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A representatividade negra na arte também liberta

É preciso quebrar o silêncio: ao compartilhar visibilidade na arte, colaboramos com a desconstrução de estereótipos e discursos problemáticos.

Por Milena Souza

No dia 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada a fim de libertar milhares de escravos que ainda existiam no Brasil e proibir a escravidão no país. A abolição, no entanto, não resolveu questões essenciais para a verdadeira libertação social e cultural dos negros na sociedade brasileira, e a data, até hoje, precisa ser encarada como uma reflexão do caminho a ser percorrido. A luta de pessoas negras para levantar seu próprio espaço é constante. Para combater o racismo estrutural, pessoas negras foram, aos poucos, conseguindo mais autonomia e espaço para finalmente serem livres.

Em Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror nos deparamos com um estudo profundo da representação dos negros no cinema de gênero ao longo das décadas para visualizar a grande luta pelo grito de liberdade. 

A dra. Robin R. Means Coleman, professora adjunta no Departamento de Estudos da Comunicação e no Centro de Estudos Afro-Americanos e Africanos da Universidade de Michigan, traz um estudo enriquecedor que conduz o leitor ao longo das décadas do cinema, explanando sobre como os negros foram representados e “explorados” dentro do gênero. Desde O Nascimento de uma Nação (1915), passando pela Era Blaxploitation, até chegar à Corra! (2017), que se tornou um dos maiores marcos do cinema. 

Conseguimos visualizar o quanto o racismo estrutural está impregnado através dessas representações. Aos artistas negros sempre eram reservados os papéis de empregados domésticos. Eram personagens secundários invisibilizados tanto na trama quanto nos créditos dos filmes. Estereótipos foram criados e reforçados constantemente, fazendo com que o cinema apagasse o que de fato acontecia no cotidiano: corpos negros estavam sendo violentados incansavelmente.

O racismo estrutural é o motivo para que a invisibilidade de pessoas negras aconteça, fazendo com que a sociedade se sustente neste argumento para não se responsabilizar sobre o ato. O racismo estrutural é o motivo para não abrir espaço para que a representatividade aconteça, pois o racismo se torna velado dando permissão para as pessoas fazer o que bem entenderem. Dessa forma, a imagem de pessoas negras foi formada para promover entretenimento em papéis insignificantes e carregados de estereótipos. 

Foi com o Blaxploitation que esses tropos foram explorados como forma de criticar Hollywood. A população negra queria mostrar que não estava ali apenas para papéis secundários ou serem marginalizados e, sim, para atuar, construir roteiros, dirigir, trazer impecáveis trilhas sonoras e infinitas críticas sociais. Os filmes causavam um certo espanto, pois não tinham filtros, alguns exacerbaram violência e cenas de sexo, mas com o propósito de denunciar como a sociedade os via. Além de explorar fragmentos do gênero horror, os filmes exploram o horror cotidiano.

Por mais que a década de 1970 tenha sido muito importante para levantar a bandeira de que negros estavam realmente presentes, também foi carregada de problemas. O Blaxploitation trazia violência contra a mulher negra — que era vista como objeto sexual, além de exposta ao estupro, abuso e solidão. As mulheres duronas nos filmes eram sempre brancas, isso se especifica em um ponto marcante do livro, onde a dra. Coleman diz que “assim como a garota final branca, as mulheres negras encaram a morte. Contudo, essas mulheres negras não estão lutando contra algum bicho-papão; elas geralmente lutam contra o racismo e a corrupção“. Um dos papéis marcantes da era Blaxploitation foi a de Pam Grier como Lisa em Os Gritos de Blácula (1973). A personagem se tornou inovadora, pois era vista como “esperta e heroica”, porém não foi explorada a fim de colocá-la como ícone de representação.

LEIA TAMBÉM: CONHEÇA O CONCEITO DE ‘NEGRO MÁGICO’ NOS FILMES DE HOLLYWOOD

Houve muita problematização na era Blaxploitation, mas não se pode deixar de lado a importância do movimento para dar espaço a pessoas negras nos filmes. Com o passar dos anos, um esforço considerável vem sendo feito para quebrar estereótipos e desenvolver a presença negra no cinema, levantando pautas e discussões incontornáveis, mas há um longo caminho a ser percorrido. O racismo estrutural carrega problemas e faz com que as pessoas se sintam confortáveis com seu preconceito sem serem punidas por isso, e, quando expostas, colocam um pedido de desculpas torto que não vem acompanhado de reflexão e desconstrução. O não entendimento verdadeiro do problema alimenta o ciclo para que se reinicie.

Horror Noire é um estudo aprofundado de como a representação negra no cinema se desenvolveu ao longo das décadas, mas, além de fazer esta provocação, nos mostra como pessoas negras são violentadas, subjugadas e marginalizadas em todas as esferas, evidenciando a importância de abrir espaços cada vez mais representativos. A presença negra não serve apenas para ser monstruosa, objetificada e colocada como coadjuvante. 

LEIA TAMBÉM: A REPRESENTAÇÃO NEGRA NO CINEMA DE TERROR AO LONGO DAS DÉCADAS

Com o passar dos anos, vemos que mais pessoas negras estão tomando espaços importantes. Ainda temos um longo caminho a percorrer. Em seu discurso “O perigo de uma história única“, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie diz que: “a história única cria estereótipos, e o problema com estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que a história se torne a única história”.

Então, além da reflexão que o dia 13 de maio nos traz, abrimos espaço para consumir histórias de pessoas negras que são invisibilizadas diariamente. Pessoas que são tão protagonistas quanto quaisquer outras, e têm suas histórias para contar a fim de se tornarem representativas e não apenas representadas. 

Afinal, quando, na arte, retratamos a existência de mais verdades, a liberdade vem.

Milena Souza é blogueira literária e estudante de Jornalismo. Apaixonada por livros de fantasia e terror psicológico, se dedica principalmente à obras que promovam a visibilidade e representatividade negra na arte. Posta regularmente em seu instagram @enevoadaa.

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