fantásticas. Havia algo na ideia do freak show, um entretenimento que não tinha prosperado na cultura americana por gerações, mas que cabia perfeitamente no começo dos anos 90.

“Eu achei que era uma das coisas mais brilhantes que já tinha lido, e também um dos livros mais difíceis de vender que eu já tinha pegado.” — RICHARD PINE (Agente literário)

Jim Rose (do Jim Rose Circus) se lembra do seu primeiro show: “Esgotou. Kurt Cobain estava na platéia. Pearl Jam estava na platéia. Katherine Dunn preparou o terreno para toda essa vibe de freak show moderno. Freak shows costumavam ser exclusivamente esquemas que eram perpetrados durante circos e festivais itinerantes, e eles sempre te desapontavam, sempre te enganavam. Depois que Geek Love me inspirou a fazer um show que não tivesse um esquema como foco, mas a arte como o foco, ele decolou. De repente, eu tinha permissão para me apresentar em teatros. Eu não precisava ficar no meio da estrada. De repente, eu estava me apresentando para milhares de pessoas por noite. Katherine Dunn transformou aquele esqueminha trapaceiro antigo de beira de estrada em arte. E eu basicamente fiz uma versão ao vivo inspirada por esse livro”.

Vinte e cinco anos depois de sua publicação, a popularidade de Geek Love ainda está crescendo. Rendeu mais dinheiro em royalties para Dunn no ano passado do que nos anos anteriores. No todo, o livro vendeu mais de 400.000 cópias, 10.000 delas em ebooks. Pine diz que não passa duas semanas sem ouvir um pedido sobre os direitos de filmagem. Os direitos que Harry Anderson conseguiu eventualmente expiraram. (Anderson era porta-voz da Apple Computer na época. Ele apareceu um dia na porta da casa de Dunn em Portland e lhe deu um presente, seu primeiro Mac, e depois mostrou como usar). Henry Selick, diretor dos filmes de animação O Estranho Mundo de Jack, James e o Pêssego Gigante e Coraline, falou com Dunn sobre fazer uma versão animada de Geek Love. “Quando você faz filmes, você pensa que qualquer coisa é possível. Falei com Tim Burton sobre produzir esse livro como um filme de animação“, diz Selick, “mas fazendo justiça ao livro, hardcore“. Warner Brothers conseguiu os direitos para Burton, mas nunca desenvolveu o filme. Selick sente que ele decepcionou Dunn, mas ele tem certeza de que uma versão cinematográfica que seja fiel ao livro de Dunn teria sido impossível nos últimos 20 anos. Ele acredita que seja possível hoje, graças à tecnologia e a um conteúdo mais diverso nas telas. E, enquanto falamos, ele diz que nossa conversa está fazendo ele pensar de novo na possibilidade de transformar Geek Love em filme. “Continua sendo um dos meus livros favoritos de todos os tempos, com os personagens mais incríveis e potentes que já vi e uma visão invertida do que é normal, e do que não é, que é algo que me interessa.

No final dos anos 90, os executivos da Warner Brothers tiveram uma reunião com Lana e Andy Wachowski (Matrix, Cloud Atlas) sobre projetos futuros e, de alguma forma, Geek Love foi mencionado. As irmãs ficaram interessadas em desenvolver o projeto, então a Warner Brothers comprou os direitos de filmagem indefinidamente. Lana se lembra da primeira vez que leu o livro: Ela ficou acordada a noite inteira e aí acordou cedo pra continuar lendo, “parando só para fazer um café, que eu prontamente esqueci até sentir o cheiro de algo queimado“, disse ela. “É uma análise primorosamente executada e diabolicamente perspicaz do amor familiar.” Será que elas vão transformar Geek Love em filme em breve? “Nós temos esse sonho de adaptá-lo, e amaríamos trabalhar com Tim Burton. Nossa fantasia é escrever e produzir o roteiro e chamar ele para dirigir“.

Katherine Dunn não é como as pessoas comuns. Em 2009, ela estava carregando uma sacola de compras quando uma mulher tentou arrancar sua bolsa do seu ombro. A força fez a escritora de 64 anos girar e sua agressora, uma mulher de 25 anos com histórico policial, chutou sua canela e socou seu rosto. Dunn, que havia treinado por uma década no clube de boxe de Portland, socou a mulher e a segurou até a polícia chegar. Dunn ficou desapontada por não ter sangrado o nariz de sua agressora, mas ela não conseguia usar sua mão esquerda, por causa da bolsa. Quando perguntei a ela como tem sido ser reconhecida como a autora de Geek Love nesses 25 anos, Dunn disse: “De certa forma é como ser a mãe de alguém que é famoso por ser esquisito, mas de uma maneira bem-humorada. Vamos dizer, um Le Pétomane moderno, o flatulista francês. Toda vez que seu filho posta um tweet excêntrico ou dribla a segurança para roubar um microfone e demonstrar a fina arte da flatulência, alguém vai telefonar e perguntar como ele era quando criança, se você o negligenciou, abusou, ou mimou ele, e será que não é verdade que esse grande talento não é só intolerância à lactose?

Não havia como Dunn ter antecipado os 25 anos de atenção que Geek Love atraiu, nem a pressão para terminar seu próximo livro. (“Não sei descrever o quão pacientemente eu estou esperando pelo próximo“, diz Sonny Mehta, “Sou fã demais“) Geek Love levou mais de 10 anos para ser escrito e sua criação foi apaixonada e intensa. Escrever um clássico cult, assim como fazer um vídeo viral, não é algo que você se prepara para fazer. Ela jogou tudo de si no livro. “Quando você fica imersa num projeto como esse, você perde mesmo toda a perspectiva. Quando terminei o livro, eu estava ligada a essas pessoas. Eles eram a minha família. Eu não podia imaginar alguém não gostando deles ou sentindo-se ofendido por eles tanto quanto eu não podia voar.
Com isso, eu percebi que Dunn havia capturado exatamente como eu me sentia – e ainda me sinto – a respeito dos Binewski. Eles não eram apenas personagens que eu li sobre, eles eram as pessoas mais indeléveis que eu já conheci.

“Ah bom”, ela respondeu. “Mas você é uma esquisita, garota.”

(Traduzido da Revista Wired. Texto original: https://www.wired.com/2014/03/geek-love/)

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