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Crânio

Precisamos falar sobre a importância de Maya Angelou

A poeta e ativista tornou-se uma das mais importantes vozes dos movimentos de direitos civis dos anos 1960

Por Anne Caroline Quiangala

Em 4 de abril de 1928 nasceu no Missouri (EUA) a ativista, poeta, performer, professora, atriz, diretora e (muito mais!), Margaret Ann Johnson, conhecida internacionalmente como Maya Angelou. Ao longo de 86 anos, ela se ergueu da dor que a consciência das violências vividas num mundo tão hostil, e alcançou lugares impensáveis para pessoas como ela (e como nós) do ponto de vista opositor, dialogando, ensinando, expressando fina arte.

“Como eu, nascida negra num país branco, pobre numa sociedade em que a riqueza é adorada e buscada a todo custo, mulher em um ambiente que apenas grandes embarcações e algumas locomotivas são favoravelmente descritas com pronome feminino – como consegui tornar-me Maya Angelou?”

Sua trajetória de vida, relatada em 7 autobiografias de absoluta literariedade, além de ter expandido o gênero com apropriação de elementos do romance, da poesia e música, corporifica as experiências, elabora e traduz as vozes de inúmeras mulheres negras da diáspora. Não falo isso sugerindo que todas nós nos identificamos estritamente com a sua história, mas com a compreensão, a observação de que “o amor, não como sentimentalismo, mas como uma condição forte que pode muito bem ser o que mantém as estrelas em seus lugares no firmamento e faz o sangue fluir disciplinada mente por nossas veias“.

Por mais que uma das primeiras referências sobre ela sejam a sua dolorosa autobiografia, a superação que ela representa não é uma corriqueira ideia de motivação ou positividade; é a inspiração que finca raízes na consciência, por sua vez, alimentada pela dignidade que o amor, não apenas cura, como ensina.

Com a separação dos pais, aos três anos de idade, ela e o irmão mais velho, Bailey, foram mandados para a casa da avó paterna de trem, sozinhos. Neste lar, não tiveram o “amor convencional” de beijos e abraços, mas consolidou-se a base para uma autoestima saudável, senso de dever, companheirismo, respeito e autoconfiança. Bailey foi uma figura muito importante, afetivamente, aconselhava, ouvia e desafiava:

“Aprenda tudo: guarde no cérebro”

Segundo Angelou, no documentário Maya Angelou, e Ainda Resisto, essa frase, bem como a certeza da sua avó de que ela seria uma grande oradora, preconizou uma das habilidades mais marcantes da autora: a capacidade de memorizar obras inteiras e ainda declamar com uma vivacidade particular, mesclando fala, atuação e cânticos.

Em 1993, Maya recitou On the Pulse of Morning na cerimônia de posse de Bill Clinton, algo que não acontecia desde 1961, quando Robert Frost recitou na posse de John F. Kennedy. Bem antes disso, aliás, ela lutou pelos direitos civis conversando com lados opostos de Martin Luther King e Malcolm X; conheceu vários países do continente africano e se estabeleceu em Gana, onde trabalhou como editora de um importante jornal, além de ter sido professora universitária.

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Pela marca Caveirinha, da DarkSide Books, Maya Angelou juntou-se ao cultuado artista Jean-Michel Basquiat, que criou fortes representações visuais para A Vida Não Me Assusta, potente poema de Angelou que foi transformado em livro infantil por Sara Jane Boyers. Lançado há 26 anos nos Estados Unidos, somente em 2018 chegou ao mercado brasileiro. Uma verdadeira pérola literária que serve de incentivo para que crianças de todas as idades enfrentem seus medos.

Suas conquistas são incontáveis para um texto tão curto como este, mas podemos afirmar que a importância de Maya Angelou, assim como de sua obra, transcende os campos da arte, da política, e da ideia corriqueira de sabedoria.

Se bell hooks reafirmou que “O amor cura”, Dra. Maya Angelou vivenciou isso, passando pelo silêncio, e transformando a linguagem e ação. Ela vivenciou, escreveu e instruiu a  todas nós, nos direcionado ao caminho dum amor e respeito tão profundo que se consolida como dignidade.

Publicado originalmente no blog Preta, Nerd & Burning Hell

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