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O Livro das Respostas: a sabedoria está na simplicidade

Sobre as inúmeras tentativas de saber um pouco mais sobre nós mesmos

Ao longo dos séculos, buscamos as respostas para as situações mais inexplicáveis da vida. Os oráculos se tornaram, assim, parte do corpus que compõe nossa sociedade desde os tempos mais remotos. Vários são os exemplos oraculares: as cartas como o tarô, o baralho cigano, o baralho espanhol; os búzios tanto no candomblé e suas diferentes nações, quanto na quimbanda; os oráculos de ossos; a piromancia – leitura oracular da chama de uma vela;
oráculo de taça com água, espelho, borra de chá, borra de café, ufa! Se precisamos de uma resposta para algum acontecimento, lá estamos nós dando um jeito de pedir aquela mãozinha para o divino. Literalmente já que existe a leitura oracular das mãos, a quiromancia.

Eu trabalho como oraculista há quase uma década e percebi durante esses anos de experiência que a gente tem sede de respostas. Para aquilo que está acontecendo, para o que está para acontecer, para aquilo que só acontece na nossa cabeça, para aquilo que está bem na nossa cara e não enxergamos. Tadinha da vida, eu penso, não deixamos ela simplesmente acontecer. Nossa cisma de querer controlar tudo, de obter todas as respostas, de saber exatamente onde estamos pisando para só então pisar de fato, nos levou a níveis adoecedores dessa eterna busca. Dia desses vi um anúncio de curso de tarô que dizia: aprenda a ler tarô em quatro dias por apenas onze reais. Olhei para os meus anos de estudante e professora de tarô e pensei: é, perdemos a mão. Eu precisei de muitos anos de estudos e treinamentos para fazer disso a minha principal fonte de renda, que só veio a acontecer em 2020, durante a pandemia. Não foram somente quatro dias e nem somente onze reais. Mas mais uma vez nosso imediatismo, nossa busca incessante por respostas fazem a gente cair nesses papos.


Outro dia fui a uma loja de roupas aqui no bairro. Na fila do caixa, apenas uma senhora à minha frente. Alta, um tanto magra, tinha os cabelos brancos cuidadosamente penteados para trás, fazendo da franja um topete ou do topete uma franja, não tinha como saber; com o semblante de quem só é feliz quando sobra tempo. Ouvi a senhora dizer que aguardava aflita uma resposta. Coisa de neto que vai estudar no exterior. Na televisão da loja, um daqueles canais que passa missa o dia inteiro, volta do intervalo que anunciava a venda de água benta e santinho, e o padre conectado a fé e ao suor disse que iria abençoar a vida daqueles que assistiam de casa – ou de lojas de roupa, eu suponho. A senhora não teve dúvidas: prontamente retirou a máscara que tampava a boca mas não o nariz e disse: eu preciso dessa benção, vou ter minha resposta. Grudou a máscara na tela da televisão, fechou os olhos, grunhiu um “amém” e recolocou a máscara com a aflição e certeza de quem teria a tão esperada resposta.

Ilustração: Bárbara Macedo

Querer saber das coisas é uma filosofia de vida para quem foi cair justamente nesse planeta. E nem sempre é sobre a gente, já reparou? É o tal do ex que não volta, o patrão que não dá aumento, a amizade que se rompeu, o neto que foi pro exterior. Também não se pode negar a sensualidade própria de quem sabe das coisas. Alguém que também está buscando suas respostas mas que já encontrou uma porção delas confere à figura um certo status. Talvez nós, as menos afortunadas na fila das respostas, nos aproximemos de gente assim para tentar entender qual movimento estamos fazendo errado. Qual é a razão que a gente não encontra as nossas respostas. Mesmo escarafunchando o tarô, os búzios, as linhas assimétricas das mãos, os missionários televisivos, nunca ficamos satisfeitas com as respostas que encontramos. Me parece que há nesse movimento uma certa sofisticação que muitas vezes não vai de encontro com a agonia pelas respostas que buscamos, precisamos de algo mais simples. Um negócio assim, que você bate o olho e tem uma resposta, sem ter que interpretar demais.

Ilustração: Bárbara Macedo

É um negócio tipo “O Livro das Respostas”, da autora Carol Bolt, novo lançamento da DarkSide Books. Quando ele chegou aqui em casa, eu fiquei tão aflita com a simplicidade dele – e, de fato, a sabedoria está na simplicidade, como nos orienta na capa do livro – que eu não sabia nem o que perguntar. A gente está tão acostumada a pensar em perguntas mirabolantes para tentar vislumbrar alguma possibilidade de resposta, que um livro que você apenas gira e abre para acessar sua sabedoria parece coisa de outra dimensão. Ainda assim, pensei em algo mirabolante, cheio de entrelinhas, detalhes, cores, volumes, uma visualidade própria de quem está há sete anos matriculada em uma faculdade de artes. A resposta do livro foi: tente. Só isso. Nem uma letra a mais, nem um ponto final a menos. Tente. É de dar emoção e medo uma resposta dessas. Requer da gente um desapego dos “porquês”. Não sei a razão, não sei a justificativa, não sei o desenrolar, sei apenas que preciso tentar. E isso não é tudo que eu precisaria saber, afinal? Pois, veja bem, se a resposta fosse para eu tentar e junto dela viesse uma série de parágrafos justificando as razões daquela tentativa, eu não precisaria nem mais tentar. Desistir ou tentar agora tanto faz, como diz a canção. Num outro contexto, recorri ao livro – é uma experiência tão maravilhosa essa de ter respostas sintetizadas que tenho aberto ele com uma certa frequência – para me ajudar a refletir em cima de uma decisão que precisaria tomar. A resposta foi: não exagere. É de um cuidado com a gente que invejaria qualquer arcano, naipe, borra ou vela.

O Livro das Respostas” quebra um certo tradicionalismo nos modos oraculares, ao passo que se mantém como um constituinte desse corpus social que mencionei acima. Talvez seja exatamente dessa simplicidade que a gente precise quando o assunto for buscar respostas com o divino – interno ou externo a nós. Me lembrei de quando era mais nova, passava na televisão um programa que buscava reconhecer o maior “paranormal” do Brasil. Uma gincana alegórica que assustava não pelo cunho espiritual, mas pela pouca disposição em aprofundar o assunto. Lá tinha uma moça que recebia suas revelações abrindo a bíblia. Rezava, pedia aquela força para o Senhor e abria o livro santo. Lia, lia, lia e pouco acertava, tadinha. Faltava essa simplicidade que “O Livro das Respostas” propõe. Eu falo do lugar de quem trabalha com isso, muitas vezes a sofisticação impede a mensagem de ressoar. Tenho refletido muito sobre isso no meu ofício, sobre me comunicar de uma forma menos sofisticada com consulentes, sobre passar as mensagens como quem berra no megafone anunciando “abacaxi da massa amarela de Marataízes” como acontecia na rua da casa que eu morei. Com a simplicidade que invejaria os oráculos que exaltam arquétipos mas que não invejaria “O Livro das Respostas”. Uma página preta, uma página branca, uma mensagem em posição “normal”, uma mensagem de “cabeça para baixo”. Um certo minimalismo encantador e efetivo. Não vou jogar palavras contra os outros oráculos, sigo trabalhando com eles e me consultando com eles. Mas vou jogar palavras a favor desse livro, da estrutura afetuosa que ele traz para as respostas que se propõe a dar. Respostas que são acessíveis não por serem dele, mas por serem nossas e ele apenas nos lembrar disso.

Como quando eu o abri para me orientar sobre a escrita deste texto sobre o próprio livro e quando abri, numa página ele dizia: contribua; na outra dizia: durma mais.

Sobre Bárbara Macedo

Avatar photoBárbara Macedo é uma travesti bruxa e makumbeira. Trabalha como oraculista, magista e mentora espiritual. Tem como enorme desejo auxiliar as pessoas a romper com os olhares binários acerca de sua própria espiritualidade e, consequentemente, visão de mundo. Pesquisa as relações entre a população da qual faz parte (travesti) e espiritualidade, com enfoque na bruxaria e na umbanda. Conheçam seu trabalho no instagram @barbara_macedo37.

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