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Leia o primeiro conto de O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas

Sucesso absoluto no mundo dos podcasts e da TV, O Mundo de Lore chega em livro à DarkSide Books

A DarkSide Books, que já contou inúmeras histórias aterrorizantes, tem uma para te contar. Uma não, várias – mas para despertar ainda mais a paixão pelas noites escuras e, claro, pelas histórias de vampiro, revelamos o primeiro conto de O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas.

Originado do premiado podcast Lore com mais de 180 milhões de reproduções pelo mundo, O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas revela o que há de mais sombrio e assustador entre nós.

Deixe sua estaca de madeira por perto e leia com exclusividade o primeiro conto do livro de Aaron Mahnke, com ilustrações de M. S. Corley.

O TÔNICO ETERNO

 

Hollywood é obcecada. É claro, sempre pensamos em obsessões como sexo, violência, robôs gigantescos e, obviamente, batalhas épicas entre o bem e o mal. Mas outra obsessão de Hollywood são os vampiros.

Você tem que admitir, porém, que há muita coisa para amar nos vampiros: imortalidade, riqueza, poder e habilidades sobre-humanas, como capacidade de voar e força descomunal. Sim, existem os pontos negativos, como queimaduras de Sol incrivelmente graves, mas todos os filmes que vi (e vi muitos, pode acreditar) mostram vampiros bem felizes com a vida que têm.

Conheci o mundo dos vampiros no fim da década de 1990, quando estava na faculdade. Um amigo recomendou o romance Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. Devorei essa história e muitas séries. São leituras divertidas, e elas certamente estabeleceram o tom para uma década ou mais de entretenimento centrado em vampiros.

Não vou falar sobre os vampiros da série Crepúsculo, principalmente porque não li os livros. Mas vou dizer uma coisa: esses livros, por mais que tenham sido ridicularizados pela crítica, mostraram que o amor da cultura popular por todas as coisas vampirescas é tão imortal como as próprias criaturas.

VAMPIROS NA HISTÓRIA

Muita gente pensa em vampiros e imagina alguma coisa que é puramente uma criatura europeia: sotaque estrangeiro, roupas da era vitoriana e mansões e castelos sombrios. É uma linguagem visual comum para a maioria do mundo ocidental, por isso não culpo o cinema e os livros por reproduzirem essa imagem. Mas essa é uma pequena faceta de uma lenda que tem centenas de expressões.

A figura histórica mais proeminente ligada à ideia moderna de vampirismo é, sem dúvida, Vlad III de Valáquia, também conhecido como Vlad, o Empalador. Vlad governou o pequeno reino da Valáquia, no Leste Europeu, de 1456 a 1462.

Ele ficou conhecido como Vlad, o Empalador, porque preferia executar seus inimigos empalando-os em estacas. Os otomanos passaram a chamá-lo de lorde Empalador após ter entrado em seu reino e encontrado “florestas” de vítimas empaladas. Vlad era um homem violento, entendam. Podemos dizer que tinha sede de sangue.

Ele, como o pai anteriormente, pertencia a uma coisa conhecida como a Ordem do Dragão, um grupo criado para proteger a Europa cristã do Império Otomano invasor. O pai de Vlad, Vlad II, era chamado de Vlad Dracul, ou “Vlad, o Dragão”. Quando Vlad III subiu ao poder, herdou o título e ficou conhecido como Vlad Draculea, “filho do dragão”.

Esse nome pode ser muito parecido com o da história de vampiro mais famosa no mundo, e isso porque Bram Stoker, ao criar sua famosa criatura da noite, usou Vlad III como inspiração. Bem, parcialmente, mas falaremos sobre isso mais tarde.

As raízes da maioria das histórias de vampiros, porém, podem remeter a superstições com base em culturas antigas no mundo todo. O Leste Europeu foi anfitrião de incontáveis histórias de mortos reanimados conhecidos como revenants. Eram cadáveres animados que saíam do túmulo para atormentar os vivos. A palavra “revenant” tem origem no latim e significa “voltar”.

Voltar para quê?, você pode se perguntar. Bom, fico feliz por ter perguntado. Em princípio, era só para aterrorizar os vivos, porém, com o passar dos séculos, a lenda se tornou mais específica. Dizia-se que os revenants saíam da sepultura para atormentar seus parentes e vizinhos vivos. O fundamental, porém, é que os revenants ainda eram pessoas, não zumbis anônimos como os de nosso moderno gênero de horror. Essas coisas tinham um passado e um propósito.

Na mitologia nórdica, encontramos histórias de criaturas conhecidas como draugr, “os que andam de novo”, que voltaram do túmulo e criavam o caos entre os vivos. Essas criaturas de força sobre-humana tinham cheiro de podre e uma aparência bem feia. Podiam entrar nos sonhos dos vivos, e deixavam um objeto palpável perto da pessoa adormecida de forma que, ao acordar, sua vítima soubesse que o sonho fora mais real do que temia.

Vamos voltar mais ainda, à Idade Média, porém. As lendas de algumas culturas antigas falavam de seres que, embora não fossem imediatamente semelhantes aos vampiros que conhecemos hoje, ainda dividiam com eles muitas características primordiais.

Primeiro, temos o mito grego de Empusa, filha de Hécate. Empusa atraía homens jovens à noite e se banqueteava de seu sangue antes de passar ao prato principal, sua carne. Outra história grega envolve Lâmia, amante de Zeus, amaldiçoada por sua esposa, Hera, e condenada a caçar crianças e devorá-las.

Histórias de criaturas mortas-vivas, ou que se alimentavam do sangue dos vivos, pareciam ser quase tão comuns quanto a própria linguagem escrita. Em Madagascar, um país insular na costa leste da África, há lendas sobre um ser, conhecido como ramanga, que ataca nobres, bebe seu sangue e come pedaços de suas unhas.

Sim, pedaços de unhas. Aceita que dói menos.

VAMPIROS NA CIÊNCIA MÉDICA

Os vampiros são reais? Vou deixar o leitor tomar a decisão final, porém, o que é claro é que a maioria dessas histórias tem sua gênese na necessidade humana de explicar o inexplicável. Por exemplo, os antigos europeus usavam o mito como um jeito de justificar por que um cadáver não se decompunha na velocidade normal e esperada. Você pode ver evidências disso na Bulgária, onde túmulos de mais de oitocentos anos, após abertos, revelaram estacas de ferro no peito dos esqueletos.

E em uma época em que não era incomum enterrar alguém que se acreditava estar morto, só para depois descobrir que não estava, dá para imaginar que histórias sobre mortos que voltavam à vida circulavam rapidamente. Em consequência disso, a tafofobia, o medo de ser enterrado vivo, varreu a Europa e os Estados Unidos. É claro, quando a ciência médica evoluiu, as pessoas se tornaram mais práticas e instalaram sistemas de alarme nos túmulos, caso o “morto” acordasse e quisesse sair.

Entendo que ser enterrado vivo pareça ser uma ocorrência rara, mas acontecia com frequência suficiente para ter gente paranoica com isso e em busca de uma solução. Uma dessas pessoas era um médico chamado Adolf Gutsmuth. Em 1822, levado pelo medo de ser sepultado vivo, ele inventou um “caixão seguro” para o próprio enterro. E o testou pessoalmente.

Testou? É, pode apostar. O dr. Gutsmuth se deixou enterrar em seu novo “caixão seguro” por várias horas, durante as quais foi alimentado por um tubo. Ele saboreou uma maravilhosa refeição de sopa, linguiças e cerveja local.

Não é uma ótima opção para um programa noturno?

O dr. Timothy Smith, de New Haven, Vermont, era outro inventor paranoico. Ele criou um túmulo que pode ser visitado até hoje, se você passar pelo cemitério Evergreen. Trata-se de uma cripta enterrada à moda habitual, mas com um tubo de cimento posicionado sobre o rosto do cadáver. Um painel de vidro foi instalado no alto do tubo, no nível do chão.

Dr. Smith morreu de verdade, morte natural, e foi enterrado nesse “caixão com vista”. Ele nunca acordou, mas os primeiros visitantes desse túmulo relataram ter tido uma visão clara da cabeça em decomposição, até a condensação embaçar o vidro.

Nota: Vampiros não me amedrontam mais. Acordar dentro de uma caixa enterrada a dois metros da superfície da terra é o que eu chamo de pavor.

Outra culpada pelo uso que a humanidade faz do rótulo vampiresco foi a porfiria, uma rara doença do sangue. No entanto, a ciência moderna praticamente encerrou esse caso, afirmando que relacionar os dois assuntos é ir longe demais. De todas as doenças, a raiva também foi usada como explicação para o crescimento da mitologia do vampiro. Surpreendentemente, há muitos pontos em comum entre as vítimas de raiva e os vampiros, como sensibilidade à luz e ao alho, além de padrões de sono alterados.

A enfermidade mais recente com forte conexão com a mitologia do vampiro foi a tuberculose. Os portadores de tuberculose não tinham sintomas semelhantes aos dos vampiros, porém, e isso torna essa condição mais difícil de explicar. Por acaso, também é aí que minhas lendas favoritas da Nova Inglaterra entram em cena.

Senhoras e senhores, apresento-lhes Mercy Brown.

Lena Mercy Brown era uma jovem que viveu na segunda metade do século XIX na cidade rural de Exeter, Rhode Island, e foi uma peça muito importante no que é hoje conhecido como o Grande Pânico de Vampiro da Nova Inglaterra.

Histórias como a dela podem ser encontradas em toda parte em Rhode Island, Massachusetts, New Hampshire e Vermont, repetidas na vida de outras pessoas em situações semelhantes. E os resultados têm conexões surpreendentes, tanto com a ideia moderna quanto com as histórias antigas de vampiros, como vamos ver.

A mãe de Mercy, Mary Eliza, morreu em dezembro de 1882, vítima do que era então conhecido como “consumição”, assim chamada porque a tuberculose devastava o corpo — a pessoa parecia definhar, ser consumida pela doença. Ela, é claro, foi enterrada, porque é isso que se faz com alguém que morre.

No ano seguinte, porém, a irmã de Mercy, Mary Olive, também morreu, aos 20 anos. Mesma doença, mesmos sintomas. Não sei ao certo quando o povo de Exeter, Rhode Island, começou a especular se as mortes tinham alguma relação, mas pode ter sido nessa época, ou alguns anos depois, quando foi a vez de o irmão de Mercy, Edwin, adoecer.

Mas Edwin era esperto. Ele fez as malas e se mudou para o outro lado do país, para Colorado Springs, que tinha fama de ter propriedades curativas por seu clima seco. Ao retornar, alguns anos depois, ele estava vivo, mas não muito bem. E, em dezembro de 1891, seu estado de saúde piorou.

Também foi nesse mês que Mercy adoeceu. Para ela, porém, a tuberculose foi rápida. Eles a chamaram de “galopante”, e consumiu seu corpo rapidamente. Em janeiro de 1892, ela morreu, e o povo de Exeter ficou ainda mais preocupado. As pessoas suspeitavam de alguma coisa sobrenatural.

Isso era surpreendente, considerando como Exeter ficava perto de Newport. Essa é a cidade litorânea conhecida pelos “chalés de verão” das pessoas ricas, como os Vanderbilt, os Astor, os Widener e os Wetmore. Era o auge da sociedade educada. Porém, a poucos quilômetros dali, uma cidadezinha que deveria ter mais juízo estava prestes a fazer uma coisa muito, muito sinistra.

Edwin ainda estava vivo. E alguém enfiou na cabeça daquela gente que uma das mulheres já falecidas, a mãe ou uma das irmãs dele, estava sugando sua vida do além-túmulo. Ficaram todos tão convencidos disso que começaram a desenterrar os cadáveres das mulheres.

Sim. De todas elas.

Assim que receberam a permissão do pai para fazer essa coisa horrível, um grupo de homens se reuniu no cemitério, na manhã de 17 de março, e desenterrou os corpos.

Eles procuravam uma evidência de algum estado que não fosse natural. Sangue no coração, sangue em torno da boca ou outros sinais semelhantes. O primeiro corpo, o de Mary Eliza, a mãe, estava satisfatoriamente decomposto, porém, e eles a eliminaram da lista. É claro que sim, você pode dizer. Ela estava morta e enterrada havia uma década.

O corpo de Mary Olive também estava em estado normal de decomposição. Repito, estar morta há dez anos normalmente convence as pessoas de que se está morta de fato. Mas, quando examinaram o cadáver de Mercy, que não tinha sido enterrado porque ela morreu no meio do inverno, e por isso fora guardado em uma construção de pedra — que era, em essência, um freezer gigantesco — encontraram um impressionante estado de conservação.

Chocante, eu sei.

E o que eles fizeram? Bem, essas pessoas supersticiosas fizeram o que tinham aprendido com seus ancestrais: arrancaram o coração e o fígado de Mercy (dentro dos quais encontraram sangue vermelho e coagulado), queimaram-nos sobre uma pedra próxima (que ainda está lá, aliás, perto da lápide dessa mulher no cemitério), e depois misturaram as cinzas a um tônico.

E esse tônico foi dado a Edwin.

E, sim, Edwin Brown bebeu o fígado e o coração da irmã.

Funcionou? Não. Edwin morreu menos de dois meses depois. Mas isso serviu para fazer de Mercy Brown a “primeira vampira norte-americana”. Suponho que não seja importante mencionar que ela não era realmente um vampiro, porque você é uma pessoa inteligente, mas não custa lembrar.

Por mais incomum que isso possa parecer, você talvez se surpreenda ao saber que eventos como esse aconteciam com frequência. Em 1817, quase um século antes da exumação de Mercy Brown, um aluno da Dartmouth College chamado Frederick Ranson morreu de tuberculose. Seu pai, muito preocupado com a ideia de o jovem sair do túmulo e atacar a família, mandou desenterrá-lo. O coração de Ranson foi extraído e queimado na forja de um ferreiro.

Até Henry David Thoreau ouviu histórias sobre esse tipo de ocorrências, e mencionou uma delas em seu diário pessoal. Ele escreveu em 26 de setembro de 1859:

O selvagem no homem nunca é totalmente erradicado. Acabei de ler sobre uma família em Vermont que, tendo perdido vários de seus membros para a consumição, queimou os pulmões, o coração e o fígado do último a morrer para impedir que outros tenham a doença.

Assim, é claro, a notícia do que havia acontecido com Mercy Brown se espalhou, como costumava acontecer quando um corpo era desenterrado e cortado em pedaços dessa maneira. A história de Mercy foi publicada em um jornal chamado New York World e causou forte impressão nas pessoas que a leram.

Como sabemos? Porque um recorte desse artigo foi encontrado nos papéis pessoais de um diretor de teatro de Londres depois de sua morte. Essa companhia de teatro fazia uma turnê pela Europa em 1892. Evidentemente, ele achou a história inspiradora, tanto que, alguns anos mais tarde, sentou-se e escreveu um livro.

O homem? Bram Stoker. O livro? Ah, você já deve ter deduzido. Era Drácula, publicado em 1897.

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