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Como a realidade alimenta o horror na obra de Agustina Bazterrica

Ela nos lembra que há algo mais terrível do que as ficções

23/05/2025

Como eu já disse aqui antes, Agustina Bazterrica é, pessoalmente, tudo o que seus livros não são: simpática, divertida, de riso fácil. Uma contradição que só aumenta o fascínio por sua literatura, onde mundos austeros e violentos se desdobram em narrativas que cutucam feridas sociais. Em Saboroso Cadáver e Dezenove Garras e um Pássaro Preto, ambos lançados pela DarkSide® Books, a autora argentina transforma o cotidiano em matéria-prima para o horror – e o resultado é tão perturbador quanto irresistível.

LEIA TAMBÉM: Agustina Bazterrica: “Todo tipo de fanatismo é um tipo de violência”

A realidade, para Bazterrica, não é apenas inspiração: é combustível. Seu conto “Roberto”, escrito aos 19 anos, nasceu das experiências de assédio que viveu na adolescência. “Sempre tive a sensação de que, por ser mulher, qualquer coisa pode te acontecer a qualquer momento”, revela. O mesmo vale para “As Caixas de Unamuno”, inspirado em um chefe que colecionava unhas cortadas em caixinhas: “Aquilo me fez pensar: aqui há um serial killer em potencial“. Até mesmo histórias ouvidas de passagem, como a de uma amiga que encontrou uma prótese dentária caída no chão antes de descobrir um corpo no quintal, viram ficção em suas mãos.

saboroso cadáver

Essa matéria crua do real ganha camadas de violência e ironia pelas palavras de Agustina. Em Saboroso Cadáver, a distopia canibalística questiona não apenas a ética do consumo de carne, mas como a linguagem é manipulada para normalizar atrocidades. Já em Dezenove Garras…, contos como “Um Som Leve, Rápido e Monstruoso” misturam humor ácido e surrealismo para falar de abuso, solidão e morte. “Existem mortes em vida. Se você é abusada, uma parte de você morre“, reflete.

O que poderia ser apenas chocante, porém, torna-se algo maior graças ao seu olhar afiado para a linguagem. Influenciada por Clarice Lispector e pela tradição fantástica argentina (de Silvina Ocampo a Cortázar), Agustina esculpe frases como facas: curtas, precisas, capazes de desmontar convenções. Seus personagens não são vítimas passivas, mas corpos que resistem. Mesmo quando a resistência parece impossível.

E o horror? Na obra dela, aparece menos no sobrenatural e mais no reconhecimento de que o verdadeiro monstro raramente tem garras ou presas. Pode ser um vizinho, um chefe, um desconhecido no trem. Ou, como ela mesma diz, “o pior que pode acontecer com um livro é ser lido e esquecido”. Se a literatura de Agustina permanece conosco, é porque ela nos obriga a encarar aquilo que preferiríamos ignorar – e, nesse processo, nos lembra que a realidade, muitas vezes, é a mais terrível das ficções.

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Sobre Liv Brandão

Avatar photoJornalista, criadora de conteúdo e roteirista. Passou por veículos como O Globo e UOL sempre falando de cultura e entretenimento. É especialista em séries de TV, mas também fala de filmes, música, literatura e o que mais vier.

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