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DarksideEntrevista

Agustina Bazterrica: “Todo tipo de fanatismo é um tipo de violência”

Autora de Saboroso Cadáver e Dezenove Garras e um Pássaro Preto está no Brasil

25/05/2023

Agustina Bazterrica é simpática, divertida, gentil. Totalmente diferente dos mundos austeros, duros, violentos que ela cria em obras como Saboroso Cadáver e Dezenove Garras e um Pássaro Preto, recém-lançado pela DarkSide® Books aqui no Brasil. A escritora argentina, de 49 anos, está de passagem pelo Brasil para promover seu mais novo livro de contos e conversou com o DarkBlog sobre literatura, inspirações e sobre… gatos.

LEIA TAMBÉM: CANTORA DE ÓPERA? VEJA CURIOSIDADES SOBRE AGUSTINA BAZTERRICA

DarkBlog: Com Saboroso Cadáver, o público brasileiro finalmente teve a chance de entrar em contato com a sua obra. Você tem uma ligação muito forte com o país, graças à sua irmã e seus sobrinhos, que vivem aqui. Como tem sido a recepção dos brasileiros?

Agustina Bazterrica: Positiva. Não se nota só na quantidade de livros vendidos, que foram um montão! Por sorte. Mas também nas redes, nas pessoas que me marcam, que comentam, que escrevem para mim. Tudo que está acontecendo com este livro é um privilégio. Sinceramente, estou muito feliz. 

D: Saboroso Cadáver foi descrito como “horrível”, “perturbador” e “depravado” — e tudo isso eram elogios! Como você recebeu essas análises?

AB: Extraordinário! Digo, nada é melhor que um livro que gera questões. Com este livro, uma pessoa, uma mulher me denunciou para a Sociedade Argentina de Escritores porque estava ofendida com o fim. Ela foi até a Sociedade Argentina de Escritores para me denunciar! O que me parece belo. A Sociedade Argentina de Escritores não pode fazer nada, eu não sei como eles receberam esta mulher, mas me parece belo que um livro gere isso numa pessoa. Essa reação. Porque, como sempre falo, o pior que pode acontecer com um livro é ser lido e esquecido. Se bem que eu não acredito na eternidade das coisas, me interessam os vínculos que o livro causa, ir nas escolas para falar com adolescentes, o que faço sempre, vir ao Brasil, viajar para outros países, bom, isto é o que me importa.

D: E qual foi a reclamação?

AB: Eu teria que falar do final do livro!

D: Ops, sem spoilers!

AB: Sem spoilers!

saboroso cadáver

D: Saboroso Cadáver conquistou público e crítica ao redor do mundo: quais dos elementos da sua escrita que cativaram as pessoas podemos encontrar em Dezenove Garras e Um Pássaro Preto?

AB: Dezenove Garras e Um Pássaro Preto é muito diferente, porque alguns dos contos têm muito humor e a ironia. E esses contos também foram escritos utilizando vários registros, cada conto é diferente do outro. Porque o que me interessa não é só contar uma história, um argumento, mas como é que vou narrá-los. Isso é o mais importante para mim. Em Saboroso Cadáver tem um tipo de linguagem, de registro, que é austero, narrativo, visual. São frases curtas, elas vão como que batendo no leitor. E aqui tem uns contos mais poéticos, há um escrito em um espanhol neutro, que parece artificial para um argentino, e isso foi proposital. Tem uma instância ou clímax que pode ser encarado como terror porque trabalha com a violência, trabalha com a morte. Mas espero que a experiência da leitura siga outro caminho. Espero que cada conto seja um pequeno universo em si mesmo. Tem contos, inclusive, curtinhos. 

D: A sensação de ameaça — seja de agressão, assassinato, assédio — permeia todo Dezenove Garras e um Pássaro Preto. Quais episódios te inspiraram a escrever esses contos?

AB: Experiências que eu vivi. Por exemplo, eu escrevi “Roberto” quando tinha 19 anos. Naquele momento eu não era feminista porque estudei numa escola religiosa e não se falava em feminismo na minha época, mas sempre tive a sensação de que, por ser mulher, qualquer coisa pode te acontecer a qualquer momento em qualquer lugar. De fato, nós saíamos da escola de uniforme e sempre havia um homem nos perseguindo e falando barbaridades. Já me aconteceu de entrar num trem e ver um homem se masturbando na minha frente. Tudo bem, não fui diretamente abusada, mas sofri esses microabusos cotidianos. “Roberto” surgiu disso, hoje eu penso nisso, mas quando eu o escrevi não pensei nesses termos. 

Tem outro conto, inspirado num fato real, que é aquele do som, da mulher que vê cair uma próstese dentária e depois cai o vizinho. Isso aconteceu com uma colega da faculdade, ela me contou isso em 5 minutos num grupo de estudo. Tem outro que é “As caixas de Unamuno”, o primeiro do livro, inspirado por um ex-chefe meu que guardava suas unhas em caixinhas no seu escritório. Difícil. Eu vi aquilo e pensei: tenho que escrever sobre isso porque aqui tem um assassino em série em potencial. Assim surgiu esse conto, e outros que foram surgindo a partir de imagens.

“O pior que pode acontecer com um livro é ser lido e esquecido. Se bem que eu não acredito na eternidade das coisas, me interessam os vínculos que o livro causa.”

D: A morte é um tema recorrente também em Dezenove Garras, qual reflexão você tira da ligação da sua obra com a morte?

AB: Bom, a morte é o tema universal. O grande tema. E é muito fácil cair em lugares comuns porque a morte afeta a todos, a não ser que exista algum ser imortal vagando por aí. Mas a princípio ela afeta a todos. São esses temas sobre os quais sempre se tem perguntas porque não temos as respostas. Sempre podemos especular, inventar deuses, inventar céus e infernos, que podem existir ou não, não sei. A morte atravessa toda minha literatura porque está aí e porque também existe violência nisso, depende de como… e também acho que existem mortes em vida, se você é abusada, bom, existe uma parte de você que morre, que é irrecuperável. Também existem boas mortes neste livro, como o orgasmo, a lentidão do prazer, tem diferentes tipos de mortes.

D: Em entrevista recente ao [jornal britânico] The Guardian, você disse que estava planejando transformar uma das histórias de Dezenove Garras e um Pássaro Preto em um romance. Como está esse projeto? Pode falar mais?

AB: Finalizei um romance recentemente e estou pensando transformar o conto “Um Som Leve, Rápido e Monstruoso”, que está nesse livro, em romance. Porque, de fato, no início ele era um romance, e eu transformei o primeiro capítulo dele em um conto porque queria publicá-lo numa revista argentina que era muito famosa. E só agora entendi como continuar, faltavam elementos do quebra-cabeça, e como agora eu achei esses elementos, quero voltar a ele e ir para outro lugar.

dezenove garras e um pássaro preto

D: Muita gente aderiu ao vegetarianismo/veganismo depois de ler as cenas marcantes de Saboroso Cadáver. Como você avalia esse impacto? Você acha que é possível algum efeito do tipo com Dezenove Garras e um Pássaro Preto? Se sim, qual?

AB: Eu não escrevi Saboroso Cadáver para converter carnívoros em vegetarianos. Não me interessa seguir esse caminho porque eu não sou uma vegetariana radical, acho que todo tipo de fanatismo é um tipo de violência e eu não tenho motivo para convencer você a pensar como eu, de colonizar sua mente, como dizia Saramago. E o mesmo acontece com Dezenove Garras. O que me interessa com os livros é expressar reflexões, perguntas, que surjam novas perguntas. Mas bem, tem esse conto, “Roberto”, sobre uma menina que tem um coelho entre as pernas. Eu o li para um podcast onde me filmaram. Eu estava descabelada, não tinha dormido, tinha viajado. Um desastre! Imaginei que não seria filmada num podcast, mas fui. Ele teve quase 4 milhões de visualizações no TikTok, e acho que foi porque é um conto relacionado com o abuso. Esses são temas que intimam, que tocam as pessoas. 

D: Tem vontade de adaptar algum de seus contos para o audiovisual? Se sim, qual, e por quê?

AB: Acho que gostaria que “Roberto” fosse adaptado para um curta-metragem, e talvez “Um Som Leve, Rápido e Monstruoso” poderia ser um filme, ou mesmo uma série, se fosse desenvolvido. “As Solitárias” poderia ser uma curta, aquele de uma mulher que está no metrô. Mas, sim, eu adoraria!

D: Em suas redes sociais, você fala muito de livros e de gatos. Alguma chance de os gatos virarem o personagem central de um de seus livros?

AB: Sim, no meu mais recente romance tem um gato, mas nunca se diz que ele é um gato. 

LEIA TAMBÉM: 5 CURIOSIDADES SOBRE DEZENOVE GARRAS E UM PÁSSARO PRETO QUE AUMENTAM A NOSSA EXPECTATIVA PELO LIVRO

Sobre Liv Brandão

Avatar photoJornalista, criadora de conteúdo e roteirista. Passou por veículos como O Globo e UOL sempre falando de cultura e entretenimento. É especialista em séries de TV, mas também fala de filmes, música, literatura e o que mais vier.

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