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Por que Cabo do Medo, de Martin Scorsese, está entre os melhores thrillers da década de 90

Dirigido com ousadia e estrelando uma grande atuação de Robert De Niro, o filme está entre os melhores de Scorsese

Publicado originalmente no site Dan of Geek

Após os elogios da crítica recebidos por filmes declaradamente únicos, como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros, a decisão de Martin Scorsese de dirigir a refilmagem de Cabo do Medo, um thriller dos anos 60, foi uma surpresa. Ainda assim, a empreitada de Scorsese pelo mainstream provou ser uma jogada inteligente, permitindo ao diretor, agora ainda mais elogiado, um sucesso de bilheteria propriamente dito.

Em retrospecto, não é difícil ver o que Scorsese viu na premissa aparentemente simples do filme, adaptado do romance de John D. MacDonald de 1957. O Círculo do Medo de 1962, dirigido por J. Lee Thompson e estrelado por Gregory Peck e Robert Mitchum nos papéis principais, foi uma história do bem contra o mal: um presidiário maníaco, Max Cady (Mitchum), foge da prisão e começa a aterrorizar a família do advogado Sam Bowden (Gregory Peck), que ele acredita ter sido responsável por sua prisão.

Scorsese e De Niro no aclamado Touro Indomável

No roteiro escrito por Wesley Strick para a versão de 1991 de Scorsese, Bowden não é um protagonista tão evidentemente íntegro. Aqui, Bowden, convencido de que Cady é o culpado pelo crime, esconde uma evidência fundamental que poderia ter mantido o acusado fora da cadeia. Quatorze anos depois, Cady sai da sua jaula amargurado, exercitado, autodidata e com fome de vingança.

Temas como corrupção e culpa mexem com Scorsese, cujos filmes estão repletos de criminosos violentos e marginais em conflito há muito tempo. O roteiro furioso e angustiante também forneceu muito material para os atores principais se basearem. E a atuação selvagem de Robert De Niro como Max Cady está entre suas melhores, talvez até a mais detalhada – suas tatuagens, seu olhar fixo como cobra e seus discursos bíblicos enfurecidos predominam no filme e essa atuação foi até parodiada em um episódio clássico de Os Simpsons.

A performance de De Niro é tão chamativa e agressiva que é fácil ignorar o quão fortes são as outras atuações. Nick Nolte como Sam Bowden pode muito bem ter feito o melhor papel da sua carreira. Definitivamente, ele é uma escolha inusitada para interpretar um advogado engomadinho, mas já no começo do filme, quando seu terno ainda está bem passado, existe um ar de culpa e desespero nele. Sua vida doméstica apresenta sinais de colapso através da visível insatisfação de sua esposa e designer gráfica, Leigh – interpretada pela brilhante Jessica Lange -, enquanto suas constantes brigas acabam alienando sua filha adolescente, Danielle – Juliette Lewis, em um papel marcante para sua carreira.

Quando Cady sai da prisão, jorrando a fúria dos justos, ele é meramente um catalisador em uma família já em crise. Na primeira hora, sua onipresença – detestavelmente rindo e fumando durante a sessão de O Pestinha, sentado no muro do jardim de Bowden, ou vagabundeando pelas ruas no seu carro vermelho – Cady apenas expõe e intensifica as falhas da confortável existência de Bowden. Tanto sua esposa quanto sua filha parecem estranhamente atraídas por esse homem misterioso do passado de Bowden, pelo menos até que a ameaça que Cady representa vire um confronto físico.

Pouco a pouco, a vingança de Cady vai se aproximando de Bowden, até atingir a sequência mais controversa do filme: o assédio violento e explícito da colega e possível interesse amoroso de Bowden, Lori (Illeana Douglas). Mesmo 20 anos depois, é uma cena chocante, que foi muito criticada pela aparente misoginia dos escritores na época do lançamento. Em entrevistas posteriores, tanto Scorsese quanto o roteirista Wesley Strick defenderam a violência da cena, argumentando que se não fosse tão extrema, o encontro posterior de Cady com Danielle não seria tão carregado de perigo.

A cena é ainda mais chocante por conta do tom da direção de Scorsese até este momento. Desde os créditos de abertura, onde podemos ver o notável trabalho do designer Saul Bass e a assustadora reformulação que Elmer Bernstein fez na trilha sonora de Bernard Herrmann de 1962, Cabo do Medo de Scorsese parece um thriller hollywoodiano das décadas de 50 e 60. A fotografia de Freddie Francis é extraordinariamente estilizada para um filme mainstream – é só olhar para o momento em que Cady emerge da prisão com nuvens negras sobrevoando-o e marcha diretamente para a câmera – ao passo que Scorsese parece determinado a nos lembrar que o que estamos vendo é tudo um artifício. Quando Cady senta no muro dos Bowdens em uma cena no começo do filme, o diretor pinta o fundo com uma gama de fogos de artifício.

Martin Scorsese faz inúmeras referências divertidas e bem diretas ao Cabo do Medo original, não apenas com as aparições de Mitchum, Peck e Martin Balsam, mas também com referências aos filmes de Hitchcock e outro thriller estrelado por Mitchum, Mensageiro do Diabo.

O resultado, então, é que o espectador passa por uma experiência invasiva não muito diferente da de Sam Bowden. Somos apresentados à montagem habitual e confortável de um thriller em preto e branco – repleto de cabelos cheios de gel e terninhos – e, de repente, a violência terrível e o ar palpável de ameaça sexual (um elemento controverso do filme de 1962 ficou ainda mais notório aqui) surgem arrebentando tudo.

Cabo do Medo atinge o auge do suspense pouco depois que Cady seduz Danielle verbalmente na escola (uma sequência profundamente desconcertante que foi parcialmente improvisada por De Niro e Juliette Lewis). Convencido pelo sórdido detetive particular Claude (Joe Don Baker), Bowden contrata três homens para darem uma surra em Cady na tentativa de espantá-lo. O ataque dá errado, resultando em três brutamontes abatidos e um sermão noturno e enfurecido de Cady.

A tensão do filme começa a se dissipar depois disso. Uma tentativa de atrair Cady para a casa dos Bowden, onde podem atirar nele sem represálias legais, segue para uma cena de humor macabro na qual Claude é estrangulado por Cady, que havia entrado escondido na casa fantasiado de empregada. A sequência é desconcertante. Não está claro porque Cady pensou que seria necessário invadir a casa dos Bowden travestido, ou o porquê de Scorsese ter feito Sam escorregar no sangue esparramado pelo chão da cozinha depois do ataque. Talvez essa tenha sido mais uma tentativa de Scorsese de desestabilizar os espectadores?

Cabo do Medo termina com uma longa disputa a bordo do barco dos Bowden. Enquanto uma tempestade atinge o barco com força, o filme se desenrola em uma série de gritos e carnificina sem fim. Falta nesse último encontro a convicção do restante do filme, como se Scorsese sentisse a obrigação de encerrar o filme com uma conclusão de thrillers tradicionais (a sequência no barco é uma versão direta daquela de 1962, só que muito mais violenta).

Curiosamente, Scorsese nega tanto a Sam Bowden quanto ao seu público a satisfação de uma compensação sangrenta e valentona: no instante em que Sam está prestes a dar o golpe final com uma pedra enorme, as ondas de Cape Fear arrastam Cady para as profundezas, o que o leva a se afogar nos balbucios de um êxtase religioso.

A versão de Scorsese para Cabo do Medo é desconcertante e em muitos momentos, marcante. As cenas iniciais de suspense são mais interessantes que as cenas finais de violência, que são em sua maioria dignas de gargalhadas. O decisão mais inteligente do filme, no entanto, é a forma como começa e termina com um monólogo de Danielle diretamente para a câmera.

Enquadrado desta forma, Cabo do Medo não é sobre uma batalha entre um advogado e um condenado para ver quem é mais esperto, mas sobre uma menina que está entrando na vida adulta em circunstâncias demasiadamente desagradáveis, sobre um éden confortável de classe média que é destruído por violência e traição.

Essa complexidade é toda graças a Martin Scorsese e sua rejeição a contar uma história simples de forma repetitiva. O que poderia ter sido um thriller hollywoodiano genérico, é, por sua vez, algo muito mais envolvente e perturbador. Onde um diretor mais fraco teria se apoiado somente no gore (violência sangrenta), a habilidade de Scorsese de justapor o óbvio com o inesperado deixa o filme muito mais assustador e memorável – e é por isso que Cabo do Medo está entre os melhores filmes de suspense da década de 90.

Confira o trailer de Cabo do Medo, de 1991:

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