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O Compressor de Ar Azul: conto tem overdose do humor cáustico de King

Cesar Bravo, autor de Ultra Carnem e VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, comenta a história de Stephen King presente no lançamento do selo Macabra

Por Cesar Bravo

Muito bem, e aqui vamos nós de novo, falar um pouco mais de um de nossos assuntos (e autores) favoritos: Stephen King e o seu conto O Compressor de Ar Azul. O Homem do Maine está devidamente abrilhantado em mais uma edição primorosa da DarkSide® Books, mas dessa vez King terá seus suaves pensamentos traduzidos em uma concepção Macabra. E nada disso é exatamente uma coincidência, principalmente se levarmos em conta uma palavrinha que a Macabra Filmes adora, e que inclusive faz parte de seu DNA: transgressão.

(Antes de chegarmos ao ponto, preciso dizer que o fato de eu ter recebido o convite para essa matéria talvez tenha alguma relação com essa mesma palavrinha, apenas um palpite…)

Conheci King quando a literatura se tornava um porre, e essa é a mais pura verdade. Como um bom fã do anarquismo, nunca aceitei a imposição de coisa alguma, muito menos dos livros que era obrigado a ler para conseguir avançar na escola. Não entendam essa parte como “O Cesar do passado odiava literatura”, seria bem mais justo que vocês pensassem em algo como “autoridade é um saco”.

Cesar Bravo – autor de Ultra Carnem e VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue

LEIA TAMBÉM: SOB A REDOMA DO REI

King me chegou em pequenos contos, em um livro todo ensebado e encardido pelo manuseio de um sem número de leitores: Sombras da Noite. Não conheci ‘Steve’ dissertando brilhantemente sobre o apocalipse nuclear ou viral, não o visitei pela primeira vez e fui apresentado a vampiros e poderes sobrenaturais, eu o conheci em uma fábrica, trabalhando em uma desbastadora de fibras, no conto chamado Último Turno.

Creio que todos saibam que, no começo de sua carreira, Stephen King morava em um trailer e publicava seus textos onde conseguia, e isso inclui a Playboy, a Penthouse e outras revistas que pagavam misérias por seus contos. Mas talvez nem todos saibam sobre “O caminhão de Lixo de Stephen King” (King’s Garbage Truck). E é bem provável que apenas um grupo ainda mais seleto de pessoas conheça a chama inicial de “O caminhão de Lixo de Stephen King.”

A época se situa entre 1966-1971, e Garbage Truck era uma coluna em um jornal da Universidade do Maine, na qual um estudante chamado Stephen King falava sobre os mais diversos assuntos, praticando e polindo todas as suas ferramentas de escrita adquiridas ao longo dos anos. Bonito, né? Também achei. Mas gosto mais da ideia destilada, que possui uma bela correlação com uma palavrinha linda da língua portuguesa: esculacho. Sim, senhoras e senhores, Steve esculachava colegas, desafetos, esculachava principalmente os professores que abusavam da autoridade. Em outra palavra: Steve tinha um senso de humor… cruel.

Jornal antigo onde King publicava seus contos
Fonte: https://lopezbooks.com/

King avançou pelos estudos e se tornou (de certa forma ironicamente) professor. Como autor, King evoluiu tanto que catapultou o gênero horror ao status de fenômeno mundial. E graças aos deuses cáusticos da escrita, seu humor continuou preservado por muitos e muitos (livros) anos.

Isso me lembra de Cujo, que logo nas primeiras páginas nos brinda com o peido vazante de um carteiro. Sim, se você riu, está no caminho certo. Se não riu, recomendo fortemente que leia Cujo, ou qualquer obra mais antiga de King.

Importante dizer que muitas vezes o humor de Stephen King passa longe da inocência de um peido, e que quase sempre nos sentiremos culpados tão logo esses risos acidentais nos escapem. O que eu quero dizer é que talvez não seja muito politicamente correto, ou direito, ou fraterno, o ato de rir quando alguém se machuca feio, quebra uma perna, recebe uma inspeção anal dos agentes anti-tráfico, ou simplesmente… morre. Sim, algumas vezes as mortes que King nos proporciona são tão bizarras que tudo o que nos resta é aquele sorriso que nasceu mais feio que o bebê-diabo de Osasco.

Outra faceta de King, essa um pouco mais tardia, é o hábito de vez ou outra nos revelar segredos, suas fontes de inspiração. Encontramos um pouco disso em muitos livros, mas principalmente em coletâneas de contos, como por exemplo Ao Cair da Noite e O Bazar dos Sonhos Ruins. Não acredito que King nos conte tudo (uma regra básica dos contadores de história), mas ele nos conta o suficiente para que acreditemos nele.

LEIA TAMBÉM: FIRESTAR: A LOCADORA DE SANGUE DE CESAR BRAVO

Em Antologia Macabra, King se apresenta em um de seus contos mais raros: O Compressor de Ar Azul. Li a história com um apetite voraz, afinal de contas, a chance de obter um conto inédito de Stephen King sempre me deixa eufórico. Conhecendo a obra do rei como eu conheço (não estou me gabando, essa é apenas a verdade), não achei que me surpreenderia tanto assim, mas essa história me jogou de volta no tempo.

Capa do livro Antologia Macabra

King abusa do gore, pega pesado, chame como você quiser. Não obstante, ele também entretém, acolhe e diverte. A história do compressor de ar azul me apanhou pelo pescoço, e como uma maldição bem-vinda, ela só me libertou ao final do conto, quando eu já não sabia bem se estava rindo de divertimento ou de nervosismo. Não… Eu não vou enganar você que chegou até aqui… Era de divertimento mesmo. Divertimento errado, perigoso e transgressor, divertimento de um tempo onde Steve era apenas um garoto desenhando charges nos corredores de uma escola do Maine.

Se você quer beber da fonte na essência, dê uma boa olhada em O Compressor de Ar Azul — a diversão é garantida. Se esse não é seu objetivo, se você gosta de um King mais polido e refinado, quase professoral, leia do mesmo jeito: eu garanto que a sua visão sobre o rei jamais será a mesma.

Cesar Bravo
Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Pela DarkSide®, o autor já publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, e traduziu o poema narrativo de Stephen King, The Dark Man: O Homem que Habita a Escuridão.

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