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Precisamos falar sobre morte

A morte precisa ser encarada como, de fato, é: um processo normal e inevitável. Caitlin Doughty nos convida a pensar dessa forma

Você vai morrer.

A consciência da própria mortalidade é uma das principais coisas que nos diferenciam dos outros animais. Apesar disso, vivemos em uma cultura cuja negação da morte como aspecto natural do desenvolvimento humano está extremamente enraizada. De eufemismos a funerais-relâmpago, passamos a vida tentando evitar a morte: não queremos falar sobre ela, não queremos entendê-la, não estamos dispostos a fazer as pazes com ela, e com isso perdemos valiosas lições de como caminhar pela vida de forma mais consciente e criativa.

Em 2016, eu li pela primeira vez Confissões do Crematório, da Caitlin Doughty, publicado pela DarkSide Books. Esse livro mudou a minha vida. A minha relação com o que eu consumia a respeito da morte era meio superficial e basicamente ditada pela cultura pop. Confissões do Crematório foi o livro que, sem querer, foi introdutório para minha imersão na tanatologia, nos estudos da morte, e é algo que hoje eu falo com tanta empolgação quanto a própria autora, em seu canal do YouTube, Ask a Mortician.

Ao longo de 250 páginas, a historiadora e agente funerária Caitlin Doughty relata os anos em que trabalhou em um crematório de São Francisco, Califórnia, e fala sobre como lidar diretamente com a morte de uma maneira tão palpável viria a mudar sua forma de encarar a própria mortalidade — e, indo além, a questionar a forma como a sociedade ocidental encara a morte atualmente.

O relato de Doughty é transformador porque ela não fala de morte pela morbidez ou para parecer diferente, afinal a morte é universal. Ela fala porque todos nós vamos morrer. Ainda assim, a maioria das pessoas vive num estado total de negação desse fato, e quando a morte bate à porta, ficam desesperadas, desamparadas. A indústria funerária se aproveita muito desse momento de fragilidade da perda e do luto, e é uma das críticas mais severas da autora.

Confissões do Crematório funciona porque não é apenas o relato de uma jovem meio gótica que decidiu praticar a teoria ao trabalhar na empresa funerária. Ao intercalar relatos sobre mortos reais que preparou e cremou com referências históricas (em um livro cheio de notas bibliográficas) e até mesmo um pouco de cultura pop, temos uma obra incrível que apresenta o leitor ao tema mais pertinente de nossas vidas e o faz, no mínimo, perceber a morte como um processo normal e inevitável, extremamente singular em seus rituais. No final, fica evidente que hoje há um ato coletivo de distanciamento da morte, uma repressão coletiva, que nos prejudica muito enquanto sociedade.

No segundo livro dela, Para Toda a Eternidade, lançado recentemente pela DarkSide Books, Caitlin Doughty nos propõe outra reflexão: a de encarar a morte sob a ótica de outras culturas nos tempos modernos. Temos muito a aprender com a morte.

O historiador Philippe Ariés dedicou boa parte de sua vida a investigar a relação do homem com a morte na história em livros como O Homem Diante da Morte e História da Morte no Ocidente. Em sua obra, é possível ver que a relação do homem ocidental com a morte, no passado, era de proximidade e familiaridade. Conscientes da própria mortalidade, ela era aguardada como algo natural e os rituais envolvendo funerais e sepultamento eram tão importantes quanto qualquer outro. E até bem pouco tempo atrás, não havia esse esforço coletivo de repressão e ocultamento dos nossos mortos, onde a responsabilidade pelos cadáveres é transferida para hospitais e casas funerárias, e em muitos casos são enterrados tão rapidamente que sequer temos tempo de processar a informação de que mais uma vida acabou.

Um dos principais motivos para não conversarmos sobre isso é porque temos medo de morrer. Algumas variáveis são importantes na construção desse medo, que não é inato aos seres humanos, mas se desenvolve bem cedo: crenças religiosas, exposição à morte de outras pessoas, o próprio desenvolvimento emocional. Mesmo sem contato direto com a morte, é possível desenvolver um medo paralisante da própria morte ou de pessoas significativas. E por mais que acreditemos que somos imunes a este medo, ele pode estar disfarçado ou extremamente reprimido. E por que isso é ruim?

O antropólogo Ernest Becker, em seu premiado livro A Negação da Morte, publicado em 1973, traça um parâmetro entre filosofia, psicologia e sociologia e conclui que a repressão da morte é uma fonte inequívoca de grande parte do comportamento ocidental moderno, assim como de seus problemas. Para ele, “a motivação básica do comportamento humano é nossa necessidade biológica de controlar uma ansiedade básica, que é negar o horror da morte”.

Compreender que o medo da morte é universal pode ser um importante passo para começarmos a falar sobre isso. A psicóloga brasileira Maria Júlia Kóvacs, especialista no assunto, apresenta que a morte começa quando não levamos em conta que a morte existe, porque nos incomodamos e preferimos não vê-la. No entanto, é justamente a consciência de que o tempo que temos enquanto humanos é limitado, por mais reprimido que isso seja, é o que nos confere sentido à vida, é o combustível que nos move. Sem a consciência da morte, ficamos paralisados. O escritor Franz Kafka arremata o pensamento ao dizer que “o sentido da vida é que ela termina”.

“A ignorância não é uma benção, é só um tipo mais profundo de pavor.”

Precisamos do simbolismo da busca pelo sentido da vida enquanto mortais para que nossos atos justifiquem a nossa existência. Caitlin Doughty afirma que “a morte pode parecer destruir o sentido das nossas vidas, mas na verdade ela é a fonte da nossa criatividade”. Enquanto ignoramos nossa própria mortalidade, a própria vida fica desprovida de significado.

A conclusão a que Doughty chega em Confissões do Crematório é de que alguma coisa se rompeu na forma como lidamos com a morte, e seu livro é um relato concreto da realidade dessa afirmação. O primeiro passo para mudar essa realidade é aceitar falar sobre isso, não de forma mórbida ou fatalista, mas com a naturalidade que o assunto exige. Entender a morte é entender a nós mesmos.

Anna Costa é estudante de Psicologia e mantém um canal no Youtube sobre literatura e psicologia.

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