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DarksideNa Estrada com Serpentes & Serafins

Juízo Final em Vicenza

O Teatro dos Deuses em Serpentes & Serafins

06/03/2026

A cultura do Ocidente sedimentou a ideia do Apocalipse como um Armagedom nefasto e amedrontador, como um literal julgamento no qual Deus e seus anjos separarão os puros dos pecadores, os justos dos infiéis, dando aos primeiros as benesses do céu e aos demais os tormentos do inferno ou da morte. É dessa visão que advém imagens medonhas de sofrimento, como exemplificado em cenas medievais como as de Giotto di Bondane (1306) ou então nas renascentistas de Michelangelo (1535), Raphael Coxcie (1550) e Marten de Vos (1570), que vemos abaixo, entre outras dezenas.

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Mas “apocalipse”, no sentido grego original, quer dizer tão somente “revelação”. Trata-se do desvelar de segredos, visões e conhecimentos que podem levar quem os contempla a novas e profundas compreensões da realidade, como sucedeu a João no último livro da Bíblia. No caso de Serpentes & Serafins, depois de peregrinarmos por São Paulo, Berlim, Madri e Sintra, chegamos agora ao clímax da trama, que tem como palco a bela cidade de Vicenza, em um cenário igualmente fascinante e insólito: o Teatro Olímpico. 

Em um espaço consagrado a deuses pagãos, nosso protagonista e viajante Alex reencontrará os anjos Barachiel e Samael, além de uma horda de anjos surgidos diretamente da tradição judaico-cristã. A união entre visões antagônicas é a espinha dorsal deste romance, um livro que leva seus leitores a repensarem visões tradicionais de arte, fé, corpo e salvação. E nenhum lugar no mundo seria tão perfeito para esse encontro — apoteótico e apocalíptico — quanto o Olímpico.

O Teatro Olímpico foi construído entre 1580 e 1585 na charmosa cidade italiana de Vicenza, a pouco mais de 70 quilômetros de Veneza. Seu idealizador, o mestre Andrea Palladio, não chegou a ver em vida o resultado final de sua obra-prima. A estrutura arquitetônica, com seu auditório coroado por estátuas de divindades clássicas, acabou ficando à sombra do cenário permanente criado por Vincenzo Scamozzi para a apresentação de Édipo Rei, em 1585.

O cenário, que apresenta um horizonte distante e infinito, oferece aos espectadores uma visão das sete ruas de Tebas, a cidade que serviu de pano de fundo para o drama dos labdácidas. A construção cênica foi tão elogiada, com seus blocos de madeira e estuque imitando mármore, que ninguém teve a coragem de desmontá-la após a estreia. Na Renascença, o teatro foi usado, assim como o Globe de Shakespeare, como um modelo mnemônico para os praticantes da “Arte da Memória”, prática estudada por uma das mestras de Alex, a historiadora inglesa Frances Yates.

Quatro séculos depois, o Olímpico continua recebendo concertos, peças e filmagens. Em uma cena emblemática de O Retorno do Talentoso Ripley (2002), dirigido por Liliana Cavani, temos uma belíssima apresentação musical dentro de suas dependências. Como Alex rememora em Serpentes & Serafins:

“No Olímpico, todo e qualquer visitante, fosse ator, músico ou estudioso, mergulhava nas ruas da imortal cidade dionisíaca, sob o austero olhar de deuses pagãos imemoriais. A ironia daquele dia era que o teatro pagão e sua cena tebana estavam prestes a receber literais entidades divinas, anjos sombrios e demônios de luz.”

A busca de Alex pelos mistérios da fé e da religião nunca foi uma trilha de certezas dogmáticas, mas um percurso perpassado por poesia e ciência, onde o racional e o sagrado se tocam de forma inquietante. Nas páginas de Serpentes & Serafins, esses enigmas convergem para a obra de um artista tão fascinante quanto misterioso: Emanuel Illians. É através das criações de Illians que Alex vislumbra que a espiritualidade pode ser codificada em símbolos e que a arte, em sua instância máxima, é o único solo capaz de sustentar o peso de uma presença angélica.

Nesse “apocalipse vicentino”, as cortinas entre o visível e o invisível se rasgam, revelando uma aparição que é tanto do espírito quanto do corpo. Como William Blake, que entendeu que o juízo final é uma metáfora para nossas experiências de paixão e imaginação, convido você, leitor, a também testemunhar um evento onde sonho e realidade, corpo e desejo, salvação e perdição, se confundem. Trata-se de um convite para cruzar o arco de Tebas e descobrir que a verdadeira revelação não está no fim do mundo ou da humanidade, mas no despertar da consciência individual.

Afinal, a arte do grande enigma que é Emanuel Illians não oferece respostas fáceis, mas sim a experiência sublime do confronto com o sagrado. Prepare-se para o ato final de Serpentes & Serafins. No Teatro Olímpico, as estátuas observam, os anjos descem e a verdade, enfim, se revela em toda a sua terrível e bela magnitude.

serpentes e serafins

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Sobre Enéias Tavares

enéias tavaresEnéias Tavares é escritor e professor de literatura clássica, com especialização acadêmica nos livros iluminados de William Blake e na tragédia de William Shakespeare. Publicou pela DarkSide Books os romances Parthenon Místico e Lição de Anatomia, ambos integrando o universo da série Brasiliana Steampunk. Também para a Caveira, organizou e prefaciou O Retrato de Dorian Gray, A Máquina do Tempo, O Rei de Amarelo e O Grande Deus Pã. Além de consultor editorial para a marca Sociedade Secreta, atua como diretor do ORC Studio de Economia Criativa e da Editora da UFSM. Saiba mais em eneiastavares.com.br.

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