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Assistindo a O Exorcista pela primeira vez em 2023

Terror que resiste ao teste do tempo

23/10/2023

Em algum momento na primeira metade dos anos 1990 — talvez em 1993, celebrando o aniversário de duas décadas —, O Exorcista foi exibido à noite na TV aberta. Nessa era jurássica, em que ainda era possível viver um cotidiano desprovido de celular, internet e redes sociais, fui autorizado a levar a mesinha com a televisão de tubo de catorze polegadas da sala para o meu quarto. Sendo à época um bom garoto de 9 anos, criado no catolicismo, passei pelo conflito interno de querer muito satisfazer a curiosidade de assistir um filme com uma promessa de apavoramento tão intenso; ao mesmo tempo, sabia que não era um filme para a minha idade, e tinha medo de me aterrorizar demais, a ponto de precisar passar a noite em claro com todas as luzes possíveis ligadas. 

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A solução foi assistir a outro programa mais leve no mesmo horário e, apenas nos intervalos dele, trocar de canal, de forma sorrateira, com o dedo preparado no botão “voltar” do controle remoto e a acordo interno de que, se algo apavorante demais estivesse acontecendo, eu tiraria dali de imediato. Como há uma longa construção até enfim chegarmos à imagem clássica da Regan endemoniada de camisola e íris amarelas, fiquei um tempo indo e vindo nos canais, acessando apenas segundos desconexos de cenas aleatórias do filme a cada quinze minutos. O maior pedaço visto, que acabei não conseguindo evitar, foi já no desfecho, quando o Padre Karras entra no quarto, encontra o Padre Merrin falecido, executa a extração final do demônio e cai pela janela — cena assistida toda entrecortada, pois fiquei indo e vindo entre os canais no meio dela, sem conseguir nem a assistir por inteiro nem a abandonar em definitivo.

Foi o mais perto que cheguei, em quase quarenta anos, de assistir O Exorcista. Por já ter visto “o final”, e por ter, ao longo da vida, me deparado com tamanha quantidade de cenas soltas exibidas em programas televisivos ou documentários sobre cinema de terror, tantas referências em outras obras, tantos comentários em resenhas de outros filmes, acabei acumulando certa sensação ilusória de ser dispensável ver o filme todo. Sensação essa intensificada por algum resquício de uma indisposição adolescente a perder tempo com “filme velho” (portanto, chato, cansativo, dispensável) — algo bastante incoerente da minha parte, tendo em vista as diversas categorias de “filmes velhos” as quais sempre gostei, como os do Hitchcock ou os vários filmes bíblicos na linha de O Manto Sagrado e Barrabás.

Uma experiência completa para o clássico

A convite da DarkSide®, em julho de 2023, enfim, pela primeira vez, assisti por inteiro a O Exorcista. Escolhi a versão estendida, com os doze minutos adicionais, para acessar a experiência completa. Concluída a sessão, posso afirmar com segurança, caso haja alguém ainda em dúvida sobre assisti-lo ou não: fiquem tranquilos, pois de forma alguma se trata de um “filme velho”

Registro a seguir alguns comentários sobre minha percepção vendo pela primeira vez esta película de cinco décadas atrás:

Fui surpreendido por quão moderno o filme parece. Talvez pela agilidade da edição, ou pelo modo como a trilha sonora é incorporada de forma precisa, para acentuar certas emoções, a obra parece muito recente. A justaposição de cenas no sonho de Karras aos 00:46:36 — com a medalha caindo em câmera lenta, a sra. Karras saindo e entrando no acesso subterrâneo ao metrô, o padre correndo para alcançá-la — poderia ter sido extraída de qualquer longa contemporâneo. Nem certos elementos de época mais suscetíveis a reprovarem no teste do tempo, como os penteados e figurinos, causam a sensação de algo ocorrido há meio século. Mesmo a tecnologia do filme, no contexto dos inúmeros exames aos quais a menina endemoniada é submetida, parece muito avançada para o que eu esperaria da medicina do início da década de 1970 — a ponto de eu ter ficado com a sincera dúvida se o aparelho se movendo em torno da cabeça de Regan, na cena aos 00:56:20, seria uma máquina real da época ou algum tipo de invenção futurista criada para causar no público a sensação de que, de fato, os personagens recorreram a todos os meios tecnológicos no nível mais elevado de avanço; toda a ciência ocidental moderna falhou, portanto, daqui em diante, o tratamento ocorrerá apenas fora dela.

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Resistindo ao teste do tempo

Embora em 2023 o filme tenha soado muito menos apavorante do que eu esperava, ele ainda é perturbador. Impressiona o ritmo da narrativa, e o quão bem sucedido é o esforço na direção de causar desconforto e inquietação mais do que em provocar medo em si. 

É preciso destacar, porém, que minha imunidade ao terror foi construída a partir de um acúmulo de todo o investimento posterior de Hollywood em produzir monstros tão ou mais arrepiantes quanto a Regan possuída. Como cria da década de 1980, tive o privilégio de assistir às primeiras temporadas de Arquivo X dubladas na TV aberta ainda antes dos meus 15 anos. E escrevo estas linhas na semana em que um filme com o literal título O Exorcista do Papa está em cartaz, com tamanha publicidade, e o trailer de uma sequência para a película de 1973 acabou de ser lançado, com a atriz intérprete de Chris MacNeil, hoje uma senhora idosa de cabelos brancos, retornando ao papel. 

exorcista do papa

Levando isso em conta, ainda que não tenha me amedrontado, consigo imaginar o quanto o filme deve ter tido um impacto avassalador no público da época de seu lançamento. Penso aqui em algo similar ao que me ocorreu após ter assistido à trilogia Star Wars em 2002: àquela altura, diversos outros filmes mais impressionantes em termos de efeitos especiais já haviam saído — sendo Jurassic Park e Independence Day os que mais me surpreenderam. Então, embora alguns efeitos da saga intergaláctica não parecessem tão extraordinários para mim, tendo sido exposto a tudo o que veio depois, ainda conseguia imaginar o quanto devia ter causado uma forte impressão à época. A experiência de nunca ter sido exposto antes a imagens tão chocantes quanto a de naves espaciais disparando lasers ou meninas endiabradas falando com voz gutural e vomitando bile verde deve ter sido tão surpreendente naquele tempo quanto foi, no meu, ver dinossauros vivos convivendo com seres humanos e uma enorme nave alienígena destruindo a Casa Branca.

Surpresas e spoilers

O elemento menos verossímil de todo o filme não me pareceu nem a possessão demoníaca e tampouco os elementos sobrenaturais em si. O que mais desafiou minha suspensão da descrença foi a coexistência de uma variedade de sacerdotes multitarefa: um padre arqueólogo, um padre boxeador e conselheiro psicológico, e um padre pianista animador de festas. Não sei se isso era comum no catolicismo norte-americano da década de 1970, porém, os padres com os quais eu convivi no interior do Rio Grande do Sul da década de 1990 com certeza eram muito menos prolíficos.

Ainda no tópico do quão perturbador o filme é. A cena da masturbação com o crucifixo é um spoiler lendário; duvido que em alguma conversa sobre cinema de terror entre jovens na década de 1990 não havia alguém para informar os demais a respeito dessa trívia. Então, não sobrou choque possível para algo tão comentado e já esperado quando enfim o vi

reboot de o exorcista

No entanto, na sequência da masturbação, Regan fica em pé e puxa a cabeça da própria mãe, a esfregando na genitália ensanguentada, ordenando-a que a lambesse — esse spoiler eu não tinha tomado. Fui pego por inteiro de surpresa. Só imagino a plateia em 1973!

Um aspecto que não funcionou tão bem para mim foi a cena aos 00:24:40, em que Chris coloca a filha para dormir e a informa sobre os planos para sua festa de aniversário. Regan comunica à mãe que está tudo bem ela convidar Burke Dennings, pois sabe que Chris gosta dele. A cena tem a intenção de sugerir que ou Regan está amadurecendo e se tornando capaz de identificar certos aspectos do mundo adulto — como a suposta tensão sexual entre Chris e Burke —, ou que a menina recebeu a informação de algo dessa ordem estar ocorrendo via Capitão Howdy. Tanto numa direção como na outra, a cena acaba não funcionando tão bem para mim devido a não ter identificado a menor fagulha de desejo entre os dois personagens — nem até ali, tampouco no decorrer da trama. 

Breves acenos à diversidade

Num filme em que todo o elenco principal é branco, foi um alento ver uma atriz negra, aos 00:32:23, interpretando a enfermeira conduzindo os exames em Regan. Em especial, considerando que na cena imediatamente anterior, na qual a menina está na sala de espera aguardando, é uma enfermeira loira quem surge para conduzi-la. Então, além de ser um breve aceno à inclusão racial, se torna acertada a inserção desta sequência de exames médicos (ausente do filme original, e inserida na edição estendida, para melhorar o ritmo do trama). 

exorcista

A presença casual de uma mulher negra enfermeira — bem como de um visível médico negro no grupo de profissionais da saúde reunidos com Chris aos 01:08:00 — ajuda a equilibrar um possível racismo casual na fala do Padre Karras aos 01:07:10, ao se exasperar com o Tenente Kinderman e lhe dizer, em tom de piada, que os responsáveis pelo assassinato de Burke Dennings deveriam ser “os dominicanos”. A piada funciona tanto no sentido de sugerir uma rivalidade entre linhagens distintas do catolicismo (a jesuítica de Karras e a dos frades seguidores de São Domingos), como em relação à falsa concepção de latino-americanos (tais como os imigrantes da República Dominicana) serem sempre prováveis suspeitos de crimes.

Por alguma desatenção minha, à primeira vista, não identifiquei que o pianista, na cena que ocorre pouco antes de Regan urinar no tapete da sala, era um padre. Juntando as informações que tinha até ali — ser uma festa na casa de uma atriz profissional, com a presença de colegas de trabalho; a declaração do pianista de sua crença num paraíso em formato de clube noturno todo branco, no qual ele é a atração principal e a plateia lhe ama; e, em especial, a entonação em “and they love me!” —, achei positiva a representatividade LGBTQIAP+, ao exibir um personagem gay apenas se divertindo entre seus amigos, todos felizes cantando, num filme de horror em pleno início da década de 1970.

Na sequência da cena da festa, o mesmo personagem (o qual só identifiquei como sendo o Padre Dyer após rever o filme), de camisa gola rolê vermelha — uma cor que dificilmente o catolicismo norte-americano dessa época deixaria de associar ao diabo e/ou ao comunismo, mas enfim — vai visitar o Padre Karras, levando consigo uma garrafa de whisky roubada (!!!) do reitor da faculdade. A cena sugere grande intimidade entre os dois, culminando com o Padre Dyer tirando os sapatos de Karras ao botá-lo para dormir, e este segurando o braço do outro antes dele sair, num gesto afetuoso de agradecimento. 

padre karras em o exorcista

Com isso, o filme aciona certo código bastante corriqueiro no cinema hollywoodiano, no qual, caso o Padre Dyer fosse uma freira, provavelmente conduziria a plateia a esperar algum interesse romântico surgindo entre os personagens. Outros dois elementos posteriores acrescentam camadas a essa possibilidade.

Na penúltima cena, aos 02:05:02, Chris se despede de Padre Dyer entregando-lhe a medalha de São José, justificando achar que ele teria interesse em mantê-la. Trata-se da medalha arrancada por Regan do pescoço de Karras aos 02:01:15, ação que pode ter sido a responsável por enfim desproteger o padre o suficiente para o demônio pular do corpo da menina para o dele. Dyer encara a medalha em sua mão por alguns instantes, numa reação emocional interna. E então, a devolve a Chris, dizendo que ela deveria guardá-la. 

A intenção dos criadores parece ter sido comunicar que a aceitação da medalha por Chris indicaria uma abertura da personagem, até então ateia, a se converter ao catolicismo. Mas o ponto que me chama a atenção é o ato anterior dela, de decidir entregar a medalha a ele. O modo como ela o faz sugere duas coisas: um entendimento do objeto como sendo uma recordação pessoal do Padre Karras, algo como uma herança do falecido. E a identificação da existência de um vínculo afetivo tão forte entre os dois padres que Chris entende ser mais cabível Dyer receber a medalha, ao invés de encaminhá-la a seus parentes — sabemos que Karras tem pelo menos um tio vivo, visto em cena aos 00:36:40. A hesitação dele em fazê-lo confirma a existência do sentimento, embora não necessariamente signifique algo de ordem romântica.

padre karras nas escadas em o exorcista

Porém, logo após isso, aos 02:07:27, o tenente Kinderman convida o Padre Dyer para o cinema, num evidente aceno à cena anterior, ocorrida aos 01:07:10, em que a mesma proposta fora feita ao Padre Karras. Os dois diálogos ocorrem de forma quase idêntica, com Dyer repetindo as mesmas palavras de Karras — “Qual filme? Quem atua nele? Esse eu já vi”. Após a recusa indireta do convite, ao informar já tê-lo assistido, Padre Dyer contém um sorriso involuntário, como se risse de uma piada interna; ao que o tenente Kinderman responde: “Mais um”. Mais um o quê? Mais um padre cinéfilo chato? O filme não nos dá tempo de elaborar, pois o personagem de imediato sugere um outro convite, agora para o almoço, e saem os dois caminhando pela rua, de braços enlaçados. 

Talvez minha leitura das diferentes expressões não hegemônicas de masculinidade nesses personagens esteja carregada demais por expectativas modernas e cínicas; ainda assim, acho interessante a (provavelmente não intencional) ambiguidade resultante ao se ler esses elementos em conjunto.

Um olhar atual que volta cinquenta anos

Encerro comentando o aspecto mais arrepiante, a meu ver, em assistir este filme em 2023, após certos fatos ocorridos no Brasil e no mundo nos últimos anos.

Retornando à festa na casa da protagonista, aos 00:40:05. Enquanto o mordomo Karl serve bebidas aos convidados na sala, Burke Dennings o confronta, questionando-o sobre ter participado da Gestapo. Irritado com a pergunta, o mordomo responde apenas “sou suíço” e sai, ignorando o novo questionamento de Burke sugerindo associação de Karl com Goebbels. Aos 00:40:52, Karl está sozinho na cozinha, reabastecendo as bebidas em sua bandeja, e o diretor de novo o acusa de ser nazista. Dessa vez, o mordomo parte para cima de Burke, apertando seu pescoço e ameaçando matá-lo. Nisso, várias pessoas surgem para apartar a briga, incluindo a dona da casa.

jantar o exorcista

O curioso é que nenhum dos demais personagens, após separarem Karl e Burke, se interessa em esclarecer o fato: há algum fundamento na acusação? Karl colaborou ou não com o nazismo? E ainda que não tenha feito nada, hoje, ele compartilha ou não dos ideais de Hitler? O filme não volta a essa microtrama, e saímos dele sem saber se Karl era ou não nazista, nem a razão pela qual Burke tinha tanta certeza de que ele era. 

De fato, é dispensável a explicação: a cena funciona em si mesma, como um aceno ao início no Iraque, quando, logo antes de contemplar a estátua de Pazuzu, o Padre Merrin se depara com dois cachorros raivosos brigando no deserto. Porém, se o objetivo fosse apenas esse — o de reprisar animais em fúria, a tensão elevada pela proximidade com o demônio —, os criadores do filme poderiam ter escolhido qualquer outro motivo mais banal. A decisão de colocarem um personagem presumidamente judeu acusando um europeu idoso imigrante de ser nazista, no contexto informal de uma festa, estabelece uma conexão interessante com a trama principal da presença terrena do mal absoluto. 

Em 1973, ainda não haviam se completado três décadas desde o término da Segunda Guerra Mundial. Em termos da sensação de distância (ou proximidade) temporal, é como pensarmos em 2023 quanto tempo faz desde o lançamento de filmes como Entrevista com o Vampiro ou Pulp Fiction. Porém, por óbvio, os efeitos coletivos e individuais de um episódio brutal da história tal como essa guerra, com as proporções de devastação humana da escala do holocausto judeu e da aniquilação de Hiroshima e Nagasaki como essa teve, levam muito mais do que três décadas para causar a sensação de serem algo de um passado distante e já resolvido. Portanto, faz todo o sentido que, para um norte-americano judeu em 1973, a ferida estivesse aberta o suficiente para que, mesmo no contexto de uma festa, a suspeita de estar diante de um colaborador do nazismo despertasse tamanha repugnância e revolta a ponto de não ser possível conter o ímpeto de desmascará-lo e cobrá-lo por sua responsabilidade. 

exorcista jantar

E o que mais me perturba nesse ponto do filme é que, após separar os dois, Chris ralha com Burke (“O que há com você?!”) e não com Karl — o funcionário dela que estava, segundos atrás, apertando o pescoço de um de seus convidados, e ninguém menos que o diretor do filme no qual ela atua. A isso, se soma outra cena mais adiante: Burke, completamente embriagado, precisa ser conduzido por Chris e Sharon até a porta, pois há um carro aguardando para levá-lo para casa. O sorriso trocado pelas duas (“nunca o vi assim antes!”) enfatiza certa mensagem de que houve um excesso da parte dele. Como se Burke, o sujeito irreverente que bebeu demais e fez piadas sobre pelos pubianos, houvesse passado do ponto. Como se suas investidas contra o mordomo fossem apenas a inconveniência de um sujeito bêbado agindo como bêbados agem, dizendo coisas sem sentido, perdido no próprio delírio marinado no álcool.

E nisso, os personagens perdem de vista (e talvez conduzam o público à mesma atitude) o fato de que Karl nunca negou diretamente a acusação de Burke. Não manifestou indignação em ser confundido com sujeitos sórdidos como os nazistas, nem optou pelo caminho covarde de recusar o próprio passado e se afirmar como alguém que nada teve a ver com nada aquilo, mesmo tendo. Sua primeira resposta foi apenas informar sua procedência suíça (como se o erro de Burke tivesse sido apenas o de identificar errado seu sotaque, e confundi-lo com alguém de nacionalidade europeia distinta). A segunda foi a de ameaçar matá-lo e espremer seu pescoço.

Existe algo aqui que é a ambiguidade proposital dos criadores de O Exorcista — a tensão como algo derivado da presença demoníaca na casa; a acusação sem fundamento feita por um judeu bêbado sem papas na língua —, e algo que é o problema concreto de que, para aqueles personagens (assim como para muitas pessoas daquela época), a hipótese de haver um nazista circulando ileso, em plena liberdade, sem nenhuma punição ou consequência por seus atos, não é algo que causa comoção geral. Apenas Burke, em função de sua ascendência judaica, se importa com isso; e ao manifestar sua repugnância, não apenas é agredido, como ainda é considerado culpado pelos demais por ter provocado a agressão sofrida. Como se sua embriaguez o tivesse levado a fazer uma ilação completamente despropositada, e a violência física decorrente tivesse sido inevitável. Não me parece que haja qualquer despropósito em suspeitar em 1973 que um idoso branco europeu, imigrado aos Estados Unidos, com sotaque germânico (ou suíço) pudesse ter tido alguma participação do lado perdedor da Segunda Guerra. 

Isso acrescenta ainda mais uma camada em um filme cujo horror se constrói sobre a hipótese de não estamos a salvo de demônios nem em nosso próprio lar. Karl é retratado em todo o filme como um senhor bem educado e eficiente, embora não sem certa parcela sombria, como na cena com ele surgindo de surpresa no sótão e alarmando Chris. O mal que é normalizado e escondido atrás de uma máscara de polidez e eficiência é talvez ainda mais apavorante que um demônio invadindo o corpo de uma garotinha de doze anos. Pois mesmo antes de alterar a aparência da garota — conferindo-lhe palidez extrema, artérias pulsantes, pupilas dilatadas, vômito verde, voz gutural —, a inadequação do comportamento da jovem sempre foi visível, portanto, identificável, portanto, tratável. Mas o mordomo nazista, tão polido, tão eficiente; esse passa despercebido. 

o exorcista

Para combater demônios, há farta literatura e ferramentas disponíveis. Para combater o mal que certos humanos decidem por livre e espontânea vontade abraçar, não há exorcismo possível.

LEIA TAMBÉM: 10 CURIOSIDADES ASSUSTADORAS SOBRE O FILME O EXORCISTA

Sobre Renan Santos

Avatar photoRenan Santos nasceu em 1984, em Rio Grande (RS), mas mora há tempos em Porto Alegre. É graduado em Direito e em Ciências Sociais, mestre em Antropologia e doutor em Sociologia. Cursou a oficina literária do escritor Assis Brasil em 2010, e teve dois contos publicados na antologia De Tudo Fica Um Pouco. Escreve e desenha desde pequeno; agora, também traduz.

1 Comentário

  • Daniel Lima

    25 de outubro de 2023 às 09:32

    Ótima análise! Revela algumas das várias camadas deste clássico. Poucos sites oferecem esta reflexão. Parabéns, Renan.

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