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Crime Scene

Por que entendemos os acontecimentos de Columbine tão errado?

A agente funerária e escritora Caitlin Doughty comenta os erros insensatos na cobertura da imprensa e no tratamento do caso Columbine

Tiroteios em massa se tornaram um assunto cada vez mais presente na mídia norte-americana com o passar do tempo. A maioria de nós não saberia dizer com precisão quantas vítimas existiram nesses últimos cinco anos, ou quantos tiroteios em massa aconteceram em escolas, igrejas e salas de cinema do país. No dia 4 de agosto deste ano, os Estados Unidos sofreram dois ataque a tiros em menos de 24 horas — o primeiro tiroteio aconteceu em uma loja da rede Walmart, em El Paso, no Texas, seguido por outro tiroteio em frente a um bar na cidade de Dayton, Ohio, cerca de 13 horas depois. Juntos, os dois ataques deixaram ao menos 29 mortos, e dezenas de outros feridos.

Para Caitlin Doughty, agente funerária e escritora, os norte-americanos perderam as contas de quantos ataque a tiros aconteceram na história faz algum tempo. Ela falou sobre o tema no vídeo “Why Do We Get Columbine So Wrong?”, publicado em seu canal, Ask a Mortician. “Mas esse cansaço, essa exaustão da nossa empatia ainda não era frequente em 20 de abril de 1999, na Escola Columbine, o dia que você poderia chamar de primeiro tiroteio em massa da era digital. Eu era uma caloura do ensino médio na época e um pouco gótica, então sim, eu prestei atenção. Como a grande cobertura da mídia que durou semanas, até hoje eu lembro de muitos eventos daquele dia”, diz ela no começo do vídeo.

Para começar a entender o evento é necessário começar pelo grupo Trench Coat Mafia. Na época, afirmaram que os dois atiradores faziam parte desse grupo, cujos membros usavam sobretudos, maquiagem, boinas, seus gostos eram sombrios, quase góticos. Realmente havia um grupo na escola de Columbine que se chamava Trench Coat Mafia, mas os dois atiradores não faziam parte dele. Os grandes jornais na época do tiroteio em massa identificaram e conectaram os atiradores ao referido grupo, mas os estudantes que os jornais e a polícia entrevistaram estavam constantemente confundindo os atiradores com outros alunos de Columbine. Os estudantes que faziam parte desse grupo não eram Dylan e Eric.

No entanto, a imagem criada e propagada desses dois estudantes da escola Columbine, no Estado do Colorado, era a de que eles haviam sido muito provocados e sofreram bullying ao longo do ensino médio — eram zombados por gostar de Marilyn Manson e usarem sobretudos pretos. Eles eram rejeitados pelos atletas e pelas garotas e acabavam descontando sua raiva em videogames violentos, o que resultou em um plano na vida real de conseguir o máximo de armas de fogo possíveis e atirar em quantos colegas conseguissem, ato consumado no dia 20 de abril de 1999. “Essa narrativa de Columbine se tornou a história de origem, o começo dessa ‘religião’ moderna de homens raivosos. Mas no final das contas, pouco dessa história é verdade. A única parte que era realmente verdade era que havia provas sólidas de que esses dois garotos ouviam Marilyn Manson, mesmo que ele não fosse o artista preferido deles”, relata a autora em seu canal Ask a Mortician, no YouTube, em um vídeo repleto de reflexões lançado no dia 20 de abril de 2019. 

Se considerarmos a influência que Columbine teve nos últimos 20 anos, entender qualquer parte dessa história de maneira errada é algo muito perigoso. No vídeo, Doughty menciona o psicólogo Peter F. Langman, que tem pesquisado e documentado tiroteios em escolas há anos. Ele descobriu que Columbine influenciou mais de 30 ataques e tiroteios violentos. “Quando você coloca isso em uma tabela, a influência de Columbine se divide em todas as direções como uma aranha do mal. O atirador de Virginia Tech, de Santa Fe, de Sandy Hook Elementary, que matou 20 alunos da primeira série e costumava postar em fóruns sobre Columbine, enchia o Tumblr com as fotos das vítimas do massacre e jogava um jogo chamado Super Columbine Massacre RPG”, acrescenta Doughty.

Na imprensa, a história rapidamente se transformou em Dylan e Eric indo atrás dos atletas para matá-los porque faziam bullying com eles, e das garotas que os rejeitavam. “Além disso, eles provavelmente eram supremacistas brancos, então eles iam matar minorias também. Mas, na verdade, eles não tinham alvos. Sim, antes de matarem as pessoas eles provocaram e atacaram suas vítimas pelo que as tornavam diferentes, mas aparentemente era algo aleatório. Várias das vítimas nem ao menos conheciam os assassinos”, diz a autora.

Os adolescentes, especialmente Eric, se davam muito bem com as garotas, eram bons na escola, gostavam de esportes, tinham amigos de vários grupos étnicos, e talvez o mais importante, tinham um grupo sólido de amigos e foram, de fato, os assassinos de Columbine, mas se tornaram garotos propaganda para góticos solitários, azarados com as garotas e racistas. As evidências, no entanto, mostram que isso não era verdade. “Há evidências de que Dylan e Eric eram muito mais os que praticavam o bullying do que eram vítimas do bullying. Eles frequentemente zombavam dos outros em uma tentativa de começar brigas. Eles até escolhiam alguns alunos específicos para fazer bullying constante, alguns dos quais foram denunciados para a administração da escola”, diz.

Conforme elabora Dave Cullen em seu premiado livro Columbine, o evento não foi planejado como um ataque a tiros, e sim um bombardeio. No entanto, as bombas falharam, e eles tiveram que recorrer às armas que tinham consigo. “Isso é importante porque, para certos tipos de jovens, as armas e os tiroteios em si foram glamorizados. E nos Estados Unidos, armas de fogo são mais fáceis de se conseguir do que bombas”, comenta Doughty.

Os erros de Columbine

Cassie Bernall tinha 17 anos e foi uma das 13 pessoas que morreram naquele dia em Columbine. O relato original da morte de Cassie foi que, momentos antes dela ser morta, ela foi questionada por um dos atiradores se acreditava em Deus. “A pergunta implícita aqui era se ela ainda acreditava em Deus quando confrontada com esses assassinatos e violência. Cassie disse que sim e por isso foi morta. A história deu início a protestos evangélicos, músicas católicas e até mesmo um livro escrito pela mãe de Cassie intitulado She Said Yes (Ela Disse Sim). Cassie virou uma mártir ao se recusar a negar Deus.

Histórias que estão erradas sempre devem ser corrigidas, mas histórias que são tão relevantes, e que ainda causam tanta dor 20 anos depois, precisam ser corrigidas com urgência para que não se propaguem verdades simplistas demais diante de fatos tão complexos para a sociedade.

A história começou porque, naquele dia, um estudante ouviu uma garota dizer que ela ainda acreditava em Deus antes de levar um tiro, mas não foi Cassie Bernall. Foi outra estudante, chamada Val Schnurr. Val sobreviveu, embora com ferimentos graves. Na hora em que os investigadores perceberam que eles tinham o “mártir errado”, de certa forma, Cassie já tinha se tornado famosa. 

Os investigadores, então, falaram para os pais de Cassie que, infelizmente, a história não era verdade. Cassie não disse sim e muitas testemunhas confirmaram isso. Mas eles não expuseram a verdade publicamente porque sentiram que a história tinha ido longe demais, que muitos cristãos já estavam devotos à essa história. Como o pastor da igreja da família de Bernall falou para o The Washington Post: “Vocês nunca vão mudar a história de Cassie. A igreja vai apoiar a história da mártir, é a história que eles ouviram primeiro e circulou por seis meses sem ser contestada. Para a igreja, Cassie sempre vai dizer sim. Ponto”.

Doughty relata no vídeo que a história de Cassie poderia se relacionar com tudo o que aconteceu depois do dia 20 de abril de 1999. “Vocês nunca vão mudar a história, é a história que eles ouviram primeiro. Isso nos traz para a pergunta de verdade: por que ainda é importante entender Columbine da maneira certa? Aconteceu há 20 anos. Bem, primeiro de tudo, Columbine não é menos relevante ou menos perigosa do que era há 20 anos. Os atiradores queriam se aproveitar das transmissões dos jornais 24 horas, assim como os atiradores dos últimos cinco anos querem chamar a atenção dos jornais e da internet através de manifestos e vídeos ao vivo. Esse desejo de capturar e explorar o nosso medo e imaginação através da mídia sempre parece funcionar exatamente como eles planejaram.”

Em seu livro, Dave Cullen é contra nomear publicamente os atiradores e compartilhar fotos deles que os glorifiquem. Ao manter seus nomes e imagens fora da grande mídia, negamos aos assassinos a notoriedade que eles buscam. 

Cullen, que passou dez anos debruçado sobre o caso para escrever seu livro, elabora que, para assassinos, há duas rotas para o clube da elite com tratamento de estrela — número de baixas ou criatividade. Com número de baixas, chega-se à lista dos “dez mais”, porque a mídia gosta de manter o placar de vítimas atualizado durante as entradas ao vivo. E com criatividade, precisam ser performances de violência. “É irônico e repulsivo”, diz ele. 

Sue Klebold, mãe de Dylan, contou para o The New York Times: “Nós não fazemos isso intencionalmente, mas nós glorificamos atiradores quando mostramos o estrago que eles fizeram. Todo o choro, todos os lugares vazios… E para as pessoas com raiva, isso tudo tem um apelo particular”. Sue percebe que rapazes com raiva estão usando tudo deste evento como uma espécie de guia. Existem comunidades de Tumblr devotas ao acontecimento e ela ainda recebe cartas de garotas apaixonadas por seu filho. Por causa disso, Sue lutou especificamente contra a liberação de fitas dos dois adolescentes falando sobre como e por qual motivo eles cometeriam os assassinatos. “Sue Klebold é o motivo pelo qual eu fiquei tão interessada pela verdade por trás de Columbine. Eu a conheci quando nós duas fomos palestrar no TEDMED Conference. Assim que ela descobriu que eu era diretora funerária, tudo que ela queria falar comigo era sobre doação de cérebros, o que nos traz para o último mal entendido de Columbine. Sim, havia dois assassinos em Columbine, mas eles não eram mentes criminosas iguais. É geralmente compreendido por psiquiatras e investigadores que olham mais a fundo para os assassinatos que Dylan, filho de Sue, estava gravemente deprimido, se odiava e era suicida. Eric era insensível, obcecado por si mesmo, cheio de fantasias sádicas e acreditavam que ele era um psicopata. Eric queria matar os outros e Dylan queria se matar. Isso não tira a culpa de Dylan por ajudar a planejar o massacre, mas talvez o tenha feito mais suscetível para alguém como Eric. Se você está interessado em mais detalhes, o livro Columbine, de Dave Cullen, e A Mother’s Reckoning, de Sue Klebold são bons lugares para começar. Todos os lucros do livro de Sue vão para pesquisas e prevenção do suicídio”, finaliza Doughty.

Atualmente, de acordo com a agente funerária, Sue trabalha com prevenção de suicídio e está interessada que casas funerárias estejam cientes da doação de cérebro porque ela quer mais pesquisas sobre saúde mental e depressão sendo feitas. Histórias que estão erradas sempre devem ser corrigidas, mas histórias que são tão relevantes, e que ainda causam tanta dor 20 anos depois, precisam ser corrigidas com urgência para que não se propaguem verdades simplistas demais diante de fatos tão complexos para a sociedade.

Confira o vídeo completo (em inglês) de Caitlin Doughty, em seu canal Ask A Mortician, sobre o Massacre de Columbine:

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