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Medo Clássico

Mary Shelley, criadora de Frankenstein, eternizou o nosso medo do desconhecido

Após mais de 200 anos da publicação do clássico Frankenstein, a autora ainda consegue nos fazer refletir acerca do Outro

A casa da Caveira sempre esteve de portas abertas para todos os amantes de boas e assustadoras histórias e, pensando nisso, convidamos a Lady Sybylla para um chá que resultou em um belíssimo texto sobre uma das escritoras mais importantes da literatura: Mary Shelley, criadora do Monstro de Frankenstein.

Sybylla inaugura o espaço no qual alguns convidados da DarkSide poderão falar sobre tudo que nos encanta, aflige e, claro, causa arrepios. Sejam todos bem-vindos.

 

Viktor Frankenstein é um genovês bem de vida, da elite, apaixonado pela ciência e pelo conhecimento. Ao iniciar seus estudos, ávido pelos segredos da vida e da morte, ele consegue manipular carne, tecidos e tendões retirados de cadáveres e cria um novo ser, uma inteligência artificial. A obra de Mary Shelley não deixa bem claro como ele faz isso, pois é mencionado apenas o galvanismo na versão revisada de 1831, e é daí que entendemos que foi através da eletricidade, uma tecnologia que, para a época, guardava certo misticismo e aspectos sobrenaturais, com estudos feitos pelo cientista Enrico Galvani, pioneiro na descoberta da bioeletricidade, tendo feito experimentos com partes de animais e notando que pernas e braços ainda se moviam se uma corrente elétrica fosse passada por eles.

Completamente aterrorizado com a bestialidade de sua criação e incapaz de assumir a responsabilidade pelo o que fez, Viktor a abandona. A criatura não é um monstro que balbucia palavras desconexas como vimos em muitos filmes, com sua aparência imortalizada por Boris Karloff; ele na verdade é educado, tendo se virado sozinho para sobreviver, querendo receber a compreensão da sociedade. Porém, a criatura vai ficando cada vez mais ressentida de seu criador, que lhe repudia, e da sociedade, partindo, então, para a vingança.

Mary Shelley era uma garota para os nossos padrões, com apenas 18 anos quando foi desafiada por Lord Byron a escrever um conto de terror. Os convidados daquela noite tenebrosa tinham que esboçar algo arrepiante, capaz de gelar o sangue de seus leitores. E, após uma noite sem dormir, atormentada por pesadelos, Mary esboçou sua história, algo que despertasse arrepiante horror e “pudesse falar aos misteriosos medos de nossa natureza.”

Mary nos deixou em 1 de fevereiro de 1851. Filha do filósofo William Godwin e da feminista e escritora Mary Wollstonecraft, Mary recebeu pouca educação formal, mas seu pai a tutelou em vários assuntos, levando-a em viagens, deixando-a usar sua biblioteca à vontade, além de  permitir sua presença em reuniões com outros intelectuais — algo raro para a época.

A criatura, ou “monstro”, como Viktor se refere a ele diversas vezes ao longo do romance, representa o Outro. Aquele distante de nós, o fora do padrão, o diferente, o bizarro. Este é um componente que permeia a ficção científica desde suas origens com a própria Mary Shelley, ela mesma uma estranha num mundo masculino que privava as mulheres de ensino formal e carreira. A raça humana tem pavor do desconhecido, tem pavor daquilo que não compreende. E ainda lutamos para compreender a vida, a morte e tudo o que permeia nossa breve existência.

Ao desafiar o leitor com uma inteligência artificial, Mary quebra as barreiras entre o sagrado e o profano, colocando o Outro como um protagonista, nos mostrando seu lado bom e seu lado ruim, pois é assim que todos nós somos, mosaicos de confusos sentimentos e vivências. E mesmo entre humanos, tendemos a separar as pessoas por cor, renda, gênero, orientação sexual, ideias, idiomas, linhas em mapas. E a criatura, é repudiada pelo o que? Simplesmente por existir. Como também o fazemos.

A criatura representa um conflito adolescente que nós todos passamos em algum momento, possivelmente um sentimento próprio de Mary: por que eu estou aqui? Por que eu existo? Fomos jogados em um mundo de dor e sofrimento para quê? São as dores existenciais mais profundas que nos assombram que também permearam o trabalho de Mary Shelley e tornaram seu livro Frankenstein, publicado no Brasil em uma edição primorosa da DarkSide Books, um fenômeno, primeiro com adaptações para o teatro e depois explodindo nos cinemas.

Além das dores da existência e dos desafios impostos à morte e sua superação, o livro trouxe a discussão da bioética mesmo quando essa palavra nem existia. Alguns podem interpretar que seu romance fala dos perigos da ciência, de que cientistas são seres loucos e que querem destruir o mundo e a humanidade — uma desconfiança atual que faz muita gente recorrer à pseudociência e às mentiras de gurus na internet — quando, na verdade, Mary nos mostra que mesmo que as intenções da ciência sejam boas, na mão de qualquer pessoa com más intenções, suas consequências podem ser desastrosas. Muitos danos foram feitos ao longo da história por pessoas inescrupulosas que se travestiam de cientistas.

Frankenstein nos fala diretamente sobre a responsabilidade moral dos indivíduos. Seja com a ciência, seja com outras pessoas, seja com o que é radicalmente diferente de nós mesmos. O que Mary quer nos mostrar é que mesmo incríveis invenções voltadas para o bem, podem se tornar maléficas nas mãos de gente arrogante, incitada pela vaidade do saber. Eis o nosso Viktor, que além de negar a responsabilidade por seus atos, abomina o que fez ao invés de tomar uma atitude e resolver o problema. Ciência é feita para resolver problemas. Ele nada fez. A ineficiência de Viktor é também a nossa.

Uma vez o biólogo Stephen Jay Gould disse que os objetivos científicos de Viktor Frankenstein não estavam errados. A falha de Viktor foi humana, não foi científica. Ele falhou como pessoa, como um ser humano, que abandonou sua criação por egoísmo e imaturidade, rejeitando a criatura até que ela se revolta e se volta contra ele.

Além de moralidade e ciência, chegamos às inteligências artificiais. A criatura é uma IA por excelência, orgânica, costurada, construída, mas ainda inerentemente artificial. Em Blade Runner, Roy Batty diz a Tyrell: “quero mais vida, pai”. Ele pede que seu criador estenda sua vida útil para além de 4 anos, ecoando a dor da criatura até os dias de hoje. AI – Inteligência Artificial, Edward Mãos de Tesoura, Pinóquio, O Homem Bicentenário. Veja até onde o eco da obra de Mary Shelley vai com Siri, Alexa e Cortana marcando compromissos e simulando vida em um urschleim em silício.

São tantas as discussões e ecos da obra, considerada um marco na literatura gótica e na ficção científica, que fica difícil sintetizar em um texto. Não é à toa que Frankenstein ainda se mantém como o clássico dos clássicos mais de 200 anos depois e Mary Shelley, sua criadora, permaneça no imaginário popular como uma precursora da ficção científica e do terror modernos. Em seu aniversário de morte que possamos admirar a genialidade de sua criação, algo que Viktor foi incapaz de fazer.

Lady Sybylla – Momentum Saga
Lady Sybylla é geógrafa, professora, escritora e mestra em Paleontologia. É fã do futuro, da ficção científica e comanda o blog Momentum Saga.

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