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“Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez” escancara dores quase impossíveis de se imaginar

HBO Max traz documentário sobre um dos crimes mais chocantes do Brasil

DEZEMBRO DE 1992

Sobre o passado, alguns acontecimentos nos marcam como uma cicatriz. O abismo da desigualdade social, a corrupção sempre crescente, uma inflação avassaladora que chegava a remarcar os preços no supermercado duas vezes por dia. Do governo Collor lembramos do desapontamento, do confisco da poupança dos brasileiros e principalmente da renúncia do então Presidente da República. E em meio a esse turbilhão de memórias e atos ineficientes, infelizes e corruptivos, renasce a memória de um crime que, ainda hoje, faz sangrar o coração de muita gente.

Em 1992 o mundo era bem diferente. Não tínhamos telefones celulares, a TV por assinatura ainda engatinhava, nossas memórias mais sólidas quase sempre seriam acompanhadas pelo ruído de uma televisão sintonizada na Globo. Depois das oito, sabíamos que as ruas estariam mais vazias, afinal de contas, era a hora da novela. E foi assim que todos nós recebemos aquela notícia em 28 de dezembro. Parando nossas conversas sobre as festas de final de ano, detendo o garfo que não chegou à boca, sequestrados ao choque do que mais parecia uma expansão de horror da novela das oito exibida naquele ano, “De Corpo e Alma”. O crime: o assassinato da atriz Daniella Perez pelo também ator, Guilherme de Pádua.

Se perguntarmos para qualquer pai ou mãe a pior dor que eles podem imaginar, quase sempre a resposta será a mesma: perder um filho. E é principalmente essa dor, esse momento intraduzível da existência humana, que pavimenta o documentário “Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez”, atualmente no catálogo da HBO Max.

Quem procura uma experiência morna e econômica, com certeza sairá decepcionado, e até mesmo traumatizado. No documentário que disseca o assassinato de Daniella Perez, a história é escavada profundamente, em todas as direções, e expõe dores e agonias que até então só podiam habitar o nosso imaginário. A câmera, aquela mesma que chocou o Brasil em 1992, aponta para o corpo mutilado de Daniella sem filtros ou ressalvas, em 4K, para as lágrimas dos familiares, para a ineficiência da polícia e para o rosto frio, cínico e, como bem definiu o viúvo Raul Gazolla, covardezinho do assassino, hoje pastor evangélico, Guilherme de Pádua.

Entre um depoimento chocante e outro, também nos deparamos com um Brasil que parece ter mudado bem pouco. Nesses momentos somos mergulhados na corrupção, no machismo e no nosso despreparo como povo e como nação. Mesmo o enterro de Daniella Perez segue como um show de horrores à parte, onde populares se digladiam para tocar o rosto dos atores presentes na despedida e ameaçam tombar a capela. E depois de tudo isso, mais uma vez, o Brasil age da pior forma possível, reduzindo a explosão de vida chamada Daniella Perez a ‘protagonista da novela das oito’, onde a atriz interpretava Yasmin; e amplificando um assassino chamado Guilherme de Pádua a um parceiro romântico da atriz, o Bira. De repente, o Brasil de 1992 começa a confundir realidade e ficção, e é exatamente nesse ponto que nasce o desejo de Glória Perez (também autora da novela) em dar uma direção verdadeira a esse roteiro de terror.

Na mesma Glória, encontramos uma boa tradução para palavras como força, resiliência e determinação, e nos perguntamos com certa frequência durante a exibição da série: que mulher é essa? Como ela conseguiu escapar do calabouço onde esse crime a aprisionou? Como seguir em frente quando nossa vontade é habitar outra época? Uma vida pregressa?

“Eu sei que, nesse momento que eu quis recolhê-la para dentro de mim de novo, foi tão duro esse momento que eu pedi para o delegado… Ela estava com o olhinho aberto […] É uma coisa dura você fechar os olhos de um filho. Não fechou totalmente, mas fechou um pouquinho. E aí eu não senti mais nada. Eu vi que, assim, a dor grande demais anestesia. Você não sente mais nada.”

Glória Perez hoje talvez use uma armadura, que se pesa, também a protege na mesma medida.

A impressão que fica é que não foi a Glória de antes que saiu dessa alcova, mas uma nova mulher, assassinada e morta, que precisou renascer de outra maneira para seguir em frente. E de fato, é só assim que se supera a morte de um filho, morrendo junto com ele.

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez” ainda tem muita história para contar, com novos depoimentos de famosos, acareações e reviravoltas de um crime que ainda hoje apresenta muitas lacunas, mas nesses dois primeiros episódios conseguimos vislumbrar uma produção muito diferente, e muito mais cuidadosa em relação ao que realmente deveria importar: a verdade.

*Imagem do banner: Foto de Paulo Fonseca – foto de arquivo / O Globo

Sobre Cesar Bravo

Avatar photoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D. e 1618.

2 Comentários

  • Ellen

    25 de julho de 2022 às 11:46

    Melhor texto sobre o documentário que li. Esse crime hediondo me chocou demais e incomoda até hoje, principalmente pelo fato dos assassinos estarem em liberdade, situação pela qual nós brasileiros estamos bastante familiarizados, infelizmente. Minha profunda admiração à Gloria Perez, sua resistência, coragem e sabedoria. Aguardo pelos demais episódios, ansiosa.

  • Cláudio Augusto Martins de Almeida

    24 de outubro de 2022 às 10:47

    Este Documentário
    sobre o Homicídio de Daniela Perez é
    Chocante demais vou assistir a Série
    Cesar Bravo Meu Amigão
    gostei e Amei demais o Texto

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