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Medo Clássico

A literatura sombria e o olhar apurado de João do Rio

João do Rio deu ares de literatura ao jornalismo, observou cada detalhe das ruas e criou um dos contos mais assustadores da nossa língua

O jornalista Paulo Barreto nasceu no Rio de Janeiro como João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, e adotou o pseudônimo de João do Rio para a literatura. Em 1910, João do Rio (1881–1921) entrou para Academia Brasileira de Letras (ABL), onde passaria a conviver com escritores que já havia entrevistado para seus famosos artigos em jornais e reportagens, mas também teve de conviver com seu grande desafeto, Humberto de Campos (1886–1934), que entraria para a instituição mais tarde.

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A presença do rival o levou a se desligar de vez da instituição, a ponto de nem mesmo seu velório — após morrer de infarto dentro de um táxi — ter sido realizado na ABL, como é a praxe entre todos os membros da entidade. Na cerimônia, uma das maiores da história do Rio de Janeiro, estiveram presentes cerca de 100 mil cariocas, uma demonstração clara da popularidade do brilhante jornalista e escritor.

Atento a tudo que acontecia nas ruas, João do Rio viu sua cidade mudar, se transformar e alterar para sempre o modo de vida de seus conterrâneos — ele sabia retratar a alma da rua em palavras e não escondia suas bizarrices. Se Álvares de Azevedo se inspirava em Lord Byron para criar suas brilhantes histórias, João do Rio também tinha seu ídolo e inspiração-mor: Oscar Wilde (1854 – 1900).

João do Rio na ilustração de Lula Palomanes, presente em Medo Imortal
João do Rio na ilustração de Lula Palomanes, presente em Medo Imortal


Em Medo Imortal, o carioca surge com dois contos. No primeiro, Dentro da Noite, João do Rio traça um retrato assustador, bizarro e mórbido da perversão humana, explorando as mais diversas formas de manifestação do horror. Em meio ao caos da modernização do Rio, no final do século XIX e começo do século XX, o autor aborda os mais difíceis temas, conseguindo até causar repulsa com descrições minimamente detalhadas das atrocidades cometidas por seus personagens. Para estimular ainda mais a imaginação e a atmosfera sombria, o enredo da história se passa em um trem de subúrbio do Rio.

“Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer O desejo, porém, ficou, cresceu, brotou, enraizou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cosê-los devagarinho, a picadas.”

João do Rio deu à crônica jornalística traços marcantes da literatura, como viria a fazer anos depois, nos Estados Unidos, o lendário Truman Capote com o chamado New Journalism. O discurso real e ficcional se misturam na obra de João do Rio. Seu segundo conto presente em Medo Imortal chama-se O Bebê de Tarlatana Rosa, publicado em 1910, e fala sobre o  encontro do personagem Heitor de Alencar com um misterioso indivíduo fantasiado de bebê durante o Carnaval carioca. João do Rio coloca magistralmente aspectos aterrorizantes na história com a festa carnavalesca mais famosa do mundo como pano de fundo – há também a atmosfera criada em torno da figura do bebê vestido de tecido rosa. Não se sabe, de fato, se o bebê é homem ou mulher, caveira, cabeça retirada do corpo ou então uma pessoa deformada. O Bebê de Tarlatana Rosa é um dos contos mais conhecidos (e sombrios) do autor.

“Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixo batendo, ardendo em febre.”

De inegável talento, João do Rio criou o retrato da época em que viveu aliando o olhar apurado de jornalista ao total controle de seus personagens e à sua escrita rápida, quase ofegante de pavor. Autor de estilo único, mulato, gordo e gay — em uma época ainda mais preconceituosa, machista e sexista do que essa em que vivemos —, ele marcou seu nome na literatura brasileira e faz parte dos imortais da ABL, sendo o segundo ocupante da cadeira de número 26. No dia de seu falecimento, então diretor do jornal A Pátria, João do Rio escreveu na seção diária que mantinha:  “Eu apostaria a minha vida (dois anos ainda, se houver muito cuidado, segundo o Rocha Vaz, o Austregésilo, o Guilherme Moura Costa e outras sumidades)…” E morreu naquela mesma tarde.

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