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O curioso caso das Criadoras de Anjos de Nagyrév

A cidade húngara de Nagyrév foi tomada por uma onda silenciosa de envenenamentos e viu mais de 40 mortes inexplicáveis

A vida em Nagyrév, vilarejo na região central da Hungria, não era nada fácil nas primeiras décadas do século passado. A pequena aldeia era carregada de um sentimento opressor de impossibilidade de mudança de vida, de fuga da realidade e daqueles costumes. Os moradores de Nagyrév estavam fadados a crescer e morrer em Nagyrév — alguns, no entanto, começaram a morrer rápido demais.

Talvez o espírito perturbador da morte tenha brotado das paisagens bucólicas da Hungria — ou será que essa ideia de matar silenciosamente teria surgido da mente diabólica de uma mulher? Não é possível determinar uma data para o início da matança na pequena Nagyrév, mas durante vinte anos, as mulheres mataram os homens desse vilarejo húngaro. No total, 42 assassinatos foram cometidos por 34 mulheres.

Surgiu em Nagyrév uma espécie de sororidade distorcida e macabra onde as mulheres se ajudavam — trocavam dicas, venenos e confissões sobre os desgostos da vida no campo. E, de repente, tudo era motivo para morte, mas não havia escândalos ou torturas absurdas. Tudo o que aconteceu em Nagyrév, aconteceu silenciosamente.

“Zsuzsanna não hesitava ao recomendar o assassinato às suas clientes desesperadas e distribuía veneno como se fosse remédio para dor de cabeça”.

A jovem Juliana Lipka é a primeira assassina retratada como parte das Criadoras de Anjos de Nagyrév em Lady Killers: Assassinas em Série, de Tori Telfer, lançado recentemente pela marca Crime Scene, da DarkSide Books. Lipka se queixou durante uma conversa sobre o casal de idosos que cuidava e, rapidamente, recebeu um conselho um tanto inusitado: papel mata-moscas dissolvido em água é capaz de soltar uma camada fina de veneno, que pode ser misturado à comida ou bebida — os resultados eram fatais e a chance de se descobrir, praticamente nula.

Uma das mulheres que estavam nessa conversa era a parteira Zsuzsanna Fazekas, que acreditava ter em suas mãos o controle da vida e da morte. Poderosa e respeitada na cidade, Fazekas carregava um frasco de arsênico na bolsa e, em 1929, vivia em uma das melhores casas de Nagyrév. Em Lady Killers: Assassinas em Série, Telfer retratada Zsuzsanna como uma mulher fria e completamente sem escrúpulos. “Zsuzsanna não hesitava ao recomendar o assassinato às suas clientes desesperadas e distribuía veneno como se fosse remédio para dor de cabeça”.

A geração de mulheres de Nagyrév jamais recebera nada e não podia esperar nada também. Naquela época, algumas das mulheres justificaram seus assassinatos das mais diversas formas: “ele cuspia no chão, ele reclamava demais, eu estava aborrecida, foi vingança etc.”

Zsuzsanna, Rozália e Mariá

“Em Nagyrév, nenhuma mulher matava sozinha.”

A parteira Zsuzsanna Fazekas era uma espécie de autoridade no vilarejo de Nagyrév, já Rozália Takács era uma massagista conhecida. Mariá Kardos era notadamente a que se vestia melhor, era bem vista e já havia se divorciado duas vezes — algo incomum para época. Zsuzsanna ajudava jovens mulheres a pôr fim em sofrimentos familiares. Maridos abusivos, filhos que se tornaram um incômodo e recém-nascidos que resistiram às tentativas de aborto poderiam morrer rápida e silenciosamente com algumas dicas da parteira.

Takács envenenou seu marido com arsênico e, logo depois, ensinou uma jovem esposa a envenenar o sogro tirano. “Você não precisa se torturar, eu vou trazer algo para o velho que o destruirá”, ela teria dito. Em Nagyrév, nenhuma mulher matava sozinha. Kardos, no entanto, foi além. Com ajuda de Zsuzsanna, Kardos envenenou seu filho enfermo já adulto e o viu morrer cantando do lado de fora da casa, enquanto tomava os últimos raios de sol. Pouco depois e com a ajuda da parteira, a mulher também envenenou com arsênico, ao longo de um mês, o marido e ex-prefeito da cidade.

A descoberta dos envenenamentos em Nagyrév

Após vinte anos matando silenciosamente, as mulheres de Nagyrév foram finalmente descobertas. No final dos anos 1920, as autoridades da cidade vizinha de Szolnok receberam cartas anônimas relatando as atrocidades cometidas na pequena Nagyrév — descobrir o que, de fato, havia acontecido não seria algo tão complicado diante de um pequeno vilarejo e de nomes tão conhecidos.

O governo húngaro passou o pressionar a polícia para solução dos casos e dezenas de mulheres foram presas e passaram por horas ininterruptas de interrogatórios no meio da noite. Zsuzsanna Fazekas foi uma das primeiras a ser presa — e seu envolvimento com os assassinatos era real e impossível de se esconder, tanto que em alguns relatos, a parteira aparecia como mentora dos assassinatos. Entretanto, pouco antes de ser presa definitivamente, sacou um frasco de veneno do bolso e bebeu todo seu conteúdo — chegou a ser socorrida por policiais, mas morreu antes de chegar a um hospital.

O mistério rural de Nagyrév ficou nas mãos do juiz János Kronberg, que prendeu tantas mulheres quanto pôde. O julgamento, mesmo naquela época, foi movimentado. Presas e longe da pequena vila, as mulheres sucumbiram às prisões precárias, celas com ratos e interrogatórios incessantes. Duas das mulheres, em um ato de desespero, amarraram seus cachecóis nas grades da janela e se enforcaram. Para a imprensa, aquilo foi uma confissão. Durante o julgamento, a maioria das mulheres tentou atribuir os atos à falecida parteira Zsuzsanna; a defesa alegou que os crimes eram resultado da pobreza, dizendo que as autoridades poderiam ter feito algo por Nagyrév — o que era verdade, mas não mudava os fatos diante da Corte húngara. Mária Kardos, que havia matado o filho e o terceiro marido, foi fria durante o julgamento, mesmo com uma plateia hostil: “Todas nós, mulheres de Nagyrév, sabíamos o que Zsuzsanna Fazekas estava aprontando. Estávamos tão acostumadas com as ações dela como estamos acostumadas a ver bandos de gansos deixando o vilarejo rumo aos prados toda manhã […] Nenhuma das mulheres que foram presas pelos envenenamentos é inocente.”

No final deste dia, as sentenças finalmente foram distribuídas. A maioria recebeu prisão perpétua ou longas penas, poucas foram inocentadas porque não havia provas suficientes para a condenação. Sete mulheres receberam pena de morte, incluindo Mária Kardos e a massagista Rozália Takács, que a ajudou em vários assassinatos. A Suprema Corte da Hungria reavaliou o caso e acabou revendo algumas penas demasiadamente duras, mas Kardos não foi poupada e acabou enforcada na manhã de 13 de janeiro de 1931. Atribuir as mortes de Nagyrév à mente insana da “bruxa” Zsuzsanna era fácil demais para todos, mas o que estava tão intrínseco quanto o silêncio daquelas mortes era um terrível fenômeno encorajado por complexas questões sociais — a economia, a cultura, os costumes rígidos da época e a infelicidade humana juntas, teceram uma teia robusta acerca do silencioso e duradouro desespero feminino.

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