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Marco de Castro: “O horror da realidade sempre suplanta o horror imaginário.”

DarkBlog entrevista Marco de Castro

Marco de Castro tem uma longa experiência cobrindo crimes para jornais e portais na maior cidade do país; ele conhece a noite cruel de uma metrópole como poucos. Seu livro Morto Não Fala E Outros Segredos de Necrotério é um mergulho abissal nas histórias mais perturbadoras da capital paulista, captando as cenas mais atrozes, violentas e imorais. Confira a conversa que o DarkBlog fez com o autor.

DarkBlog: Marco de Castro é um nome que chegou impondo respeito na cena de horror atual. Seus contos apresentam uma brutalidade única, além de um teor de verdade que chega a ser mais assustador que a própria ficção. Quando surgiu o escritor Marco de Castro e quando ele se encantou pelo horror?

Marco de Castro: O escritor Marco de Castro surgiu por volta de 2004, na redação do jornal Agora São Paulo. Eu trabalhava lá como repórter desde o ano de 2000, cobrindo principalmente o noticiário policial. Ou seja, fazia parte da minha rotina ir a cenas de crime e ver cadáveres de vítimas de homicídio, além de escrever as histórias horríveis por trás daquelas mortes. Na época, acontecia muita chacina na capital e na Grande São Paulo. Eu ia aos locais, conversava com testemunhas, policiais, parentes dos mortos… Eu, que era fã de filmes e literatura de terror desde a pré-adolescência e adorava filmes como “Massacre da Serra Elétrica”, me deparei então com cenários de horror reais, ao vivo. Sangue de verdade, gente morta de verdade, com tiros, facadas, pauladas… Tudo de verdade. E, logicamente, tudo muito mais chocante do que o horror que eu estava acostumado a ver na ficção. Também era a época pré-redes sociais, e a moda, no momento, era todo o mundo ter blog. Aí comecei a dar uma lida nos blogs de algumas pessoas que eu conhecia. Vi que tinha muita gente falando sobre sua própria vida, fazendo desabafos sobre questões pessoais, narrando situações engraçadas, fazendo declaração de amor etc. Pensei “muita besteirinha… Vou fazer um blog contando as desgraças que eu vejo por aí”. Daí nasceu o blog Desgraceira, em que eu narrava as situações por que passava no meu dia a dia de repórter policial. O Desgraceira começou a ser lido por muita gente, pessoas de outros estados, que eu não conhecia. Alguns leitores se tornaram fiéis. Isso me incentivou a tentar a sorte em ficção, e criei o Casa do Horror, onde foi publicada a maioria dos contos que agora entram no livro “Morto Não Fala e Outros Segredos de Necrotério“. E digo que o escritor surgiu na redação do Agora porque foi o que aconteceu literalmente. Eu escrevi as primeiras crônicas e os primeiros contos (“Morto Não Fala”, inclusive) no computador da redação em dias que estavam mais tranquilos de trampo. 

Créditos: Luciana Lazarini

DB: Por muito tempo você foi à campo, visitou cena de crimes e presenciou o que existia de mais assustador na noite paulistana. Existiu algum caso que especificamente tenha inspirado uma ou mais de suas histórias?

MC: Não teve nenhum caso específico que eu cobri que tenha inspirado um conto. Mas tinha todo aquele universo sombrio com o qual eu estava tendo contato. Os personagens, policiais, criminosos, familiares de vítimas e de bandidos… Os distritos policiais, matagais onde os corpos eram encontrados. Quando crio um conto, todo esse universo vem à tona em minha mente. Pego uma coisinha de um caso, outra de outro caso e por aí vai. Se eu tivesse que citar uma reportagem que me inspirou a escrever uma história, não seria uma que eu fiz. Foi uma reportagem sobre grupos de extermínio da PM que atuavam em Guarulhos, escrita pelo mestre do jornalismo policial Josmar Jozino. No texto ele descrevia o momento em que um grupo de policiais apelidados de “ninjas”, porque agiam com toucas tipo balaclava, chegou a um bar e mandou que todos saíssem, menos uns ladrões pé-de-chinelo, que eles executaram. Foi a inspiração para eu escrever “Um Bom Policial”.   

DB: Seu nome brilhou ao lado de Dennison Ramalho em duas adaptações, uma delas “Morto não Fala”, que redefiniu o gênero horror no audiovisual no país, e “Ninjas”, um curta-metragem extremamente pesado. Podemos esperar novas parcerias nesse sentido? No momento você está trabalhando em alguma adaptação?

MC: Siiiim! No momento está sendo produzida uma adaptação do conto “Aniversário”, que também está sendo publicado no “Morto Não Fala e Outros Segredos de Necrotério“. Será um curta-metragem dirigido pelo cineasta Dácio Pinheiro (“Meu Amigo Cláudia”, “Eletrônica: Mentes”, “Memória Morta”…). Assino o roteiro junto com o meu amigo Fábio Embu.

LEIA TAMBÉM: MORTO NÃO FALA E OUTROS SEGREDOS DE NECROTÉRIO, DE MARCO DE CASTRO

DB: Seu livro é um banquete sangrento para os fãs do horror. Quais são suas principais influências na escrita? Quais autores e diretores de cinema direcionaram a fúria criativa de Marco de Castro? 

MC: No caso da literatura de horror, não tem como fugir da influência dos mestres Stephen King e Clive Barker. Gosto, particularmente, do modo como eles criam e desenvolvem o enredo de suas histórias. Quanto ao estilo do texto, gosto da crueza e da violência de escritores de ficção policial como Rubem Fonseca e James Ellroy, além dos autores noir Dashiell Hammet e Raymond Chandler. Gosto de texto claro, acessível, direto e sem firula rs. Já os diretores de cinema que mais me influenciam são o John Carpenter e o George Romero, sem dúvida.

DB: Castro, em seus textos o horror está em todas as partes, nos DPs, nas periferias, nos necrotérios e salas de anatomia. O que lhe parece mais nocivo? Os monstros ou o ser humano?

MC: O único monstro real é o próprio ser humano, né? Que é capaz de realizar as piores atrocidades movido por coisas como cobiça, inveja, crença, ódio… Não há limite para a maldade dos homens. Nos meus contos, gosto muito de usar elementos sobrenaturais ou fantásticos, mas, via de regra, o horror da realidade sempre suplanta o horror imaginário.   

DB: Qual a principal função do horror em sua opinião? O gênero pode funcionar como uma voz de denúncia? Ou deve ser somente uma ferramenta de entretenimento?

MC: Toda forma de arte, a meu ver, pode e deve funcionar como um canal de denúncia. Seja terror, comédia ou drama. Principalmente neste momento em que a gente vive, com a extrema-direita crescendo e ganhando apoio aqui e em outras partes do mundo. A alienação das pessoas tem uma grande culpa nesse cenário. Temos que saber, temos que ler, temos que entender a complexidade do que está acontecendo. Eu, pessoalmente, acredito ter a missão de “esfregar” o lado podre da realidade na cara das pessoas. Quero causar indignação, inconformismo e revolta. Na música é a mesma coisa. Nos discos das minhas bandas punk, Coice e Aparelho, você nunca encontrará uma canção de amor ou uma letra divertidinha com piadinha de sacanagem. Só componho e escrevo inspirado pela minha revolta.     

DB: Você sente saudade da noite paulistana? Quais eram os pontos positivos na vida de um jornalista visitando os maiores crimes da capital paulista em primeira mão? 

MC: Sim, sinto saudade da adrenalina, de chegar em um local onde acabou de ocorrer um crime e de falar as pessoas no entorno para entender o que aconteceu, procurar saber quem era a vítima e se alguém teria algum motivo para querer matá-la. Fora isso, a vivência daquelas situações contribuiu muito para eu ser quem sou hoje. Influenciou minha forma de ver e compreender o mundo. Se não fosse isso, eu nunca teria me tornado escritor. Atualmente, as redações de jornal impresso não mantêm equipes de reportagem de plantão na madrugada, para sair correndo atrás de casos factuais no meio da noite. No máximo, têm um plantonista que tenta apurar tudo por telefone. Os repórteres mal têm saído da redação durante o dia. É uma pena.     

Créditos: Luciana Lazarini

DB: Seu livro toca feridas profundas. Violência policial, racismo, injustiças, violência doméstica. Se você tivesse um único pecado humano para aniquilar para sempre, qual seria? O que em nossa sociedade tira você do sério e o impele a criar essas histórias perturbadoras e igualmente maravilhosas para os fãs de horror? 

MC: Putz, difícil, hein. Tem tanta coisa ruim que precisava ser eliminada! Mas acho que um ótimo começo seria combater a concentração de renda. Sem desigualdade social, haveria melhor qualidade de vida para todos, acesso a saúde, educação, lazer… Só isso, acredito, já causaria uma diminuição drástica na violência e na criminalidade. Me tira do sério saber que figurões do governo mantêm fortunas em offshores, lucrando com a alta do dólar, enquanto pessoas estão se alimentando com as sobras de ossos de açougue.   

DB: Como foi a acolhida dos Darksiders durante o lançamento nas redes sociais? Algum recado para seus novos leitores?

MC: Um monte de gente que não conheço tá me adicionando nas redes sociais! Tô achando da hora rs. Para meus novos leitores, principalmente os mais jovens, apenas um conselho: procurem se informar sobre tudo, não fechem os olhos à realidade. Quanto mais horrível é essa realidade, mais atenção devemos dar a ela. Para sabermos e que está errado e, então, tentar consertar. Assim, quem sabe, há chance de algo mudar para melhor.  

DB: Algum conselho para os autores que sonham com uma boa editora? Quem foram as pessoas importantes na sua trajetória até a DarkSide?

MC: O conselho é “corra atrás”. Se você acha que o que escreve é bom e pode ser publicado, tem que mostrar seus textos às pessoas. Criar um blog e jogar tudo na internet pode ser um começo, mas vá além. Faça com que o seu material chegue às mãos certas. No meu caso, foram as mãos do cineasta Dennison Ramalho. Na época, eu havia lido sobre o curta-metragem brutal “Amor Só de Mãe”, que ele dirigiu e lançou em 2003. Em um fórum de internet sobre horror, também vi uma entrevista do Dennison em que ele dizia sentir falta de material original de horror para adaptar no Brasil. Fui então atrás do contato do Dennison, descobri seu e-mail e mandei para ele o link do Casa do Horror. Foi o que deu início à parceria que gerou o curta “Ninjas” e o longa “Morto Não Fala”. Quando o “Morto” foi lançado pela Globo Filmes, entrando em salas do circuito comercial e fazendo o barulho que fez no cinema de horror nacional, percebi que havia chegado a hora de procurar uma editora e publicar meus contos. Pedi então o conselho de uma amiga minha que trabalha na área, e ela me passou um contato da Caveira. E foi isso. Bastou um e-mail, e as conversas com a DarkSide tiveram início. E taí o meu livro, lindão, com uma capa e uma edição incríveis, chegando ao mercado. 

*Todas as fotos usadas na entrevista (incluindo o banner) foram feitas por Luciana Lazarini.

LEIA TAMBÉM: MARCO CASTRO: COSTURANDO PALAVRAS DO ALÉM

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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