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Júlia Lopes de Almeida: conheça a história da primeira mulher da ABL

Inicialmente, a ABL não aceitava mulheres e a escritora não pôde ficar entre os imortais, mesmo tendo frequentado as reuniões de fundação

A cadeira de número 3 da Academia Brasileira de Letras (ABL) guarda uma história de injustiça no meio literário que nos ensina sobre a importância do protagonismo feminino em nossa atual sociedade. A escritora Júlia Lopes de Almeida mostrou a importância de sua obra em meio a uma época da história do Brasil extremamente sexista e conservadora. Mesmo participando de reuniões e contribuindo para a fundação da ABL, ela não foi escolhida para figurar entre os imortais da Academia. O motivo? Ser mulher. Seguindo o padrão francês das academias literárias época, a ABL, fundada em 1897, não aceitava mulheres. A cadeira que deveria ser da autora foi, então, concedida ao seu marido. Apenas em agosto de 1977 a Academia Brasileira de Letras passou a aceitar mulheres, com a entrada da escritora Rachel de Queiroz no seleto hall de autores.

Júlia Lopes de Almeida em ilustração de Lula Palomanes, presente em Medo Imortal

Júlia escreveu romances, contos, crônicas, ensaios e peças de teatro durante uma época em que mulheres que aspiravam qualquer profissão, além de cuidar do lar, eram explicitamente ignoradas — ou então, simplesmente substituídas por homens. Ao longo da História, muitas mulheres criaram, atuaram, escreveram e produziram belíssimos trabalhos nas mais diversas áreas do conhecimento. Mas os tempos eram ainda mais difíceis e conservadores, e o protagonismo sempre acabava indo parar nas mãos de seus maridos ou professores.

“Ninguém pode fugir ao destino, diziam todos; estaria então escrito que a sua sorte fosse essa que o pai lhe prometia — de matar a fome aos porcos com a carne da sua carne, o sangue do seu sangue?!” – Júlia Lopes de Almeida, na antologia Medo Imortal

Mulher de talento inegável com uma obra literária sólida, Júlia figura entre os 13 autores da antologia Medo Imortal, lançado pela DarkSide Books. No livro, que revela as principais produções de terror da literatura brasileira, Júlia assina seis contos. A injustiça histórica cometida pela ABL é reconhecida pela própria academia, tendo inclusive, sido abordada durante a posse do jurista e autor Joaquim Falcão, em 2018, que durante seu discurso relembrou a história de Júlia — atualmente, Falcão ocupa a cadeira número 3. A grandiosa produção literária da autora que contribuiu para a história da literatura brasileira segue viva — e com uma amostra de sua forte escrita, carregada de mistério, em Medo Imortal

“A beleza de Issira deslumbrou a corte; sua altivez fê-la respeitada e temida; a paixão do príncipe rodeou-a de prestígio e a condescendência do rei acabou de lhe dar toda a soberania.  O seu porte majestoso, o seu olhar, ora de veludo, ora de fogo, mas sempre impenetrável e sempre dominador, impunha-na à obediência e ao servilismo dos que a cercavam.” – Júlia Lopes de Almeida, na antologia Medo Imortal

Com o texto clássico de sua época e à frente de seu tempo, Júlia insere em suas obras diferentes pontos de vista e representa a mulher, colocando reflexões e mostrando, inclusive, a diferença de tratamento da sociedade. Nascida no Rio de Janeiro, em 1862, a autora se mudou para Portugal, onde conheceu seu marido, o poeta Filinto de Almeida, e lançou o livro Contos Infantis, em 1887, ao lado de sua irmã Adelina Lopes Vieira. Júlia se tornou uma das escritoras mais publicadas da Primeira República (1889-1930), chegando até a contribuir com artigos e matérias que abordam os direitos sociais e a vulnerabilidade da mulher de sua época nas principais revistas do meio.

O escritor Filinto de Almeida, que ocupou o lugar de sua esposa Júlia na ABL, aparece em uma foto clássica do grupo literário, formado por grandes autores da época, chamado Panelinha – criado em 1901, para a realização de festas e encontros de escritores e artistas. Na fotografia abaixo estão os escritores e intelectuais Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio, Heitor Peixoto. Sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos. No site da ABL, Almeida ainda aparece como um dos fundadores da instituição e ocupante da cadeira de número 3. Em 2017, o ciclo de palestras Cadeira 41, da ABL, reconheceu a injustiça e incluiu Júlia entre autores que poderiam ter entrado na instituição.

Adotando a perspectiva da ciência, Angela Saini discute em Inferior é o Car*lhø, publicado pela linha Crânio, o silenciamento e a inferiorização das mulheres ao longo da história, perpetrada por pesquisas e experimentos que não se sustentam — desde a proibição de cursar uma faculdade, frequentar laboratórios de ciência até afirmações absurdas baseadas no peso do cérebro feminino — 142 gramas mais leve que o masculino. Em uma época em que debates de gênero ganham cada vez mais força e se mostram importantes para toda a sociedade, conhecer a história da grande escritora Júlia Lopes de Almeida é entender como as mulheres que se aventuravam na produção literária  eram vistas — e, sobretudo, se dar conta de que vestígios de um sexismo enraizado em nossa sociedade ainda se fazem presente na jornada de inúmeras mulheres que lutam para conquistar seus espaços.


11 Comentários

  • Ana Maria Ferreira de Mello

    18 de julho de 2019 às 17:00

    Este fato demonstra o quão lenta foi a evolução do homem. Ainda estamos longe disso, haja vista a situação em que nos encontramos, correndo atrás daquilo do que não se sabe o quê.

  • Marco Severo

    19 de julho de 2019 às 07:06

    Por favor, publiquem um livro de contos só da Júlia Lopes de Almeida, ao invés de uma coletânea com outros escritores…. Ela merece!

  • Gisele da Silva

    20 de julho de 2019 às 12:33

    Sim, por favor!!
    Desde que conheci a história dela e a injustiça sofrida, que morro de vontade de ver um livro dela publicado. Que sejam vocês a tirá-la da obscuridade.

  • Luisa

    20 de julho de 2019 às 12:34

    Muito interessante. Também encontro tantas e tantas que os machos não deixaram brilhar.

  • Helena Rabaiolli

    22 de julho de 2019 às 21:42

    Uma mulher incrível

  • Vinícius Grijó

    26 de julho de 2019 às 18:35

    Esqueçamos a dualidade. O intelecto não tem sexo. Que um dia injustiças como estas sejam abolidas. Obrigado Dakrside. Você são tão preciosos e raros!!! Faço questão de divulgar gratuitamente o site de vocês para meus alunos.

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